
Nem todas as terras portuguesas, exceptuando as nossas maiores urbes, podem ostentar uma lista tão ilustre de escritores que aí residiram durante períodos mais ou menos prolongados de tempo como Vila do Conde: Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, José Régio, Saúl Dias, Ruy Belo, Valter Hugo Mãe. É possível que todos ou quase todos tenham visitado a singular capela de Nossa Senhora da Guia.
Alguns deixaram na sua obra o testemunho de idas ao edifício religioso mais antigo de Vila do Conde (há referências em documentação do século XI), localizado na extremidade sudoeste da cidade. No poema “Romance de Vila do Conde”, escreve José Régio:
Até Senhora da Guia
Me deixava ir devagar,
Até Senhora da Guia,
Que entra já dentro do mar,
Como uma pomba que as ondas
Receassem de levar;
Talvez como uma gaivota
Colhida num vendaval…
Ou rosa branca, trazida
Quem sabe de que lugar,
Que embaraçando nas pedras,
Ficasse ali, sem murchar,
O pé metido no rio,
A flor já n’água do mar.

A capela de Nossa Senhora da Guia é o edifício religioso mais antigo de Vila do Conde. Foto © Eduardo Jorge Madureira
Além de visitantes ilustres, e entre eles se incluirão o rei D. Luís e a rainha D. Maria Pia, que, em Setembro de 1887, foram em cortejo até à capela de Nossa Senhora da Guia, muitos terão sido e continuam a ser os anónimos a rogar protecção para si e para os seus perante a imagem da Senhora da Guia.
Poderá ter sido ela a interceder para que, na praia com o seu nome, Ruy Belo não se afogasse mortalmente, mas foi ao nadador-salvador que o socorreu, o Senhor Joaquim Baltasar, “o banheiro da Senhora da Guia”, que o poeta dedicou a epígrafe de Monte Abraão.
É impossível ir à capela de Nossa Senhora da Guia e não lembrar a extraordinária “Fala de um Homem afogado ao largo da Senhora da Guia no dia 31 de Agosto de 1971”, que começa assim:
A mim morto no mar entre algas e corais
que notícias me dais aí da superfície
dessa única terra onde vivi
e foi minha ambição morrer pra nunca mais?
Ainda cheira a esteva por aí?
É impossível ali ir e não pedir à Senhora da Guia para velar pelos que, ontem e sempre, correm risco de vida. É impossível não lhe rogar que nos poupe a qualquer naufrágio.
Referências:
José Régio – Poesia I. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004
Ruy Belo – Obra Poética (volume 2). Lisboa: Presença, 1981
Este é um tempo propício a viagens e passeios, tenham eles como destino lugares novos e longínquos ou que fiquem à distância de uma prazerosa caminhada a pé, a partir de casa. Entre esses lugares, há paisagens, edifícios, trilhos, cidades ou aldeias que revigoram e nutrem a vida interior. Na rubrica “Lugares revelados”, o 7MARGENS dá a conhecer alguns desses locais. Os colaboradores e leitores que queiram partilhar um texto (e foto) sobre o seu “lugar revelado”, poderão enviar os materiais para setemargens@setemargens.com.









