
Estima-se que um quarto dos padres no ativo sejam casados. Foto © Viktor Cap.
A Federação Latino-americana de Sacerdotes Casados (FLSC) lamentou junto do secretariado geral do Sínodo que o universo de padres que deixaram o exercício do ministério presbiteral, calculado em perto de cem mil, à escala do planeta, não esteja representado na assembleia sinodal que vai iniciar os seus trabalhos na próxima quarta-feira, 4 de outubro, em Roma.
Em declarações ao 7MARGENS a partir do Chile, o presidente daquela Federação, Sebastián Cózar Gavira, reconheceu que, no plano latino-americano, houve algum reconhecimento do papel dos padres casados na Igreja, na fase continental do processo sinodal. A Federação esteve representada quer na Assembleia Eclesial que decorreu ao nível do subcontinente quer numa das sessões da etapa continental, em que Gavira interveio como padre casado, o que, segundo disse, “foi novidade”.
No entanto, aparentemente, a realidade dos padres casados parece ir estar ausente do Sínodo em Roma e a FLSC quer saber a razão pela qual, “sendo dezenas de milhares os ministros da Igreja nessa condição”, não foram convidados a estar presentes. Ainda que admita que não é conhecido o número real de padres casados, o presidente refere que o cálculo que se costuma fazer aponta para um quarto dos padres no ativo, que andam à roda de 400 mil.
Numa carta dirigida ao secretário-geral, o cardeal Mario Grech, de que o 7MARGENS teve conhecimento, aquela Federação queixa-se de falta de resposta ao pedido de participação. A este jornal, Sebastián Cózar Gavira conta que, nos últimos meses, as diligências feitas em ordem à participação puseram em evidência uma prática em que cada parte empurrava responsabilidades para a outra: o secretariado geral do Sínodo recambiou-o para o Conselho Episcopal Latinoamericano (CELAM) e este para Roma.
A Federação, que existe há algumas décadas, refere na carta a Grech que, “ao longo da história, a norma do celibato não foi muitas vezes devidamente observada e que se impôs silêncio sobre o assunto para não prejudicar a imagem dos ministros da Igreja”.
Contudo, contrapõe, “hoje, é evidente que, em inúmeros casos, essa ocultação foi um erro que resultou em prejuízo para a Igreja”.
A seu ver, grande parte dos episcopados “não teve a clarividência suficiente para enfrentar esta realidade como seria preciso, nem para compreender que não queríamos cair numa duplicidade de vida”.
A não resposta dos bispos à manifestação de disponibilidade de muitos padres casados para se envolverem em tarefas de evangelização tem sido para muitos deles “uma fonte de desilusão e de perplexidade, e até afetou alguns deles na sua fé”, acrescenta o documento.
Esta sensação de abandono, de falta de interesse, de ir além de “palavras simpáticas”, também se sente em Portugal. Para Fernando Ferreira, que é o coordenador do Fraternitas Movimento, que agrega algumas centenas de padres dispensados do ministério (casados ou não), eles são normalmente bem recebidos em algumas dioceses, mas depois os bispos não lhes “pedem nada”.
Para o coordenador da Fraternitas, a expectativa face ao Sínodo, quando à problemática dos padres casados, não é grande. Mas manifestou alegria pelo facto de o atual Papa ter alterado os termos do documento em que a Santa Sé aceita a interrupção do exercício do ministério. Outrora, explica, “tudo era proibições, a não ser que não desse escândalo público; agora, facilita-se a vida, salvaguardando que não haja situações de escândalo público”.
Sebastián Cózar resume, de certo modo, o sentimento das duas realidades geográficas, quando sublinha, na carta dirigida ao cardeal Grech: “dói-nos não sermos escutados e esperamos que, num futuro não muito distante, sejamos tidos em consideração para partilhar a fraternidade”.









