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Cardeal Marc Ouellet

Com os olhos no Sínodo

Cardeal Ouellet quer que a Igreja volte a valorizar os carismáticos

| 25/09/2024

Cardeal Marc Ouellet

Para o cardeal canadiano, “alguns estão confusos, outros já estão dececionados com os poucos resultados tangíveis que foram alcançados nos últimos três anos” de processo sinodal. Foto © Dominicanas do Espírito Santo 

O cardeal Marc Ouellet, que foi até recentemente uma peça influente na Cúria Romana, acaba de intervir nas vésperas do arranque da segunda sessão do processo sinodal da Igreja Católica, com a publicação do livro Palavra, Sacramento, Carisma – Igreja Sinodal, riscos, oportunidades.

Editado em italiano pela Cantagalli, em francês pela Parole et Silence e em espanhol pelas Publicaciones Claretianas –  a edição em inglês está a caminho – o autor, que se conta entre os participantes do Sínodo, propõe-se apurar se a Igreja quer “conversão missionária ou confusão”. É o que se lê na apresentação das várias edições e que está subentendido na capa, quando alude aos “riscos e oportunidades” que se colocam a uma “Igreja sinodal”.

Numa apresentação desta obra com cerca de 300 páginas, realizada na última terça-feira, 24, em Roma, Ouellet deu a entender o que considera serem os riscos do Sínodo e, por conseguinte, as razões que o levaram a trabalhar com afinco para propor aos membros sinodais a sua visão.

Segundo a correspondente no Vaticano do Religion News Service (RNS), Claire Giangravé, a proposta central do cardeal é levar o Sínodo a “preocupar-se menos em criar algo novo e mais em valorizar o que já está lá”.

Recordando que o processo desencadeado pelo Papa Francisco em 2021 levou as igrejas locais a refletir sobre os problemas e dificuldades, que incluíram assuntos “quentes” como o lugar das mulheres na Igreja ou a pastoral dos LGBTQ, o autor do livro alertou, na linha do que os dirigentes do Vaticano já anunciaram, que na sessão final do próximo mês os debates estarão centrados na questão de “como se tornar uma igreja sinodal em missão”.

Mas ainda assim, com temas problemáticos como o repensar as estruturas e modos de funcionamento da Igreja Católica a todos os seus níveis, de forma a alinhar com o espírito da sinodalidade, alguns debates vivos são esperados na aula sinodal.

Para o cardeal canadiano, “alguns estão confusos, outros já estão dececionados com os poucos resultados tangíveis que foram alcançados nos últimos três anos”, enquanto que “muitos estão preocupados com a divisão na igreja”.

Segundo o relato do encontro com os jornalistas feito pelo Vatican News, o fio condutor do livro é representado pela proposta de revalorização dos carismas, os dons que “o Espírito Santo espalha com liberdade e criatividade”, mas que, faz notar o autor, “não são valorizados e reconhecidos”. Para tal contribui “uma cultura predominantemente clerical” que deixa a estes dons “pouco espaço ou sujeita-os a tais controlos que não podem florescer em liberdade”. Influiria também “uma visão parcial da Igreja, uma mentalidade geral de crentes que não veem o Espírito Santo a agir em todas as pessoas de Deus”.

Já o relato do RNS sugere que Ouellet, ao pretender, com o livro, “reacender o interesse pelos carismas na igreja”, nomeadamente os “mais visíveis e espetaculares”, gostaria de ver reabilitados e reconhecidos os diferentes grupos carismáticos que floresceram na sequência dos percursos seguidos no pós-Concílio, com o objetivo de “evangelizar a sociedade”.

“Hoje, muitos dos líderes carismáticos estão a envelhecer e, em muitos casos, relatos de abuso de poder ou abuso sexual lançam uma sombra sobre esses movimentos católicos de base”, recorda ainda a correspondente do RNS.

O cardeal gostaria que a Igreja viesse a “afrouxar o controle sobre movimentos carismáticos”, de forma a que esses grupos “prosperassem e evangelizassem”, “não apenas os visíveis e espetaculares, mas também carismas humildes e discretos de serviço: escuta, acolhimento, compaixão, visita aos doentes e pobres, catequistas e operadores de reconciliação”.

Sendo tido por um cardeal de feição conservadora, Marc Ouellet desenvolveu as suas funções articulando com as orientações do Papa Francisco, nomeadamente no que diz respeito ao processo sinodal. Para ele, não pode ser para “ir ao encontro das críticas dos nossos adversários” que os católicos se ocupam a “transformar ou reformar esta Igreja”, mas para seguir um “arquétipo” ou “modelo perfeito” que, citando o teólogo von Balthasar, seria Maria, a mãe de Jesus.

 

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