AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Cabanas de Tavira

| 11/09/2025

 

Lembro-me da primeira vez que pisei Cabanas de Tavira. Vindo da estação de comboios, deixava-me guiar pelo cheiro a maresia da Ria Formosa. A minha namorada e a sua avó abriam caminho entre a calçada portuguesa, as típicas casas baixas e os restaurantes, onde algumas pessoas saboreavam o ar e a serenidade algarvia, sentadas nas esplanadas.

O calor, que no Algarve costuma apertar, tornava-se mais suave por ali, atenuado pela brisa que se misturava com a ria.

Há um homem a quem chamam “Aranha”, que, quase numa dança, tira as amêijoas debaixo da areia. Pessoas e turistas juntam-se para assistir ao espetáculo: um homem entre os trinta e os quarenta anos, de braços e pernas longos, que quase parece partir-se em bocados se o vento da ria soprar com mais força. Contudo, com elegância, retira da água os petiscos mais desejados.

Vejo o dançarino-pescador a passar na rua principal com um balde cheio de caranguejos.“Por 20 manéis (euros), leva isto tudo”, atira a um conhecido, que, com os olhos, já corteja o manjar ainda em forma de vida.

Ria Formosa. Cabanas de Tavira

“(…) deixava-me guiar pelo cheiro a maresia da Ria Formosa.” Foto: Margem da Ria Formosa em Cabanas de Tavira, Algarve . © Beatriz Cazenave

O homem, depois de uma breve inspeção aos caranguejos, aceita o negócio e entrega-lhe uma nota de 20 euros. O “Aranha” passa-lhe automaticamente o balde, com um sorriso de orelha a orelha. Presumo que aquele dinheiro chegue para acalmar a dor do seu ofício com uns, bem merecidos, baldes de cerveja.

A praia de Cabanas de Tavira fica arrumada numa fina tira de terra, à qual só se chega de barco. Os homens que fazem a travessia carregam consigo as cicatrizes do sol quente. Com a pele escura, marcada por um bronzeado bem trabalhado, óculos escuros e um ar reservado, têm todos uma certa postura de lobos do mar — ainda que, na verdade, sejam lobos da ria. Mas a aura de homens do mar, essa, ninguém lhes tira.

A fortaleza era o sítio preferido do saudoso cão Pipas. Assim que o soltavam da trela, disparava como uma flecha para aquela construção do século XVII. O tempo passou, e agora é um hotel turístico. O Forte de São João da Barra marca a paisagem, relembrando que, apesar da beleza natural do sítio, por ali também passou parte da história de Portugal.

Um dia, perdemo-nos por uma terra que ficará para sempre na memória: Cacela Velha. Um sítio que mais parece uma varanda para o mar. Foi ali que, em 1833, uma pequena força militar comandada pelo Duque da Terceira desembarcou para ajudar as forças liberais de D. Pedro na guerra civil contra o absolutismo miguelista.

Percebemos que esta terra, com vista para o azul do mar, inspira grandes conquistas. Sentimo-nos tão pequenos, e quase sem fôlego, ao avistar a imensidão do oceano e o seu fim que se perde de vista.

Além disso, foi o berço do poeta árabe Ibn Darraj al-Qastalli, no século X. Nesta aldeia de Cacela encontram-se várias construções tradicionais dos séculos XVII e XVIII, típicas casas algarvias da época, ruínas islâmicas e ainda vestígios da presença romana.

Por mais que passem os tempos, os homens procuram sempre os sítios mais bonitos para construírem as suas casas e verem assim o futuro.

Ria Formosa. Cabanas de Tavira

“Por mais que passem os tempos, os homens procuram sempre os sítios mais bonitos para construírem as suas casas e verem assim o futuro.” Foto: Margem da Ria Formosa em Cabanas de Tavira, Algarve . © Beatriz Cazenave

Ficamos sempre presos a estes sítios, mesmo depois de voltar ao rebuliço de Lisboa. Mas pairam na nossa memória, contando os dias para podermos voltar. Locais onde o tempo passa mais devagar, o ar tem outra leveza ao entrar no organismo. As pessoas são diferentes e conseguimos o tão desejado e necessário “desligar” da urbanidade. Para nos “ligarmos” à natureza e à sua admirável simplicidade.

 

Pedro Castro Gomes, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, é natural de Lisboa e trabalha como Analista de Media.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This