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Do Sínodo ao Jubileu (3)

Contruindo comunidade em diálogo: Entre os habitantes de Samaria está o nosso futuro

O 7MARGENS iniciou há duas semanas a publicação de um ensaio da teóloga Cristina Inogés Sanz, com o título Do Sínodo ao Jubileu: construir a comunidade em diálogo.

Nele, a autora pretende fazer uma reflexão sobre o que pode ser o futuro próximo da Igreja Católica na sequência do Sínodo sobre a Sinodalidade e da celebração do Jubileu convocado pelo Papa Francisco para o próximo ano. O percurso analisa o caminho de Jorge Mario Bergoglio desde a sua eleição – e mesmo antes, na Conferência de Aparecida, em 2007 – até à convocação do sínodo de 2021-24, a sua “aposta mais forte”. O sentido da sinodalidade, a teologia de uma Igreja de inclusão (enunciada na segunda parte do texto), a importância da escuta e o lugar da esperança são algumas etapas do caminho proposto por Cristina Inogés. O 7MARGENS publicará a última parte na próxima sexta-feira.

Pobreza em Angola. Foto W J GomesPixabay

Pessoa sem-abrigo [ou pobre] em Angola: “Hoje, os feridos na estrada são muitos.” Foto © W J Gomes | Pixabay

 

Francisco fala connosco com muita frequência sobre a Igreja samaritana e, algumas vezes, creio que diluímos essa imagem e nos perdemos na parábola. Hoje, os feridos na estrada são muitos. As margens da estrada, as periferias da vida e as fronteiras da experiência vital são espaços preenchidos com seres feridos, famintos de cuidado, de escuta e, acima de tudo, de amor, que reclamam a nossa atenção e a quem tentamos calar a boca com uma palavra, uma resposta fechada e única sem estarmos conscientes de que, apesar de situações semelhantes, todo o ser humano é um mundo para ouvir, atender e amar de uma maneira única e pessoal.

 

A parábola do Bom Samaritano

(Lucas 10, 25-37)

Esta parábola coloca-nos algumas questões que importa considerar:

  1. a) Considerar o desafio da narrativa. Quando alguém se aproxima de Jesus, em muitas ocasiões, Ele responde contando, narrando uma história que dá à pessoa a possibilidade de pensar por si mesma, de escolher como enfrentar a sua vida. Não podemos esquecer que Jesus quer que sejamos livres – como seu Pai, Deus, nos criou – e capazes de pensar e agir pelos nossos próprios meios.

Às vezes, de tanto ouvirmos o Evangelho, tornamo-nos um pouco insensíveis ao que diz, aos detalhes. Por exemplo, as parábolas de Jesus geralmente não são histórias religiosas; pode haver personagens que o são, mas falam-nos sobre atitudes, gestos humanos e as situações mais comuns. Tão pouco sabemos como terminam as parábolas de Jesus. Não sabemos se o filho mais velho entrou ou não na festa ou se entendeu que tudo tinha sempre sido tão seu como do seu irmão; ou o que fez o estalajadeiro com a tarefa de cuidar do samaritano ferido. Tão pouco sabemos se quem as escuta as leva à prática ou não.

No bom samaritano, a chave parece estar em “quem é o próximo?”; contudo, Jesus responde sobretudo a “como te fazes tu próximo?” Porque essa é a questão final de Jesus: “Quem dos três te parece que foi próximo do que caiu nas mãos dos salteadores?”

Neste momento, a sinodalidade dá-nos a possibilidade de ser e de fazer. Ser próximo é algo opcional, não somos obrigados. Jesus não obriga como os dez mandamentos; Jesus apresenta um programa nas Bem Aventuranças, que lemos no capítulo cinco de Mateus e no capítulo seis de Lucas. Se vives assim, de acordo com esse plano de vida, serás feliz; caso contrário, também pode ser que o sejas, mas assim serás mais feliz. De qualquer forma, a decisão é de quem escuta as parábolas, as propostas de Jesus. Se não o fizermos, se não nos fizermos próximos, perderemos uma boa oportunidade de experimentar na nossa própria pele a forma de vida que Jesus nos ensina. Mas se o fizermos, a experiência será única e, ainda hoje, a contracorrente, porque nos coloca na pele de muitas pessoas que passam por experiências, não boas, que talvez nunca vivamos.

  1. b) Colocarmo-nos perante a misericórdia. No Dicionário da língua espanhola da Academia Real Espanhola, a misericórdia é definida como a “virtude que leva o espírito a compadecer-se dos sofrimentos e misérias dos outros”. E estabelecem-se como seus sinónimos: compaixão, piedade, compreensão, benevolência, bondade, pena … entre outros.

Vincent van Gogh, O Bom Samaritano, a partir de Delacroix (De barmhartige Samaritaan, naar Delacroix), Saint-Rémy, Maio 1890, óleo sobre tela, 73 x 60 cm, The Kröller-Müller Museum, Otterlo, Países Baixos. Direitos reservados.

Vincent van Gogh, O Bom Samaritano, a partir de Delacroix (De barmhartige Samaritaan, naar Delacroix), Saint-Rémy, Maio 1890, óleo sobre tela, 73 x 60 cm, The Kröller-Müller Museum, Otterlo, Países Baixos. Direitos reservados.

 

O samaritano, que não se considera a si mesmo bom, mostra-nos que ser próximo é tornar-se impuro, que é o mesmo que Jesus fazia quando tocava quem dele se aproximava. Portanto, ser próximo converte-nos em “misericordiosos impuros”, embora “impuros misericordiosos” que cuidam e, portanto, integram, porque cuidar é integrar. Portanto, se a misericórdia nos torna impuros, isso significa que nos coloca perante a nossa fragilidade. Jesus não temeu abraçar a sua fragilidade, o que se tornou claríssimo no final de sua vida.

  1. c) Treinar o olhar. O samaritano vê. O texto diz: “Ao chegar junto dele e ao vê-lo, sentiu pena”. O olhar profundo é o que não julga, é o que coloca os contextos ao nível mais profundo. A maneira de olhar tem consequências.

Olhar e ver não é mesmo. Todos viram: o sacerdote, o levita e o samaritano, mas este último, além de ver, olhou com compaixão. Treinar o olhar é ver e observar. E é necessário treinar o olhar porque a realidade é mais complexa do que a nossa visão dual: branco/preto, corpo/alma, sagrado/profano. A complexidade e a ambivalência não se encaixam na dualidade em que nos movemos. Portanto, este processo sinodal é uma ótima oportunidade para ampliar a tenda e o olhar (Isaías 54,2)… Quando olhamos certas realidades com as quais nos encontramos ou nos rodeiam, essa maneira de ver tão concreta e consciente comove as nossas entranhas.

Todos temos a experiência de sentir como o nosso íntimo se emociona quando recebemos uma má notícia ou quando vemos o sofrimento de alguém próximo. Curiosamente, falamos sobre as entranhas da misericórdia de Deus e como essa misericórdia está relacionada com a fragilidade que antes citei.

Olhemos uma coisa. O nosso cérebro está superprotegido pelo crânio duro. Os pulmões e o coração têm a proteção das costelas. No entanto, as entranhas não têm proteção e é aí que a misericórdia vive, no mais desprotegido, no mais frágil. Temos um Deus que “faz das tripas coração” e nos ensina a fazer o mesmo.

  1. d) Fortes na fragilidade. Existe uma realidade evidente, mas que, por estranho que pareça, deixa muitos surpreendidos pelo facto de que todas as pessoas que Jesus curou acabaram por morrer. Isso aconteceu porque a cura de Jesus era biográfica, não biológica. Optar livremente pela misericórdia, convertermo-nos em “misericordiosos impuros”, saber que entramos na fragilidade, torna-nos muito mais fortes; quase me atreveria a dizer que, além de fortes, a fragilidade nos torna mais valiosos.

Quando experimentámos a fragilidade e, com ajuda, a nossa pessoa se recompôs, se restaurou, definitivamente curada, acontece-nos o mesmo que às peças de porcelana japonesas, tão frágeis quanto caras, que, quando quebram, são reconstituídas através da técnica chamada Kintsugi, que consiste em reconstruir a peça com ouro. Apesar de visíveis as cicatrizes, sendo reparadas com ouro, a peça acaba sendo muito mais valiosa do que antes de quebrar.

Experimentar a fragilidade dá-nos mais valor porque nos permite ver que não somos melhores do que ninguém, que não estamos livres de viver ou sofrer o mesmo que outras pessoas. Portanto, a sinodalidade do Bom Samaritano ensina-nos que não podemos ser próximos “assépticos”, que ser próximo tem consequências para a nossa vida – para nós próprios – porque podemos quebrar-nos, mas a fragilidade torna-nos mais fortes e valiosos.

Contudo, também devemos perguntar-nos: como contribuímos nós? Importa ter sempre em mente que a pessoa mais fácil de se dececionar é a própria. Há que ter muito cuidado com a aspereza. Ter muito claro o presente não significa que desde já vamos conseguir tudo. O processo de descobrir, de encaixar, de contribuir leva tempo. Aqui, o cuidado deve entender-se como o cuidado de prestar atenção a nós mesmos, porque isso afetará os cuidados com e para os outros.

E se tudo isso é parte do que a sinodalidade nos dá a partir da parábola de um homem que não passou ao longe é porque nos quer treinar e conduzir ao desafio.

 

O encontro de Jesus com a samaritana

(João 4, 5-42)

Berna (Bernadette Lopez), A Samaritana; imagem reproduzida de Évangile et Peinture.

Berna (Bernadette Lopez), A Samaritana; imagem reproduzida de Évangile et Peinture.

 

O encontro entre Jesus e essa habitante de Samaria também aponta para o nosso futuro: é uma manifestação da humanidade, da fragilidade de Jesus. Estamos a assistir a uma manifestação do mais simples e, ao mesmo tempo, contundente, que se expressa em três palavras: “Dá -me de beber”. A sua divindade não precisará de muito mais apresentação e será dita em duas palavras: “Eu sou”.

Superada em algumas homilias, embora não de todo, a sucessão de maridos que não o foram, esqueçamos o que quase sempre dizemos ou ouvimos deste texto para ver o desafio que nos lança à nossa aprendizagem sinodal. Sem deixar de reconhecer a beleza e a profundidade do encontro e do diálogo, a nossa atenção, curiosamente, não se centra em nenhum protagonismo de Jesus. Quem nos vai indicar o desafio da sinodalidade será ela, a samaritana, novamente uma mulher sem nome.

A samaritana volta à aldeia, mas não como quando saiu. O amor de Jesus por esta mulher sem nome liberta-a, fá-la sentir-se pessoa e mulher. Torna-se a primeira evangelizadora, a primeira pregadora, mas nunca mais voltaremos a ouvir falar dela. Poderia ter-se tornado uma “estrela” na sua aldeia e dizer e contar até que fosse o ponto central da pregação. Podia ter-se tornado o centro das notícias que levou à aldeia, mas não, desaparece. Ela sai do centro, abre o caminho, indica a direção para que, se quiserem saber mais sobre quem lhe disse tudo o que ela fez, eles mesmos vão falar com Ele, vão ao seu encontro. Dito numa linguagem mais atual: a samaritana não sacraliza. A samaritana lança o desafio de todos nos recolocarmos, mas especialmente em recolocar a figura do padre na igreja sinodal.

Timothy Radcliffe disse na Assembleia sinodal de outubro de 2023 que «uma Igreja sinodal será aquela em que nos formamos para um amor sem posses: um amor que nem foge da outra pessoa nem se apodera dela; um amor que não é abusivo nem frio» (1).

A Igreja de rótulos abstratos já não serve. Tudo o que foi classificado, rotulado assim, são na verdade pessoas com nome que, na maioria das vezes, esperam uma conversa tranquila e pessoal como a de Jesus com a samaritana. Essas pessoas esperam aproximar-se de uma comunidade porque quase sempre já se encontraram com Aquele que diz “dá-me de beber” que é chamado “Eu sou”. A partir deste ponto de encontro, por que criar tantos inconvenientes? Por que não aprender a sair do caminho e deixar a pessoa que se aproxima de nós seguir a sua conversa com Ele?

Este texto evangélico desafia-nos a uma cultura do cuidado mais do que necessária. E Francisco faz muito bem quando fala de “cultura de” porque é necessário criar um modo de vida saudável na Igreja.

 

Importante para padres (e para todos)

O que a sinodalidade nos está a mostrar é a oportunidade de rever os nossos comportamentos, as nossas carências enquanto comunidade, os nossos medos, porque o que o processo sinodal nos traz é o desafio de aprender uma cultura do encontro, de escuta ativa (no Espírito), de desaprender para poder aprender, como dizia Fernando Pessoa.

Esta cultura do cuidado que é comum a todos é especialmente necessária nos padres e futuros padres. Sinceramente, acredito que todos devemos contribuir para essa mudança.

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo

“A sinodalidade desafia-nos a reconhecer que a vocação não é o que a pessoa quer viver, mas o que cada um(a) não pode deixar de ser.” Foto © Clara Raimundo | 7MARGENS

 

Neste momento, o processo sinodal e a sinodalidade desafiam-nos a reconhecer abertamente que a vocação não é o que a pessoa quer viver, mas o que cada um(a) não pode deixar de ser (2). Isto, que afeta todas as vocações às quais as pessoas são chamadas pelo batismo, adquire especial relevância na formação de futuros padres porque, se não os dotarmos de todas as ferramentas necessárias para viver e desenvolver isso que “eles não podem deixar de ser”, acabarão a viver numa frustração permanente entre o desejo de ser o que não podem deixar de ser e o não saberem como vivê-lo em alguns momentos concretos de suas vidas. E não podemos esquecer que a coisa mais importante é sempre a pessoa, mais do que qualquer estrutura ou instituição e até ministério.

Estamos assistindo a espetáculos dos mais insultuosos e dolorosos, da parte de alguns clérigos cuja identidade sacerdotal não está muito ajustada. Essa identidade confusa faz com que uma parte do povo de Deus seja manipulada à vontade porque, em suma, o que eles fazem é colocar-se no centro e não a Jesus Cristo e a sua mensagem. Também estamos a assistir, por “não” estranho que pareça, ao silêncio dos bispos de suas dioceses, que, com o seu silêncio, longe de lidarem com eles e com as situações que causam, lhes dão um ar que um dia se tornará irrespirável.

O ser humano é o único ser vivo capaz de elaborar um pensamento reflexivo – ter consciência de si mesmo –, mas também é capaz de ir além de seus limites e pretender substituir Deus. Isto, numa sociedade e Igreja tão polarizadas, é julgar ser mais deus do que Deus.

A pessoa é uma prioridade – e os padres são pessoas antes de mais – porque, se a pessoa não estiver bem, nada ao seu redor ficará bem e afetará tudo quanto fizer; e não podemos esquecer que todos os batizados, mas ainda mais os padres, são chamados a proclamar notícias libertadoras e não conjuntos de regras e proibições (3).  E, se quem proclama não está bem, a Palavra acabará sendo deturpada; e, deturpada, que sentido tem?

Na formação inicial dos futuros padres e depois na formação permanente, tenta-se que o homem interior seja capaz de agir juntando profundidade, autonomia, comunhão eclesial e consciência moral. Ou seja, ele precisa de vida de oração, espiritualidade, mística, experiência de Deus.

Ao longo da sua vida, diz-se que o padre deve continuar a identificar-se com Cristo servo, Cristo pastor, Cristo sacerdote e Cristo cabeça. Quando ouço e leio isso, pergunto-me: e o Jesus homem? Onde está o Jesus homem? Porque dá a sensação de que a figura e o ser do padre tendem a ser muito espiritualizados e apontando para o culto, correndo o risco de acabar sendo funcionários sacramentais e homens de reuniões para ter mais reuniões.

Sim, a sinodalidade está a guiar-nos e a desafiar-nos porque, vendo os ataques a Francisco, este é um verdadeiro desafio: recuperar a centralidade de Cristo na Igreja; Esse verbo feito carne (João 1,14) chama-nos, melhor: grita-nos, para cuidarmos das pessoas; e, repito, os padres são pessoas, não uma versão eclesial do Super-Homem. Pelo que vejo, e ultimamente vejo muito isso, dá-me a sensação de que, uma vez ordenados, estão bastante sozinhos em muitos aspetos. Apoiarem-se uns aos outros? É muito bom, mas alguma vez precisarão do apoio que a instituição não lhes dá. Cuidarmo-nos todos, uns aos outros, como comunidade, é nosso dever. Vocês, padres, deveis aprender a deixar-vos cuidar. Será bom aprender a fazê-lo todos juntos.

 

Escutar

 

A sinodalidade passa acima de tudo pela escuta. Foto © Mimi Thian | Unsplash

A sinodalidade passa acima de tudo pela escuta. Foto © Mimi Thian | Unsplash

 

Sem qualquer dúvida, a sinodalidade desafia-nos a aprender a ser uma Igreja de outra maneira e novamente todos juntos. E isso passa por aprender também a ser cristãos de outra maneira e, acima de tudo, passa pela escuta. Obviamente, pela escuta mútua, que se concluiu ser um bom método – não o único nem perfeito – para nos conhecermos e sabermos mais uns dos outros, da nossa forma de valorizarmos temas e assuntos, de ver outras realidades e, em muitos casos, de nos colocarmos na pele dos outros quando partilham as suas experiências de vida e o modo como essas experiências influenciaram a sua fé e o seu relacionamento com a Igreja. Mas também na escuta, em pequenos grupos – como discípulos da Palavra –, porque ajudará a desenvolver e aperfeiçoar essa escuta mútua dos irmãos da comunidade. Porque a verdade é que, quando as pessoas se reúnem ao redor do Verbo, se soltam palavras ocultas nas nossas vidas e presas por mil histórias. O exercício de acolher e escutar que ajuda a curar-nos não está em conflito nem em oposição ao convívio em comunidade nem com a Palavra de Deus.

A escuta deve tornar-se um modo de estilo eclesial para que todos possamos participar nos processos de decisão. Este sínodo fala-nos de “Comunhão, Missão e Participação”; pois bem, um grande desafio missionário é afirmar a escuta como uma forma de servir a Palavra e, portanto, os homens. Porque escutar é uma forma de evangelizar e temos diante de nós o desafio de criar tempos e espaços para o diálogo.

Transformar os púlpitos num espaço de diálogo e os confessionários num espaço de acolhimento não é algo que apenas vos desafia como padres, mas deve tocar todos os espaços dos nossos templos, todos os espaços paroquiais. Estamos enfrentando o desafio de construir novas arquiteturas de relacionais. Isso significa que temos de nos conhecer. Sem medo. Um grande desafio é o de nos conhecermos, estarmos juntos, decidirmos juntos e, além disso, que ninguém se destaque de ninguém. Em suma, tornar-se uma Igreja comunitária circular cujo único centro é Cristo.

 

As pessoas mais excluídas

“A realidade dos abusos torna as vítimas as pessoas mais descartadas e marginalizadas da Igreja e pela Igreja.” Foto © Lisa Runnels / Pixabay

“A realidade dos abusos torna as vítimas as pessoas mais descartadas e marginalizadas da Igreja e pela Igreja.” Foto © Lisa Runnels / Pixabay

 

A transformação passa, evidentemente, por nos identificarmos o máximo possível com a forma de vida que Jesus nos deixou. Mas essa vida é sempre surpreendente e um homem que acolhia, consolava, curava, era ternura e compaixão, também tinha o seu génio quando a ocasião o exigia.

A sinodalidade ajuda-nos a repensar; e repensar quando o fazemos na fé chama-nos a transformar e transformarmo-nos. A Jesus poderiam parecer-lhe mal muitas situações injustas que ele via todos os dias quando as pessoas se aproximavam dele com o seu sofrimento. No entanto, zangar-se de forma veemente como para não deixar dúvidas só o faz uma vez: quando ele expulsa os comerciantes do templo (João 2,13-25).

Quando em sinodalidade conversamos sobre repensar estruturas, falamos sobre transformação. Algumas terão de ser abandonadas, outras podem recuperar a sinodalidade perdida, haverá mesmo que criar novas, não para carregar mais, mas para que a sinodalidade funcione. De qualquer forma, não serão muitas porque já existem estruturas suficientes.

Quando Jesus ataca os comerciantes, ele faz isso em relação à figura do último ou dos últimos vínculos de um abuso de poder e corrupção; ou seja, o templo: animais que só ali poderiam ser comprados, com as moedas cunhadas ali e ainda saber que trocas ali se faziam. Um sistema abusivo.

Jesus não está contra o templo, mas contra o abuso exercido pelas pessoas que administravam o templo. Em suma, o que chamamos recentemente de “uma estrutura de abuso de poder” na nossa Igreja.

Se atingimos a situação que temos – e todos somos responsáveis por ação ou omissão – não é para que a solução venha apenas da parte de alguns. É por isso que acredito sinceramente que repensar e transformar é algo que temos de fazer juntos, em comunidade, que é central na vida sinodal da Igreja.

A realidade dos abusos torna as vítimas as pessoas mais descartadas e marginalizadas da Igreja e pela Igreja. Estamos todos na possibilidade de ser vítimas e autores. Ninguém se livra dessa realidade. É por isso que digo que estamos todos envolvidos em repensar e transformar. E por isso vou enunciar uma série de pontos comuns a todos os que temos consciência de ser Igreja, porque, como diz Francisco, ou nos salvamos todos ou todos nos afundamos.

A atitude que temos com as vítimas de qualquer tipo de abusos na Igreja, marcará em boa medida o nosso progresso na sinodalidade, porque, como disse São Cipriano no século III: “O que a todos afeta na Igreja, por todos deve ser decidido e aprovado”. E eu pergunto-me: as vítimas, o seu sofrimento e dor não nos afetam a todos? Acaso continuamos a acreditar que a realidade dos abusos é apenas assunto de outros? Acaso continuamos a acreditar, apesar das evidências, que quem denuncia ter sofrido abusos – repito que de qualquer tipo – o faz para atacar a Igreja? Será que não percebemos ainda que a erradicação dessa barbaridade e desses crimes – porque são crimes – passa pelo compromisso de todos e que esse compromisso pode ocorrer a partir do lugar que cada um tem na Igreja?

“A Igreja tem de ouvir todos, incluindo as vítimas – e acreditar nelas.” Foto © Pixabay

 

Algumas questões que devemos ter em conta para que todos juntos caminhemos na boa direção para ajudar as vítimas:

  1. a) Mudar de atitude. O progresso é impossível sem a mudança, e aqueles que não conseguem mudar a sua mentalidade será muito difícil que ajudem a mudar o que quer que seja. Para nós, essa mudança de mentalidade é precedida por um desejo de conversão, que é mudar o coração e de uma conversão tão pessoal como comunitária.
  2. b) Escutar de outra maneira. A Igreja tem de ouvir todos, incluindo as vítimas – e acreditar nelas – mas, com o que estamos vendo, parece que isso custa. E há que fazê-lo com uma escuta ativa, o que implica acreditar em quem fala, que está narrando algo que lhe custou décadas para poder verbalizar!
  3. c) Quebrar inércias. Nem a Igreja é o centro de si mesma nem a nossa vocação, seja ela qual for, o centro de sua existência. O centro é uma pessoa: Cristo. A partir daí, há que dar à pessoa o valor que realmente tem. Se a pessoa é uma vítima, os canais de escuta devem ser ambientes seguros e confiáveis para ela.
  4. d) Perguntar-se pessoal e comunitariamente que vida eclesial queremos: a que vê a vida como uma montanha de problemas insuperáveis ou aquela que vê cada amanhecer como uma montanha de oportunidades insuperável? Temos opções. A questão é escolher o medo que paralisa ou a decisão de querer mudar para melhor. O problema é que muitas vezes queremos passar do real para o ideal. Aparecem então as nossas depressões e os nossos desequilíbrios. É tentar um salto que ninguém foi capaz de dar. A Igreja, como instituição, deve ter um papel que abra ao desafio, isto é, no final deve apontar permanentemente para o desafio.

A Igreja deve ser um lugar para profecia e a denúncia, mas, como uma estrutura feita por homens, também tem incoerências e traições, presa muitas vezes ao poder mais do que ao serviço. São fragilidades que existem e fragilizam a sua imagem. Por isso é importante manter, ajudar, proteger e acompanhar aqueles que mantêm essas vozes proféticas – dentro e fora da Igreja – e que não se deixe o acompanhamento em vozes sussurrantes, mas em vozes que acompanham a ação.

A humanidade vive um drama de timidez que a leva a parecer incapaz. Estamos habituados a olhar para nós mesmos sem olhar para dentro e é assim que deixamos de ver os outros. Temos medo de olhar para o interior, porque não gostamos de ver os nossos medos – e menos ainda de os enfrentar. Onde estão os nossos medos, curiosamente está o nosso coração assustado; e não podemos esquecer que o medo paralisa e é o oposto à fé que vemos na Bíblia.

Não falar sobre os problemas que temos não os faz desaparecer. Esconder as vítimas ainda menos. Temos de parar de acreditar no umbigo da Igreja, isto é, de nós mesmos, do mundo. Devemos falar com coragem, porque o nosso silêncio será um retrocesso. Nunca mais o “porque sempre se fez assim”, porque se mudou muitas vezes e sem medo. Apesar da sua má imagem, um exemplo de mudança é o Concílio de Trento, que enfrentou a realidade que se lhe apresentou e fez mudanças oportunas. Foi um bom concílio pastoral – do século XVI! Agora estamos no XXI.

Foto de grupo dos sinodais na conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

“A teologia que emana deste Sínodo deve ser muito enraizada nas margens da Igreja e também dos marginalizados dentro da Igreja.” Foto © Foto © Clara Raimundo

 

  1. e) Ser ou parecer. Na vida, ou seguimos caminhos ou abrimos sendas. Temos de despertar e recuperar essa criatividade perdida! Não é um tópico, é uma realidade em que temos de acreditar. Nós podemos mudar. Sem idolatrar ninguém (que logo vêm as decepções: Marko Rupnik, Javier Garrido, Tony Anatrella …). Todos devemos ser para a Igreja e, nela, agentes de compromisso evangélico, de pastoral contextual aqui e agora, na nossa realidade vital. Parte do compromisso evangélico está em ouvir as vítimas.
  2. f) Generosidade. Não precisamos de ter soluções para a Igreja na próxima geração, mas sim mostrar que a mudança é possível. Temos de recuperar a liberdade de ser, porque é a partir dessa liberdade que será possível fazer e agir em liberdade. E esse será o melhor testemunho para as próximas gerações. Elas precisam de abrir os seus próprios caminhos e também percorrer os seus caminhos. A única coisa que elas precisam de ver é que é possível.
  3. g) Equidade. Não olhes para os outros de cima ou de baixo. Estamos todos à mesma altura. “O único momento em que um ser humano pode olhar para outro de cima é quando ele o vê caído e se inclina para ajudá-lo a levantar-se” (4). Há um aspecto da vivência da sinodalidade que algumas vezes nos escapa, a compaixão. E há que vivê-la sem explicar muito, especialmente com aqueles que são mais resistentes à mudança.
  4. h) Aprender com aqueles que não se afastam. É tremendamente impactante verificar como a maioria das vítimas, depois dos abusos e depois de serem revitimizadas por não se acreditar nelas, não abandonem a Igreja. Elas são uma lição de vida para nós, uma lição de testemunho. Aproximarmo-nos delas torna-nos próximos, mais próximos. Estamos todos na mesma vida e na mesma Igreja e afastados em algum ponto específico. Apaguemos distâncias. Se me permitem, neste ponto a que sou particularmente sensível, já foi dito que este Sínodo não é um Sínodo para ter documentos, mas para o fazer vida. Isto é muito importante. Não significa que não se faça teologia. Significa que a teologia que emana deste Sínodo deve ser incorporada como toda a boa teologia e muito enraizada nas margens da Igreja e até fora dessas margens, e também dos marginalizados dentro da Igreja. Caso contrário, não servirá muito, porque continuaremos a ter um horizonte muito limitado do que é ser “povo de Deus”.
  5. i) Coerência. Se as religiões mostram coerência entre o que elas dizem e o que fazem no tratamento das mulheres, não é menos verdade que a mesma coisa acontece com as vítimas. Não levar as vítimas a sério nem a realidade dos abusos afeta a missão, a evangelização e a imagem de Deus que queremos partilhar. Porque não podemos esquecer que os abusos na Igreja podem ser, e de facto são, muito menos em comparação com outras instituições, mas têm um matiz que os torna únicos. Na Igreja, abusa-se – em qualquer tipo de abuso – em nome de Deus. Aí está a diferença para a qual nós – cristãos e católicos – devemos ter uma coerência que não deixe dúvidas sobre essa realidade nauseabunda.

Quis deixar um espaço especial e único para as vítimas. Elas merecem que pensemos e atuemos como seguidores de quem foi a vítima por excelência: Jesus de Nazaré.

 

Notas: 

(1) Intervenção do dia 9 de outubro de 2023.

(2) María Zambrano (1989), Hacia un Saber del Alma, Madrid: Alianza, p. 94.

(3) Cardeal Jean Claude Hollercih, «La Chiesa deve cambiare, rischiamo di parlare a um uomo che non c’è più», Vatican News (2022).

(4) Comentário do Papa Francisco na Assembleia sinodal celebrada em outubro de 2023 no Vaticano.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado nos Cadernos Cristianisme i Justícia (Barcelona) e cedido ao 7MARGENS pela editora e pela autora.

 

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