Lembro-me da primeira vez que pisei Cabanas de Tavira. Vindo da estação de comboios, deixava-me guiar pelo cheiro a maresia da Ria Formosa. A minha namorada e a sua avó abriam caminho entre a calçada portuguesa, as típicas casas baixas e os restaurantes, onde algumas pessoas saboreavam o ar e a serenidade algarvia, sentadas nas esplanadas.
O calor, que no Algarve costuma apertar, tornava-se mais suave por ali, atenuado pela brisa que se misturava com a ria.
Há um homem a quem chamam “Aranha”, que, quase numa dança, tira as amêijoas debaixo da areia. Pessoas e turistas juntam-se para assistir ao espetáculo: um homem entre os trinta e os quarenta anos, de braços e pernas longos, que quase parece partir-se em bocados se o vento da ria soprar com mais força. Contudo, com elegância, retira da água os petiscos mais desejados.
Vejo o dançarino-pescador a passar na rua principal com um balde cheio de caranguejos.“Por 20 manéis (euros), leva isto tudo”, atira a um conhecido, que, com os olhos, já corteja o manjar ainda em forma de vida.

“(…) deixava-me guiar pelo cheiro a maresia da Ria Formosa.” Foto: Margem da Ria Formosa em Cabanas de Tavira, Algarve . © Beatriz Cazenave
O homem, depois de uma breve inspeção aos caranguejos, aceita o negócio e entrega-lhe uma nota de 20 euros. O “Aranha” passa-lhe automaticamente o balde, com um sorriso de orelha a orelha. Presumo que aquele dinheiro chegue para acalmar a dor do seu ofício com uns, bem merecidos, baldes de cerveja.
A praia de Cabanas de Tavira fica arrumada numa fina tira de terra, à qual só se chega de barco. Os homens que fazem a travessia carregam consigo as cicatrizes do sol quente. Com a pele escura, marcada por um bronzeado bem trabalhado, óculos escuros e um ar reservado, têm todos uma certa postura de lobos do mar — ainda que, na verdade, sejam lobos da ria. Mas a aura de homens do mar, essa, ninguém lhes tira.
A fortaleza era o sítio preferido do saudoso cão Pipas. Assim que o soltavam da trela, disparava como uma flecha para aquela construção do século XVII. O tempo passou, e agora é um hotel turístico. O Forte de São João da Barra marca a paisagem, relembrando que, apesar da beleza natural do sítio, por ali também passou parte da história de Portugal.
Um dia, perdemo-nos por uma terra que ficará para sempre na memória: Cacela Velha. Um sítio que mais parece uma varanda para o mar. Foi ali que, em 1833, uma pequena força militar comandada pelo Duque da Terceira desembarcou para ajudar as forças liberais de D. Pedro na guerra civil contra o absolutismo miguelista.
Percebemos que esta terra, com vista para o azul do mar, inspira grandes conquistas. Sentimo-nos tão pequenos, e quase sem fôlego, ao avistar a imensidão do oceano e o seu fim que se perde de vista.
Além disso, foi o berço do poeta árabe Ibn Darraj al-Qastalli, no século X. Nesta aldeia de Cacela encontram-se várias construções tradicionais dos séculos XVII e XVIII, típicas casas algarvias da época, ruínas islâmicas e ainda vestígios da presença romana.
Por mais que passem os tempos, os homens procuram sempre os sítios mais bonitos para construírem as suas casas e verem assim o futuro.

“Por mais que passem os tempos, os homens procuram sempre os sítios mais bonitos para construírem as suas casas e verem assim o futuro.” Foto: Margem da Ria Formosa em Cabanas de Tavira, Algarve . © Beatriz Cazenave
Ficamos sempre presos a estes sítios, mesmo depois de voltar ao rebuliço de Lisboa. Mas pairam na nossa memória, contando os dias para podermos voltar. Locais onde o tempo passa mais devagar, o ar tem outra leveza ao entrar no organismo. As pessoas são diferentes e conseguimos o tão desejado e necessário “desligar” da urbanidade. Para nos “ligarmos” à natureza e à sua admirável simplicidade.
Pedro Castro Gomes, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, é natural de Lisboa e trabalha como Analista de Media.










