A minha filha Laura já nasceu adulta. Havia nela, à nascença, um porte pouco comum. Cresceu serena, de poucas falas e doce sorriso. Olhos pretos, intensos e penetrantes, focavam a vida com determinação. Havia quem a julgasse introvertida. Não era. Parecia atribuir valor às palavras. Usava-as com parcimónia e no momento certo. Até no humor era precisa e sintética ao jeito dos britânicos. Para os não atentos, Laurinha podia soar pedante. O porte altivo contribuía para tal.
Atenta a tudo. Talvez por isso observava mais do que intervinha. Comovia-se com pouco. Menina sensível, parecia viver nos pés dos outros. Na família era vista como um ser muito particular. E era. Adorava toda a família, mas não poupava ninguém a métodos pouco ortodoxos de interagir. O seu campo relacional era vasto e muito variado para uma menina de quinze anos. Interessava-se por música, dança, teatro e o estado do mundo. Lia desde criança, e com gosto. Assídua frequentadora da biblioteca municipal, tinha o poder de arrastar amigos e colegas para tardes de leitura em grupo. Era uma líder carismática.
O Natal aproximava-se. Laurinha, entusiasta da organização dos encontros familiares – a consoada e o almoço do dia de Natal – logo providenciou a lista dos convidados, o menu e a decoração da casa. Andava atrás de mim ou aproveitava as viagens na cidade – que fazíamos juntas – para me colocar perante o caderninho das festas. Nele escrevia as sugestões, as dúvidas e interrogações com que me confrontava. Assim se ia constituindo o plano. Desde os treze anos que usava esse método e eu agradecia.
Mas algo em Laurinha me chamou a atenção nesse período. Parecia andar mais introspetiva que o habitual. Ainda tentei uma ou duas vezes interrogá-la, mas respondeu com tamanha descontração e simplicidade que depressa me esqueci do assunto.

“Assim que acabou de revelar os resultados, Laurinha disse com ar introspetivo, como se estivesse a falar apenas para ela: – De Jesus ninguém se lembra.”
O dia da consoada chegou. A casa estava decorada de forma simples, mas cuidada. Este ano optámos pelas cores mais tradicionais: os vermelhos, os verdes e os dourados. A árvore de Natal estava linda, com a base recheada de pinhas, douradas por Laurinha, e uma caixa onde os presentes se iriam acumular.
Éramos dez à mesa. Eu, as primas Laurinha e Mafalda, da mesma idade, os meus dois irmãos e respetivas mulheres, os meus pais e um amigo próximo e conhecido da família, o Daniel, com quem Laurinha gostava de ter longas conversas.
O jantar tardio, como era nossa tradição, decorreu como o planeado. A animação coloria a noite, já de si cheia de cor. Músicas alusivas à quadra faziam-se ouvir, ao de leve, imprimindo magia ao ambiente. Tudo estava perfeito. As opiniões eram as melhores. A comida estava ótima e os doces deliciosos.
Já o café e o chá fumegavam, quando Laurinha surgiu com uma proposta. Não sei porquê, mas dei por mim com a mesma sensação de há uns dias quando a percebi mais introspetiva. Numa mão tinha várias tiras de papel e na outra uma caixa com canetas que foi distribuindo por cada um. De seguida sugeriu que escrevêssemos a palavra que nos surgisse quando pensamos – fez silêncio e acrescentou – quando pensamos no Natal.
Todos acharam graça à dinâmica e se envolveram na brincadeira. Laurinha recolheu as tiras de papel e sem as identificar foi lendo: família (apareceu três vezes) e ainda presentes, árvore de Natal, Pai Natal, consoada, bacalhau, stress. Assim que acabou de revelar os resultados, Laurinha disse com ar introspetivo, como se estivesse a falar apenas para ela:
– De Jesus ninguém se lembra.
Fez-se silêncio. Os rostos tomaram um ar sério. Senti um murro no estômago. Aquela fala teve impacto. Afinal éramos uma família cristã e católica. Alienados, nem nos apercebíamos de quão longe estávamos do que ali se comemorava. Claro que o sabíamos. Todos o sabem. Mas, se o sabíamos porque raio ninguém se lembrou de o mencionar?!
O silêncio foi interrompido por uma gargalhada do meu irmão mais velho. Afonso sabia sempre como quebrar gelos. Rimo-nos pelo inusitado da situação. Fomos todos “apanhados” por Laurinha.
A noite continuou animada, mas a sombra do distanciamento que ali reconheci, entre o sagrado e o profano, fez-me ficar grata à Laurinha e alterou um pouco os Natais seguintes: trocámos a árvore de Natal pelo presépio e as consoadas passaram a contar com uma oração e invocação de Jesus, presença central no seio da família em noite de Natal.
A minha tão querida filha – dádiva dos céus – continuou a fazer das dela, mas nenhuma outra me fez ver tão longe e tão perto.
Natal 2023
Aldora Amaral é especializada em Educação Expressiva e Aconselhamento Terapêutico; é na via Budista que encontra a maior inspiração para a vida. Coordena a produção de conteúdos para os programas televisivos A Fé dos Homens e Caminhos da União Budista Portuguesa.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.
O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com










