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Deus num mundo secularizado

| 30/01/2025

Fará ainda sentido referirmo-nos a Deus num mundo plenamente secularizado? Deus parece ser hoje uma palavra gasta, sem nenhum sentido que se lhe possa associar. Uma palavra cujo significado se desvaneceu até se tornar obsoleta — um arcaísmo linguístico. Pertence a uma época em que era comum crer ingenuamente que os fenómenos naturais não podiam ser explicados senão por referência ao sobrenatural. A divindade e o universo estavam, assim, inextricavelmente associados. O homem contemporâneo, pelo contrário, dispensa inteiramente qualquer realidade sobrenatural. Todos os fenómenos têm ou terão a sua explicação nos processos que regem o funcionamento do universo material. Pouco a pouco, o esforço da ciência foi tornando claras as leis que determinam o desenvolvimento dos eventos, as quais não admitem exceções, nem mistérios ou milagres.

Numa tal situação cultural, que falta fará Deus? A julgar pela realidade fenomenológica, Deus parece ser, para muitas pessoas, uma ideia destituída de valor, um ruído inútil que o passado nos legou, um mero vestígio de tempos pré-científicos, um resquício da idade infantil da humanidade.

Inserem-se neste caldo cultural, que se adensou a partir do Iluminismo, não só as conceções abertamente ateístas, militantemente contrárias a todo o pensamento e experiência espiritual, defensor do mais estrito materialismo, mas também certas formas de ateísmo prático, que se revelam através da indiferença em relação a uma possível experiência de Deus e à sua repercussão no comportamento ético humano. Por outro lado, são de considerar igualmente os movimentos espirituais que, desde tempos remotos, promovem a busca espiritual pela redenção humana sem qualquer referência a uma divindade. Para sabedorias ancestrais como o budismo originário não é em Deus que o ser humano deve procurar a sua libertação, mas na realidade indizível desse vazio primordial, enquanto negação do mundo transitório, fonte de todo o sofrimento.

Seja como for, para grande parte da comunidade humana, a ideia de Deus e a convicção da sua presença benigna continuam a fazer sentido, independentemente da sua implicação na forma de conduzir a vida. Vivemos, por isso, numa época de grandes clivagens entre quem julga ter acertado o passo com o tempo em que vive e quem supostamente parece ter permanecido vinculado a mundividências caducas de que, por vários motivos, tem dificuldade em separar-se.

 

Deus enquanto realidade significante

“Por que razão os crentes julgam ainda tão necessária a confiança na existência de um ser cuja interação com o ser humano mal é pressentida?” Foto: Exposição “Rémiges Cansadas” de Samuel Silva inspirada no poema “O País de Deus” (inédito), de Daniel Faria.  © António Marujo/7MARGENS

Perguntemo-nos, então, porque insistimos em não deitar para o caixote do lixo da história a mundividência teísta. Por que razão os crentes julgam ainda tão necessária a confiança na existência de um ser cuja interação com o ser humano mal é pressentida?

Talvez a principal razão se encontre na autoconsciência humana. A certeza indiscutível da nossa incompletude equaciona a existência humana como invariavelmente dependente não só do mundo em que acontecemos, mas igualmente de algo a que o próprio mundo se refere por força da sua contingência. A nossa existência e a existência do universo como um todo nada têm de necessário — podíamos, decerto, nunca ter existido, uma vez que nos movemos na transitoriedade do tempo, sujeitos que estamos ao processo de nascer e morrer, à erosão da vida. Nada em nós constrange a realidade a acolher-nos. Somos meros comparsas num drama que não escrevemos.

O próprio mundo tem um caráter tão contingente e, portanto, tão necessitado de explicação, como cada um dos seus elementos individualmente concebidos. Já abandonámos — até por razões científicas — a ideia de um mundo estático, eterno e autoexplicativo, no qual o ser humano encontraria o seu sentido. O universo em que vivemos, de acordo com as modernas teorias cosmológicas, teve o seu começo há treze mil e oitocentos milhões de anos e terá decerto um fim. Essa sua natureza transitória carece, pois, de uma razão explicativa, que não só terá de ser exterior ao universo como não contingente, ou seja, absolutamente necessária. Uma razão que possa, portanto, explicar, de maneira definitiva, a totalidade das coisas contingentes.

Embora a contingência do mundo seja razão suficiente para acatarmos Deus como derradeira explicação de todas as coisas sujeitas ao tempo, há ainda um motivo intrinsecamente humano: tal como o universo, o ser humano — como indivíduo ou como espécie — teve um início e terá um fim. Durante o pequeno percurso da sua existência precária, é abalado por intempéries que o fustigam de todas as maneiras. Muitos acabam por sucumbir antes mesmo de poderem usufruir de uma vida digna e livre, isto é: uma vida com sentido. E mesmo os que são, em certa medida, bafejados pela sorte, experienciam o sofrimento e a morte, tanto deles próprios como dos que amam. E, contudo, o ser humano pressente que foi para a felicidade que veio ao mundo e é a plenitude da vida o futuro por que anseia. Sem Deus, seremos apenas um sonho vazio e frustrado, que jamais realizará o seu próprio destino.

Como fazer justiça a quem dela foi privado, no todo ou em parte, ao longo da sua efémera vida? Todos desejamos uma existência plenamente feliz, sem a rutura insuportável da morte à qual estamos todos impiedosamente condenados. É por isso que a palavra “Deus” mantém, pelo menos para os crentes, o sentido que sempre lhe foi próprio, como único garante da justiça onde ela não foi possível, da verdade onde a mentira pareceu levar a melhor, da vitória do bem onde o mal lançou raízes profundas, da realização definitiva do ser humano face à sua condição transitória. Sem Deus, o mundo em que vivemos é implacavelmente fustigado por um cego acaso que devora bons e maus, justo e injustos, num mesmo caldo indiferente a qualquer ética. Um tal mundo carece definitivamente de todo o sentido global!

Precisamos ainda de Deus porque, sem ele, nenhum ponto de orientação absoluto pode nortear a vida humana. Porquê fazer o bem, quando, numa dada situação, se torna evidente que o mal me pode facilitar a vida? Porquê ser honesto, quando é claro que a desonestidade me pode permitir vencer na disputa quotidiana? Porquê ser verdadeiro e autêntico, se a dissimulação e a mentira me facilitam a existência no seio de um mundo também ele pejado de fingimento e de hipocrisia? Só uma resposta parece ser aceitável: ser verdadeiro, autêntico, honesto e justo não são valores negociáveis; são, pelo contrário, valores absolutos. No entanto, só o serão na medida em que Deus existir, o único ser que, dada a sua natureza, lhes pode garantir o caráter incondicional e indiscutível.

É esta a razão pela qual as religiões e algumas filosofias afirmam que o sentido definitivo da vida humana só pode ser Deus. Se negarmos a sua existência, ficaremos à mercê dos interesses relativos de cada indivíduo ou de cada grupo. Tudo quanto existe terá caráter provisório e relativo, incluindo os valores com que norteamos as nossas decisões. O bem e o mal serão realidades equivalentes, à mercê do arbítrio humano. Matar ou amar terão o mesmo valor intrínseco, uma vez que nenhum fundamento definitivo lhes garante acolhimento ou recusa absoluta e incondicional. Cada ser humano ficará à mercê da vontade individual dos restantes, num mundo em que os interesses individuais e grupais determinam comportamentos orientados pela eficácia e a eficiência e não por valores éticos incondicionais. No fundo, uma tal sociedade renuncia à ética em defesa da eficácia, como vaticinou e defendeu Maquiavel. Os fins são inexoravelmente perseguidos sem qualquer menção ao valor ético dos meios cooptados para os alcançar. Cada indivíduo é subjugado pela vontade arbitrária de quem detém o poder. E o triunfo da vontade que detém o poder sobre qualquer outro desígnio será clamorosamente desumana e cruel.

 

Ser e dever ser

“Não houve nunca momentos históricos onde a barbárie não tivesse lugar. Ainda assim, se sonharmos com outro tipo de relações sociais, não teremos maneira de fundamentar os valores que lhe subjazem sem a referência ao Absoluto.”  Foto: Bucha. Rostos da guerra. Exposição de fotografias da guerra da Ucrânia 2023. © Houses of the Oireachtas, Irlanda

Afinal, não é isso que vemos todos os dias tanto na cena internacional como nas relações interpessoais do nosso quotidiano? Numa sociedade que apagou Deus, os valores não passam de meras convenções negociáveis, embora importantes para garantir a paz na convivência humana, as quais podem ser alegremente esmagadas quando interesses mesquinhos se lhes sobrepõem.

Não é essa, decerto, a sociedade em que eu desejo viver. Perguntar-me-ão, contudo, se não é essa a sociedade em que sempre vivemos. É certo que sim. Não houve nunca momentos históricos onde a barbárie não tivesse lugar. Ainda assim, se sonharmos com outro tipo de relações sociais, não teremos maneira de fundamentar os valores que lhe subjazem sem a referência ao Absoluto.

Uma neblina cultural relativista desumaniza a vida, tornando irrelevantes todos os indivíduos que não servem os interesses do poder, sejam eles os mais fortes ou os mais adaptados. É a vontade de poder que produz para si mesma os valores que lhe convém, de acordo com as circunstâncias, sem complacências para com os demais seres humanos, continuamente espezinhados nos seus direitos, sejam eles estrangeiros, imigrantes, opositores políticos ou meros colegas de profissão.

No que me toca, sonho com outra maneira de conceber a vida. E essa utopia tão urgente quão necessária só terá cabimento na assunção geral de que existe um universo de valores éticos fundado incondicionalmente na natureza e na vontade suprema de Deus. Como seria possível tornar incondicionais tais valores num mundo entregue à contingência e à relatividade da sua própria natureza?

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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