O 7MARGENS inicia com este texto a publicação de um ensaio da teóloga Cristina Inogés Sanz, com o título Do Sínodo ao Jubileu: construir a comunidade em diálogo. Nele, a autora pretende fazer uma reflexão sobre o que pode ser o futuro próximo da Igreja Católica na sequência do Sínodo sobre a Sinodalidade e da celebração do Jubileu convocado pelo Papa Francisco para o próximo ano. O percurso analisa o caminho de Jorge Mario Bergoglio desde a sua eleição – e mesmo antes, na Conferência de Aparecida, em 2007 – até à convocação do sínodo de 2021-24, a sua “aposta mais forte”. O sentido da sinodalidade, a teologia de uma Igreja de inclusão, a importância da escuta e o lugar da esperança são algumas etapas do caminho proposto por Cristina Inogés. O 7MARGENS publicará este texto durante as próximas semanas, sempre às sextas-feiras.
“Começa por fazer o que é necessário, depois o que é possível,
e de repente estarás a fazer o impossível”
(atribuído a Francisco de Assis).

Um momento da assembleia do Sínodo, em outubro 2024: a “aposta mais forte” do Papa Francisco. Foto © Clara Raimundo/ 7MARGENS.
A Igreja sinodal chama-nos a uma mudança profunda como instituição, mas, sobretudo, a uma mudança pessoal. A mudança, a conversão pessoal, não afetará apenas o nosso modo de ser Igreja, mas afetará mais direta e principalmente o nosso modo de viver o cristianismo ou, se quisermos ser mais precisos, o nosso modo de ser cristão. A sinodalidade é uma realidade eclesial, mas tem um significado humano que, muitas vezes, é ignorado. Não é algo abstrato.
Francisco foi desenhando, ao longo do seu pontificado, linhas de ação claras que sempre tiveram as pessoas como eixo central. Foi-nos mostrando um modo de estar de acordo com o Evangelho, mas, longe de nos dar tudo feito, foi usando a sua sábia pedagogia para nos fazer ver, por nós mesmos, o caminho a seguir.
A aposta mais forte, sem dúvida, foi o Sínodo da sinodalidade onde, pela primeira vez, todo o Povo de Deus pôde participar. Este convite à participação de todos – que inclusivamente foi feito para os não-crentes – permitiu-nos descobrir uma realidade que, estando presente e de forma evidente, nos tinha passado despercebida: que sabemos pensar, que sabemos articular os nossos pensamentos e que sabemos escutar-nos sob a orientação do Espírito. Por incrível que pareça.
A neurose de Freud, o ópio do povo de Marx, o desencanto de Weber ou o super-homem de Nietzsche e muitas teorias sobre a religião falharam. Mas é preciso reconhecer que a religião na Europa mudou; especialmente o cristianismo e a sua prática. A sociedade mudou a forma como olhamos e vemos o fenómeno religioso. E não devemos ter medo disso.
O importante hoje é não perder a oportunidade de ver a crise da religião como uma grande oportunidade de aprofundar a fé para ver um Deus que acredita em mim, que acredita em nós e que, por esse motivo, é um desafio, um desafio para novos espaços, tempos, maneiras e formas de moldar a fraternidade universal que não pode permanecer na utopia. É a hora de matar os deuses ao nosso redor para dar lugar a Deus, o Deus da paz. (1)
Tudo começou com um “boa noite!”

O Papa Francisco, na noite da sua eleição, inclinado depois de pedir a bênção do povo para com ele: “sinodalidade sem a nomear.” Foto reproduzida da transmissão vídeo do Vaticano.
O processo sinodal que estamos a viver – e que veio para ficar, mesmo que não seja rápido – não começou em outubro de 2021. Para ser mais precisa, na verdade começou em 13 de março de 2013, quando Francisco saiu para a loggia central [da Basílica de São Pedro] e pronunciou a saudação menos esperada, mais surpreendente e mais humilde que alguém poderia pensar: “Boa noite!”
Não foi o único gesto naquela noite: referiu-se a si mesmo como bispo de Roma – sinodalidade sem nomeá-la, composta pela comunhão das Igrejas locais em comunhão com o bispo de Roma – e deixando claro que o centro da Igreja era e é Cristo, não o sucessor de Pedro; não houve gestos de triunfo; pediu aos presentes na Praça de São Pedro que rezassem e o abençoassem. Surpreendente!
Sem o sabermos, sem nos apercebermos disso na altura, assistimos à apresentação de um Papa – bispo de Roma – que escolhera pela primeira vez na história da Igreja o nome profético de Francisco e que, como pudemos ver mais tarde, reuniu na sua pessoa três características de três santos da Igreja: o modo simples de ser de Francisco de Assis, a capacidade de dizer, de se expressar com palavras que todos compreendem de Domingos de Gusmão e a persistência missionária de Francisco de Xavier. (2)
A sua primeira viagem mostrou a sua prioridade: Lampedusa, a pequena ilha italiana que acolhe os barcos de quem chega depois de uma viagem perigosa em busca de uma vida melhor, tornou-se no primeiro destino de um papa que não deixou de reclamar a atenção dos próximos, os católicos, e estranhos, os restantes (era assim que os víamos, como estranhos, até então).

Indígenas na eucaristia de abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia: desde a Conferência da Aparecida, em 2007, que se ensaiava a possibilidade de outra teologia para toda a Igreja. Foto © Arlindo Homem
Para quem ficou com a ideia de que as surpresas se iam ficar por aí, a sucessão de acontecimentos demonstrou o contrário. Tínhamos um papa que, além de vir do fim do mundo – como ele mesmo disse – vinha da terra que tinha permitido que germinasse uma teologia diferente, tão apaixonante quanto discutida, mas que já dava sinais de permitir algumas alterações importantes. Desde a V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, conhecida como Conferência da Aparecida, realizada entre 13 e 31 Maio de 2007. Seria possível outra teologia para toda a Igreja? É evidente que, neste ponto, a teologia como tal não é o problema, mas sim a liberdade para fazê-la, para criá-la e as consequências de o fazer, porque… “o teólogo autêntico tem de ser humilde e admitir que a realidade está a mudar”(3) e porque “corresponde à tarefa do teólogo assumir elementos da cultura do seu ambiente que lhe permitam mostrar um ou outro aspeto dos mistérios de fé”.
Tal tarefa é certamente árdua e arriscada, mas em si mesma é legítima e deve ser promovida […].” O teólogo, sem nunca esquecer que também é um membro do povo de Deus, deve respeitá-lo e comprometer-se a transmitir-lhe ensinamentos que não prejudique minimamente a doutrina de fé. A liberdade inerente à investigação teológica exerce-se dentro da fé da Igreja. Por isso, a audácia que amiúde se impõe à consciência do teólogo não pode dar frutos e “edificar” se não for acompanhada pela paciência do amadurecimento. As novas propostas apresentadas pela inteligência da fé “não são mais do que uma oferta a toda a Igreja. Muitas coisas devem ser corrigidas e ampliadas num diálogo fraterno até que toda a Igreja possa aceitá-las. A teologia, no fundo, deve ser um serviço desinteressado à comunidade dos crentes. Por esse motivo, da sua essência fazem parte a discussão imparcial e objetiva, o diálogo fraterno, a abertura e predisposição de mudança sobre as próprias opiniões”. (4)
Este Papa humilde, a partir daquela saudação (ainda divertido ao assistir como os que o rodeavam não sabiam o que fazer), convidou-nos a sonhar com um novo tempo com o cheiro da frescura, formas criativas de acolhimento e som de sinfonia. Em suma, lembrou-nos que a cabeça – e o coração, acima de tudo – pensa a partir do chão que os pés pisam.
Uma referência, não o centro

O Papa Francisco e participantes do Sínodo num momento de oração, junto da imagem de Cristo Ressuscitado: Francisco quer colocar no centro da vida da Igreja Jesus Cristo e o seu Evangelho, Foto © António Marujo/7MARGENS
A Igreja, que nasceu num contexto de conflitos e perseguições, cresceu entre divisões e tensões, e a sua história mostra um itinerário feito de avanços e retrocessos. Pode ser um poder que acaba cegando muitos, mas também está onde ninguém quer estar e quando ninguém quer estar. Tem uma história negra de abusos onde os pedidos sucessivos de perdão não mostram qualquer progresso neste flagelo, uma vez que continua a haver casos atuais e o abuso de poder está muito mais enraizado do que parece. E parece muito.
Francisco quer afastar a Igreja da autorreferencialidade e colocar no seu centro Jesus Cristo e o seu Evangelho, para ser uma referência para os crentes e não-crentes. Aproveita qualquer oportunidade tanto para denunciar o clericalismo e o carreirismo, como para chamar a nossa atenção para os que habitam as margens e as periferias da Igreja e da vida.
Isto, que é uma realidade na Igreja denunciada de forma tão contundente por Francisco, tem o risco de que alguns a qualifiquem de populismo ou de demagogia sem resultados. No entanto, Francisco não tem medo do risco (ou da realidade) de se sentir insultado. E ele é o papa mais insultado e maltratado na história da Igreja. Agora, a isso temos de acrescentar os desejos públicos de alguns – e os silêncios cúmplices de outros – que cheguem rapidamente ao céu.
O nosso Papa sabe das diferenças e da diversidade da nossa Igreja. Na verdade, ele definiu-a como um poliedro (5). Um poliedro que não é de agora, mas de sempre, e vemos isso no Livro dos Atos dos Apóstolos quando nos falam do Concílio de Jerusalém. Pedro e os cristãos que vinham do judaísmo queriam impor as suas regras e as suas formas aos que se incorporavam a partir do paganismo; por outro lado, estes recém-chegados eram guiados por Paulo, judeu, e catequisados por Lucas, que reivindicava para estes últimos os mesmos direitos que tinham os judeus que reconheciam Jesus de Nazaré como o Messias.

Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro: “O mais próximo da esperança que estamos a viver agora.” Foto: Direitos reservados.
E aí vem Lucas, pensando na sua comunidade que acima de tudo tem medo de Deus, com a parábola do filho pródigo ou do bom pai; Deus como Pai que acolhe, que espera o regresso do filho e que, quando o vê, corre a abraçá-lo sem perguntas, para vesti-lo, calçá-lo e para festejar. Não esqueçamos o anel – uma peça fundamental, embora esquecida – que o torna novamente herdeiro com os mesmos direitos que o irmão tem mais velho. É este Deus que Lucas tanto precisa de anunciar à sua comunidade assustada, bem como à comunidade que vinha do judaísmo – representado no irmão mais velho – para deixar muito claro que para Deus somos todos iguais.
Paulo, que Lucas acompanhou durante algum tempo, dirá aos Gálatas (Gál 3:26-28): “Em Cristo já não há judeu nem grego, nem escravo nem homem livre, nem homem nem mulher, todos somos um no mesmo Senhor.”
A Igreja nunca foi atrás das modas que são impostas à sociedade e Francisco, que deu sinais claros de ser uma pessoa com ideias próprias, que não se fecha ao diálogo com quem quer que seja, ensina-nos que é possível dialogar uns com os outros, conhecermo-nos, escutarmo-nos uns aos outros, respeitarmo-nos uns aos outros fora de qualquer moda, por simples coerência evangélica.
O mais próximo da esperança que estamos a viver agora foi o Concílio Vaticano II. Os tempos, os momentos e ciclos de mudança são tempos de oportunidade que têm de conviver com profetas de calamidades. Agora a mesma coisa está a acontecer: é hora de sermos catalisadores de esperança, como Igreja e individualmente. O Concílio Vaticano II assumiu e proclamou uma nova missão na Igreja. Fez isso com [as constituições] Lumen Gentium e Gaudium et Spes que são, só pelo título, uma missão e um compromisso. Esta tinha de ser a tarefa primordial: “Ser a luz das gentes” anunciando a “alegria e a esperança”.
As atitudes que tornam isto realidade são a escuta, o diálogo e o serviço. Se as atitudes forem contrárias, ou seja, ouvidos tapados, imposição e poder, nunca chegaremos a parte alguma.
Não estamos num mundo sem religião, mas num mundo que enveredou por outros caminhos espirituais e que há que explorar sem medo, com métodos, técnicas e formas pastorais novas. Uma Igreja de referência? Depende de nós.
O sentido humano da sinodalidade

“O Sínodo sobre a Sinodalidade mostrou-nos como é importante escutarmo-nos uns aos outros.” Foto © Luis Alexander Minchola Jiménez/ Pexels
O cristianismo nunca deveria ter sido convertido numa religião (6) no sentido de separar uma parte, mínima, dos restantes, os sacerdotes – o clero – com influência, muita influência, sobre o resto. Na realidade, Jesus deixou-nos um modo de vida que é muito mais comprometido, embora menos rígido do que uma religião.
Jesus cumpriu a sua missão na vida quotidiana, na realidade de cada dia e longe do templo, do qual apenas se aproxima para protagonizar o único episódio de raiva monumental que tem em todo o Evangelho: um episódio ligado ao abuso de poder e que teve como consequência a expulsão dos vendilhões (Mateus 21,12-17; Marcos 11,15-18; Lucas 19,45; João 2, 13.25). Ele disse que vinha para que tivéssemos vida e a tivéssemos em abundância (João 10, 10). Além disso, Ele disse que era a Vida (João 14, 6) e que tinha vindo para transmitir essa Vida.
Ele, que era o “Verbo feito carne” (João 1, 14), isto é, Deus feito carne e que nessa carne assumiu toda a realidade humana, toda a condição humana, toda a diversidade humana, também ele totalmente humano veio dar-nos essa humanidade e essa maneira concreta de ser humano: a humanidade fraterna do único Filho de Deus para que também possamos viver na fraternidade de sermos e sabermo-nos filhas e filhos de Deus e, assim, totalmente humanos.
O Sínodo sobre a Sinodalidade que, recordemos, significa “caminhar juntos”, mostrou-nos como é importante escutarmo-nos uns aos outros, deixando os preconceitos de lado; portanto, se desde já não somos capazes de incorporar na prática da nossa vida eclesial, a presença e as vozes daqueles que durante séculos e séculos estiveram nas margens, nas periferias e até a fronteira da Igreja, de que sinodalidade falaremos? O que aprendemos? Como nos sentirmos irmãos e irmãs e vivermos a fraternidade?, como sermos próximos dos outros?
Notas
(1) Agradeço a Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco os seus três livros Do Eu Solitário ao Nós Solidário, Lisboa 2011, Verso de Kapa; Somos Pobres, Mas Somos Muitos, Lisboa 2013, Verso de Kapa; e Todos Nós Somos Sendo, Lisboa 2022, Contraponto, nos quais vi refletido tudo o que eu queria contar neste texto e que foram a base para o elaborar.
(2) F. Ventura e J. Franco (2013), Somos Pobres, Mas Somos Muitos, Lisboa: Verso de Kapa.
(3) António Marujo, entrevista com Juan Masiá, in Deus Vem a Público (2011), Lisboa: Pedra Angular, pág. 388.
(4) Congregação para a Doutrina da Fé, Instituições Donum Veritatis Sobre a vocação Decreto eclesial do Teólogo, março de 1990, n.º 10 e 11.
(5) Um corpo geométrico cujas faces são planas e encerram um volume infinito. Simbolicamente, é a figura geométrica em que convergem todas as parcialidades que conservam a sua originalidade, de forma que a identidade peculiar está cordialmente integrada na comunidade e a enriquece, sem ser isolada ou esterilizada.
(6) Sobre este assunto, recomendo a leitura do livro de T. Halík (2023), A Tarde do Cristianismo – o tempo da transformação, Paulinas Editora, onde ele mergulha nessa realidade.

Cristina Inogés Sanz. Foto © António Marujo/7Margens
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado nos Cadernos Cristianisme i Justícia (Barcelona) e cedido ao 7MARGENS pela editora e pela autora.
Próximo texto, dia 15: “Todos, todos, todos: Hoje, há excluídos na Igreja? – A mesa de todos”









