
“Se decompusermos a palavra burnout, encontramos, como metáfora, ‘ser consumido pelo fogo’.” Foto © Kaibab National Forest, Arizona/Wikimedia Commons.
Vamos falar do homem no século XXI. Que ser é este? Não tenho a certeza de saber responder à pergunta. Encontro frequentemente alguém que tem acesso a tudo, para quem quase nada é impossível, mas com um volume de insatisfações que tanto o desgosta… São inúmeras as queixas que dele escutamos, embora possamos distinguir algumas mesmo muito frequentes: pensamentos negativos persistentes; grande cansaço físico e psíquico; falta de vontade e de motivação; dificuldade de gostar do que gostava antes e de se entusiasmar com as pequenas, mas estimulantes pequenas coisas do quotidiano; não rara redução da autoestima ou da impressão que tem sobre si mesmo; desvalorização das suas necessidades por desânimo quase sempre progressivo; alterações súbitas de humor, irritabilidade e intolerância; dificuldades de concentração e de memória, independentemente da idade; falta de energia; lentificação na realização das suas tarefas, sobretudo naquelas que envolvem alguma complexidade; sentimento de incompetência e perceção de redução geral das suas capacidades; tendência para se isolar; em algumas circunstâncias, hostilidade, apatia e mesmo desconfiança.
Se estes sinais ocorrerem a partir do contexto profissional e se se acompanharem de sintomas físicos como cefaleias, alterações de sono, tonturas, dores musculares, palpitações, distúrbios gastrointestinais, diabetes, hipertensão, alergias, maior frequência de infeções, e/ou tantos outros, diríamos que estamos a falar de algo que faz lembrar aquilo a que se convencionou chamar síndroma de burnout.
Por tradição, alguns profissionais em áreas específicas eram aqueles que pior passavam. Começou por se perceber isto nos que trabalhavam em saúde, depois identificou-se no ensino, nas forças de segurança e, hoje em dia, pode acontecer em qualquer enquadramento profissional. Ninguém está livre.
Freudenberger, psiquiatra, foi quem primeiro identificou esta síndroma, nos anos 70 do século passado, ao perceber sinais de frustração, exaustão, desilusão, em voluntários que trabalhavam numa instituição que apoiava pessoas com dependência química.
Se decompusermos a palavra burnout, encontramos, como metáfora, “ser consumido pelo fogo”. Vão já cerca de 50 anos, pouco menos, quando esta então quase ficção foi descrita pela primeira vez.
Passou todo este tempo e, hoje em dia, diz-se que a culpa é das condições de trabalho, tantas vezes desumanas – muito que fazer e falta de recursos; excesso de responsabilidade sem reconhecimento; recompensa que não compensa… em suma, injustiça, discriminação e até conflitos éticos frequentemente demolidores.
Ninguém duvida que nunca se falou tanto em humanização e, ao mesmo tempo, se desumanizou o próprio homem, hoje em dia quase coisa, que açambarcou uma capacidade ímpar de alinhar na engrenagem que a vida impõe, porque ele mesmo continua a permitir.
Todos diferentes, mas efetivamente todos iguais, precisamos de conhecer os nossos limites antes que os ultrapassemos e, disso, resulte um cenário destrutivo que saia totalmente do nosso controlo.
Não podemos mudar tudo, mas temos de despertar para as inúmeras possibilidades que a vida, hoje corrida, também nos pode oferecer. O ritmo deste mundo em que vivemos ignora o homem, apesar de ter sido impingido por ele a si mesmo. Antes, quando falávamos de uma geração, em média, considerávamos 25 anos. Hoje o mesmo conceito representa 10, quem sabe, em breve, cinco. Isto quer mesmo dizer alguma coisa sobre o nosso desenfreado ritmo.
E, afinal, será que ainda podemos agir em prol de nós mesmos, para além das insidiosas cascas de banana que, a cada passo, pomos no nosso caminho para, depois, tropeçarmos nelas?
Sim. Podemos. Podemos ser atores humanizados e humanizantes dos nossos contextos; podemos ter atividades de lazer e de socialização mais ou menos frequentes; podemos quebrar a rotina diária, conversar com pessoas confiáveis, evitar pessoas queixosas e não esquecer, como bem nos ensinou Viktor Frankl, que somos seres em busca de um sentido.
O homem humano precisa de fugir do homem coisa e, sobretudo, de parar de o continuar a impor, quando isso for de sua, nunca julgada como tal, inconveniente conveniência.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.







