
É atribuído a Yossel Rakover o seguinte poema intitulado Credo:
Creio no sol, mesmo quando não o vejo
Creio no amor, mesmo quando não o abraço
Creio em Deus, mesmo quando Deus se cala.
Será talvez uma das mais belas definições do que é a fé. A fé como resistência e decisão e não como algo que nos é dado numa lógica de sorte ou azar. No caminho de crescimento interior que percorremos ao longo da vida, o testemunho dos outros é estruturante e alicerça em nós o sentimento de pertença a uma comunidade que nos precedeu e acompanha o nosso caminho, dando-lhe um passado, um presente e um futuro. A fé vivida em comunidade é invariavelmente mais fecunda, transcendendo o nosso horizonte de vida. Mas esse precioso testemunho, por si só, não sustenta a nossa fé.
A fé tem de ser um ato de vontade e de resistência e não uma mera herança. O aparente silêncio de Deus desconcerta-nos e desafia-nos. Sob um prisma racional, há momentos em que parece não fazer o menor sentido continuar a acreditar. Tanto nas grandes “crises de fé” que possamos ter, mas também, e provavelmente com maior intensidade, nas pequenas e singelas desilusões da vida em que Deus parece ausentar-se. É extremamente cómodo convencermo-nos de que não teremos capacidade de viver de forma plena e feliz, que o curso do mundo será um caminho de precipício, que o ser humano tem um lado cruel impossível de combater, que há feridas que não têm consolo, que as injustiças e males do mundo são fruto da ausência de Deus. Desse e de outros modos nos vamos demitindo da vida e assim, invariavelmente, contribuir para que as possibilidades de bem em nós não se concretizem.
Por diversas vezes Cristo culpa os males da Humanidade pela falta de fé dos homens, mas com maior intensidade louva as graças recebidas por meio da fé. Deus delega o Seu próprio poder na fé dos Homens. Vemo-lo em algumas das curas descritas no Evangelho, resultado da fé dos que foram curados. (“A tua fé te salvou”[Mc 5, 34], “Tudo é possível a quem crê” [Mc 9,23 ]; “Se tiverdes fé como um grão de mostarda…” [Mt 17, 20]) Deus faz operar a sua Providência através da nossa fé e isso é um ato de amor imenso.
Na configuração de um deus omnipotente a fé dos Homens de nada serviria, uma vez que tudo se operaria pela vontade do próprio deus. Na imagem do Deus próximo que coloca em cada criatura todo o seu amor, a liberdade de acreditar ou não, pedir a intervenção de Deus ou afastá-lo é dada a cada um como possibilidade de caminho.
Contudo, muitos momentos há em que pedimos e Deus parece calar-se. Dificilmente hoje em dia, qualificamos uma tragédia, uma doença inesperada como um ato de Deus. Parece haver uma parte da criação que escapa à intervenção do Senhor. Será mesmo assim?
Deus não quis ser omnipotente, quis ser próximo, por isso nos criou, encarnou em Cristo e nos deixou o Espírito Santo, na convicção cristã. O nosso Deus é próximo ao ponto de ter sido condenado, torturado e morto. Deus nada fez quanto à sua própria condenação, nem garantiu que nos salvaria de todas as desgraças, prometeu antes estar sempre connosco. Essa promessa que se realiza a cada momento parece-nos por vezes invisível, como na bela oração das pegadas na areia em que um homem caminhava na praia com Deus e, ao olhar para trás, viu que em certas alturas da vida, as mais penosas, havia apenas um par de pegadas traçadas na areia. Ao perguntar a Deus porque o tinha abandonado, Ele respondeu-lhe que, nessas alturas, lhe tinha pegado ao colo.
Nenhum recanto do mundo escapa ao olhar de Deus, nada escapa ao seu olhar. Contudo, contrariamente ao que poderíamos desejar, a intervenção de Deus não é milagreira nem curandeira. É, pelo contrário, uma intervenção de presença. O nosso Deus é um Deus presente e próximo, o verdadeiro milagre da Sua providência é tomar-nos ao colo quando perdemos o chão. Essa presença não se oculta, os nossos olhos é que muitas vezes não o conseguem ver.
Isto leva-nos ao poema inicial. Não ver o sol não significa que ele não exista, não ser capaz de sentir os minuciosos gestos de amor dos outros não significa que não sejamos amados, Deus estar em silêncio não significa que não esteja junto a nós.
O difícil da fé é a persistência a que nos obriga. Nada é dado de barato ou garantido, o que nos salva é a perseverança. Crer para lá de todas as evidências parece absurdo e inaceitável, mas é precisamente aí que a verdadeira fé se manifesta.
É a presença de Deus a cada momento que nos salva, e não os milagres que julgamos que Ele deveria realizar. Se assim não fosse a vida não seria vivida, mas uma anestesia. O sofrimento, tanto como a felicidade, fazem parte da existência e caracterizam-na. Aceitar o sofrimento sem nele se comprazer é um dos nossos maiores desafios. Perceber que a forma mais perfeita de amor não é uma manipulação do que acontece numa vida mas antes acompanhá-la, perceber que o nosso Deus é um deus que está ferido pelas chagas da cruz e pelas chagas de cada lágrima ou angústia nossa, é um ato de fé.
Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.










