O 7MARGENS iniciou na semana passada a publicação de um ensaio da teóloga Cristina Inogés Sanz, com o título Do Sínodo ao Jubileu: construir a comunidade em diálogo.
Nele, a autora pretende fazer uma reflexão sobre o que pode ser o futuro próximo da Igreja Católica na sequência do Sínodo sobre a Sinodalidade e da celebração do Jubileu convocado pelo Papa Francisco para o próximo ano. O percurso analisa o caminho de Jorge Mario Bergoglio desde a sua eleição – e mesmo antes, na Conferência de Aparecida, em 2007 – até à convocação do sínodo de 2021-24, a sua “aposta mais forte”. O sentido da sinodalidade, a teologia de uma Igreja de inclusão, a importância da escuta e o lugar da esperança são algumas etapas do caminho proposto por Cristina Inogés. O 7MARGENS publicará as restantes partes nas próximas duas sextas-feiras.

O Papa Francisco na JMJ de Lisboa: na Igreja cabem “todos, todos, todos”, sem reservas. Foto Vatican Media
Na JMJ de Lisboa, em agosto de 2023, Francisco insistiu que na Igreja cabem “todos, todos, todos!”. Era ainda outra maneira de insistir que ninguém deve estar – muito menos permanecer – nas margens, nas periferias ou até nas fronteiras. Esses espaços frios que mostram um comportamento nada fraterno existem porque nós os criamos ou, pelo menos, permitimos que existam, e agora é hora de perguntar: quem vive em cada uma dessas realidades?
Nas margens, vivem sobretudo os jovens, ávidos de partilharem os seus sonhos e suas esperanças, frustrações e deceções, que têm medo de uma vida que intuem solitária e que optam pela morte (a realidade dos suicídios entre os jovens não se pode esconder mais) porque lhes dá menos medo do que a vida; também os migrantes, que frequentemente chegam às nossas cidades vindos de longe, mas às vezes do nosso próprio país; os literalmente pobres económicos, que não conseguem chegar ao fim do mês; as mulheres – que apesar dos progressos, continuam na margem da Igreja e, em muitas ocasiões e países na margem da vida; as comunidades LGTBIQ+ – que ninguém acredita que as bênçãos as tornem totalmente incluídas; os divorciados que iniciaram uma nova vida como casal – tão pouco eles que, sendo abençoados, não são incluídos sem problemas; padres secularizados que foram condenados a viver como se estivessem fedendo; teólogos e teólogas indiciados por suas reflexões …
As periferias são habitadas por alguns dos anteriores que se veem, contudo, mais deslocados do centro, a que se somam os pobres de espírito que, curiosamente, sendo uma categoria bíblica e teológica, não são bem-vindos. Humildes, com uma voz profética que denuncia insistentemente, sem muito tumulto, com uma mensagem que vem com poucas palavras e, geralmente, apontando para a direção certa e fornecendo alguma solução.
Também andam por aqui aqueles que se movem pelos arredores da Igreja (como Simone Weil ou Gandhi fizeram) e que não se aproximam mais porque veem muita incoerência entre o que dizemos e o que nós, cristãos, fazemos.
E, finalmente, aqueles que não se reconciliaram após experiências de muita dor, porque não encontraram locais de acolhimento nem pessoas com capacidade para escutar sem transformarem o momento num interrogatório ou julgamento; e que, além disso, não acreditaram na sua história. Junto deles, também estão os que acabam de partir e saltam diretamente para a periferia procurando o lugar mais distante como um espaço seguro.

Jovens na JMJ de Lisboa 2023 (ou Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023): não se pode limitar o acolhimento de Jesus. Foto JMJ Lisboa 2023
Após a margem e a periferia, aparece a fronteira, que é o território quase inexplorado, composto na sua maioria por intelectuais que, em grande parte, são crentes que precisam de uma linguagem diferente. Curiosamente, alguns deles são crentes que, no fundo, não sabem que acreditam porque não encontraram o interlocutor oportuno.
Esse “Todos, todos, todos!” de Francisco – que nada mais é do que a expressão sumária do acolhimento de Jesus a quantos dele se aproximavam – rapidamente, ainda em Lisboa, encontrou nuances perversas como esta: “A Igreja pertence a todos, mas não é para todos”, “na Igreja não vale tudo “,” todos, todos, mas todos convertidos previamente”. São perversas porque, na realidade, se estava a limitar o acolhimento de Jesus.
Quantas vezes Jesus exigiu um certificado de pureza para alguém se aproximar dele? Quantas vezes Jesus rejeitou alguém que se aproximou dele? As perguntas que aparecem no livro de Génesis – “Adão, onde estás?” (3,9), “Caim, o que fizeste com o teu irmão?” (4,9) – continuam a ressoar hoje, porque são as mesmas perguntas que Deus nos continua a fazer. “Adão, onde estás?” Hoje poderia ser “Humanidade, onde estás?” E a vergonha da nudez diante da situação dos outros leva-nos a escondermo-nos, porque os outros são o espelho do meu ser, de como sou perante as suas necessidades, pobreza e maus-tratos. A vergonha sentida pela nudez no Génesis transformou-se numa sem-vergonha que desnuda de modo continuado as vítimas. Adão – que somos cada um dos membros da humanidade –, que foi quem deu nome a todas as criaturas, está hoje obrigado a dar nome a toda a descriação que a sua cegueira está levando a cabo.
O céu é alcançado quando se chega à terra, quando conseguimos chegar aos outros descalços, sem barreiras, desnudados e sem vergonha. Aí estará o verdadeiro paraíso.
Cristo vai transformar-se – embora sempre devesse ter sido – na chave de leitura das relações de Deus connosco e no desafio das relações entre nós, que é o que permite o relacionamento com Deus. Ninguém pode fingir ter uma relação com Deus se não tiver uma relação com os outros. Uma relação de coração, de intimidade, de empatia, estar com e para os outros.
No entanto, receio que “todos, todos, todos!” esteja um pouco longe de ser uma realidade por alguns. Temos de aprender a ter um coração capaz de bater ao ritmo do coração de Deus. Um coração apaixonado e não solitário. Um coração casado com a vida, com o mundo e com todos, todos, todos!
Hoje há excluídos na Igreja?

Católicos LGBT conversam com participantes da assembleia europeia do Sínodo em Praga: “Ao contrário do que sempre é dito, para algumas pessoas a comunidade não é o lugar de acolhimento, de encontro, de cuidado.” Foto: Direitos reservados.
Sim. Pode parecer um paradoxo, mas essa realidade existe. Dentro da própria Igreja há pessoas excluídas e, o que é pior, vivem na solidão mais absoluta. Ao contrário do que sempre é dito, para algumas pessoas a comunidade não é o lugar de acolhimento, de encontro, de cuidado. É o lugar onde elas se sentem menos seguras, onde as críticas se tornam mais contundentes, onde o insulto ou a indiferença é comum. É claro que nem todos os excluídos estão sistematicamente na margem, na periferia ou na fronteira.
Dentro da Igreja há pessoas excluídas pelo seu modo de pensar, pela forma como vivem a sua espiritualidade, pelo seu posicionamento diante de certas realidades pastorais, morais… Juntando tudo isso, obtemos o perfil de pessoas que nos colocam em “modo de questionamento”. São pessoas que estão sujeitas a um tremendo grau de indiferença, quando não de uma grande hostilidade. Elas têm visibilidade porque hoje as redes sociais – bem trabalhadas – nos oferecem muitas possibilidades, embora não deixe de haver uma indiferença institucional que é uma forma de silenciá-las, porque falta ainda – falta-nos – bastante autonomia (pelo menos a algumas pessoas) para tomarem opções pessoais que mostrem e demonstrem que somos adultos na fé. Como dizer que somos Igreja se não estamos todos? Por acaso, o povo de Deus somos “os mesmos de sempre”? E, neste caso, quem são, quem somos, os de sempre?
Não podemos cair no erro de nos tornarmos “aqueles acima dos excluídos”; ou seja, sendo nós os que conversamos e interpretamos o que eles têm para nos dizer, porque, entre outras coisas, o bem deste Sínodo e da sinodalidade é que há uma pergunta que envolve tudo e que não é explicitamente formulada: Igreja, o que estás disposta a ouvir a ti mesma?
Temos de ser um canal, uma via para que a voz, o sentimento e as propostas daqueles que são marginalizados (em grande parte pelas nossas atitudes) tenham a possibilidade real de continuar falando na nossa Igreja. E deve-se reconhecer que esse deve ser apenas o começo, porque é desejável que as suas vozes sejam ouvidas diretamente. Foi demonstrado na fase diocesana que a voz daqueles a quem tão alegremente chamamos de “remotos” deram contribuições valiosíssimas, porque a sua distância aparente permite que eles vejam mais claramente e sem qualquer ressentimento.
Portanto, desde o Sínodo, e ao referirmo-nos aos excluídos, em vez de questionar o que podemos dizer, devemos perguntar-nos o que podemos aprender, como mudar as nossas atitudes, como aprender a ouvir e, acima de tudo, como aprender a ser mais humildes e evangélicos na nossa vida diária eclesial e não eclesial. A grande mudança virá graças às mais pequenas mudanças pessoais quotidianas que incentivarão as mudanças da comunidade.
Eficácia e eficiência com amor

Jardim Henrique Lopes de Miranda, Lisboa: “Na Igreja, há muitas pessoas que nos ajudam, mas não nos amam.” Foto © João Fontes
A eficácia e a eficiência não se tornam parâmetros válidos se não forem articulados pelo amor. Não se trata de procurar fórmulas empresariais para ser eficaz e alcançar nichos de mercado – pastorais para nós – que agora não tocamos nem de longe (embora algumas práticas comerciais nos pudessem servir perfeitamente). Trata-se de tornar realidade o modo de vida de Jesus de Nazaré que, como disse antes e também na meditação de abertura do Sínodo (1), não nos deixou projetada uma estrutura de Igreja, mas um modo de vida. As soluções devem vir de um processo de conversão muito forte, diria mesmo radical, porque só assim seremos capazes de refletir com a mente e o coração.
Em 2022, participei no Congresso Hipona dos Agostinianos. Convidaram para um casamento pessoas a que chamamos sem-abrigo para partilharem tempo connosco e participarem ativamente. No momento do seu discurso, María Dolores, assim se chamava ela, disse literalmente: “Na Igreja, há muitas pessoas que nos ajudam, mas não nos amam.” Ouvir isso diretamente de uma mulher sem-abrigo não é o mesmo que escutá-lo da boca de outra pessoa, porque se for contado por um terceiro guarda-se na memória; se alguém contar na primeira pessoa, alguém que o viveu, é registado na memória do coração. E isso permanece para sempre.
Porque ser pobre não é não ter. Não ter é miséria e muitas pessoas vivem nessa situação. Ser pobre é disponibilizar a todos o que se tem. Fazer isso torna-nos solidários, irmãos na vida. María Dolores disponibilizou a todos, tudo o que ela tinha: sua experiência, seu sentimento, sua vida.
Somos todos Igreja, somos todos iguais na Igreja em virtude do batismo recebido. E mesmo aqueles que agora nos olham a partir dos limites por nós criados. É nossa responsabilidade trabalhar a vocação pessoal que cada um recebeu no seu batismo, porque o temos, ao serviço de todos e, especialmente, ao serviço daqueles que empurramos alegre e duramente para fora da igreja.
Só a partir daí poderemos não dar as soluções precisas, mas fazermos as perguntas necessárias para refletir sobre a atitude mantida até hoje com os excluídos e decidir se se deve ou não mudar. Pessoalmente, aposto na mudança e uma mudança que esteja grávida de carinho, de afeto, de amor. Em resumo, que some eficácia e amor.
A mesa de todos

Bohdan Piasecki, Última Ceia: “O núcleo da celebração não se concentra no corpo e no sangue, mas na lógica do serviço.”
Porque todos somos convidados. É curiosa, tristemente curiosa, a quantidade de leis e normas que elaboramos para criar o perfil adequado para se aproximar e participar na Mesa, à qual todos somos convidados, porque o seu único Senhor é Jesus Cristo.
Na história da festa da Páscoa que Jesus celebrou com todos os que o acompanhavam – embora os evangelhos apenas se refiram aos doze – e que nós transformámos na Última Ceia, vemos que o núcleo da celebração não se concentra no corpo e no sangue. O mais importante é que quem vai entregar a sua carne e o seu sangue se submete mais uma vez para mostrar que sua lógica é a do serviço e não a do poder.
Quando Jesus ressuscita, a subordinação continua presente. Não há nada de espetacular na forma como algumas pessoas o percebem ressuscitado. A ressurreição é silenciosa. O caso de Emaús é paradigmático. Jesus caminha com eles – caminham juntos – e a pergunta que ele coloca é uma pergunta para a pessoa, como estão eles, o que acontece com eles: “Por que estais tristes?” (Lucas 24,13-35).
A nossa abordagem à experiência que alguém está vivendo não pode ser de quem sabe tudo, mas deve ser de quem acompanha o outro na sua situação, porque, na maioria das vezes, geralmente é a melhor prova de compaixão e uma das maiores provas de amor. Isso é o que Jesus faz: ele acompanhou estes dois pobres e tristes caminhantes que tinham perdido toda a esperança, e eles experimentam o amor ao sentirem que – alguém – os acompanha na sua tristeza, e é naquela companhia que descobrem o ressuscitado. Emaús é a primeira Eucaristia na história da humanidade? Se nos lembrarmos do significado da eucaristia – “ação de graças” –, é, sem dúvida, a primeira eucaristia. Uma comunidade muito pequena que acaba celebrando porque se tinha encontrado, não porque haja uma decisão prévia de se juntarem para comemorar. Eles descobrem o ressuscitado ao partir do pão, porque o haviam acolhido anteriormente na estrada. O Jesus ressuscitado, senhor da Mesa, é descoberto apenas na missão, e a missão é movimento e entrega. A missão, sempre tão importante e ainda mais no processo sinodal, é onde se descobre realmente o ressuscitado e os ministérios necessários para continuar expandindo a sua mensagem.
A missão tem muitos cenários e cada um necessita de uma abordagem especial. A missão passa por Jericó e pelo homem ferido que as autoridades religiosas deixam de lado para não se contaminarem. Também passa pelas tentações que todos e cada um de nós viverá em algum momento da sua vida. Aqueles de nós que descobrem a sua missão também necessitarão, em algum momento, que alguém os acompanhe e se deixem acompanhar.
A Mesa é para todos. O único que poderia criar normas e leis para alguém se aproximar dela é Jesus, seu dono. E ele não o fez. E não o fará.
Nota
(1) Para mais informações, consultar www.synod.va/content/dam/synod/document/common/opening/3.-MEDITAZIONE_Inoges-Sans_SP_EN_FR_IT.pdf
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado nos Cadernos Cristianisme i Justícia (Barcelona) e cedido ao 7MARGENS pela editora e pela autora.









