Soné que tú me llevabas
por una blanca vereda,
en medio del campo verde,
Hacia el azul de las sierras
hacia los montes azules
[…]
Senti tu mano en la mia,
tu mano de compañera,
tu voz de niña en mi oído /
Eran tu voz y tu mano,
en sueños, tan verdaderas!…
Vive, esperanza, quién sabe
lo que se traga la tierra!
Antonio Machado
“Oh! Admirável mundo novo…”
Vivemos num contexto de transformações nunca imaginadas. Um mundo novo vai surgindo a um ritmo vertiginoso e implacável. Se, por um lado, os benefícios já adquiridos nos permitem as maiores esperanças para a vida humana, por outro lado, esta corrida tecnológica levanta questões éticas e políticas que põem em causa a condição humana e a nossa civilização.
O mundo que Deus criou pelo Filho,
o mundo que Deus salvou pelo Filho.
O mundo que é vosso.
Hebreus,1,2. I João 4,14. I Coríntios,3,22.
A história humana não está inserida numa ordem de conservação estática, mas sim num processo dinâmico de crescimento. O homem é chamado a participar nesse plano de Deus, uma resposta integral que mobiliza todo o seu ser individual e social. Assim se torna um homem responsável.
Preservar o humano

Pormenor da escultura O Pensador, de Rodin, em Paris. “Queremos regressar ao lugar do reencontro e harmonia com o nosso tempo”. Foto: Direitos reservados
Sejam humanos. Homens e mulheres de carne e osso. Não aparências, mas rostos confiáveis.
Vocês podem mudar a história. Façam isso com amor.
Papa Leão XIV no discurso aos jovens, na visita a Espanha em Junho de 2026.
“O homem só é verdadeiramente homem na medida em que for senhor das suas acções e juiz do seu valor e, sendo ele próprio autor do seu progresso, o ordenar aos fins globais que lhe foram marcados.” (1)
“Ser mais humano não ignifica ir para lá do humano, mas intensificar o humano do humano, aprofundar o humano do humano, porque é aí que se encontra o mais valioso.” (2)
Josep Maria Esquirol, autor do livro do qual é reproduzida a citação anterior, considera que o objectivo primordial do progresso é criar uma civilização mais humana, o que significa criar um mundo que ampara, que protege e forja laços de fraternidade que dão sentido à vida e, simultaneamente, lhe impõe limites e o responsabiliza. Ao contrário de Nietzsche “que entendia que a fraqueza do ser humano tinha de ser superada”, entende que “ser mais humano não significa ir para lá do humano, mas intensificar e aprofundar o humano do humano”. (2) Com efeito, aceitar a nossa vulnerabilidade e a vulnerabilidade dos outros não diminui a dignidade do ser humano.
Perante o paradoxo que contém o discurso ideológico do transumanismo, Esquirol responde que “aspirar e acreditar poder ir além do humano” significa “ficarmos mais curtos em humanidade” (3). As barbáries do século XX e aquelas a que estamos a assistir no século XXI, demonstram as contradições da retórica do progresso.
Temos a sensação de ter deixado a terra firme do nosso mundo. Queremos regressar ao lugar do reencontro e harmonia com o nosso tempo, despojarmo-nos de mágoas e ilusões e todos os dias acordar com uma coragem renovada.
Então, em momentos em que nos sentimos tão longe de toda a esperança, surge dentro de nós o desejo de nos erguermos acima da confusão e da “intempérie” da vida humana, como se, abrindo uma brecha de luz para clarificar e abrir caminho, o nosso olhar, tudo podendo transpor, daí saudasse a orla azul do mundo.
Esta vida é busca e é amor.
“Primeiro, o amor; depois, a técnica.” (4)
“Os valores ainda têm valor?” – D. José Cordeiro, Arcebispo de Braga

Criação de alunos do Colégio Sagrado Coração de Maria (Lisboa) para o encontro “Também somos Terra”, Almada, 2018. Fotografia © Miguel Veiga
“O que podia ter sido e o que foi / tendem para um só fim, que é sempre presente.” (5)
“O mundo humano sustenta-se pela bondade.” (6)
“Embora o mal seja muito radical, o bem é-o ainda mais.” (7)
Sentimo-nos, por vezes, tentados a crer que a Terra está a correr para a sua perdição, tendo deixado de ser um lugar acolhedor para a curta estada que nos é concedida. Procuramos a segurança e tememos ter vivido em vão. Queríamos recuperar alguma coisa, recuperar o que fugiu.
Será o homem um ser miserável, um ser tão indigente de compaixão e bondade? Só ele é semelhante ao seu Deus e só ele tem o poder de mudar o mundo.
Acreditávamos que, pelo menos no mundo ocidental, com o crescimento da economia e bem-estar, a ausência de guerra e a existência de regimes democráticos, tínhamos atingido um período de estabilidade duradouro. Isso não aconteceu.
Inúmeras vozes do mundo intelectual, especialistas da economia, da vida social e da política, aos quais se foram juntando responsáveis de diversas confissões de todos os continentes, ao longo de muitas décadas elaboraram documentos, organizaram debates para discutir os desafios que se iam sentindo no mundo e exigiam uma resposta urgente para a paz no mundo: a justiça social.
“Enquanto a injustiça subsistir à escala mundial, é impossível haver paz na terra dos homens.” (8)
Há um défice de justiça social, grave e escandaloso, mesmo nas sociedades democráticas que se regem por princípios democráticos do Estado de Direito. Somos espectadores de um mundo governado por leis injustas.
Na última conferência do ciclo promovido pela Pastoral da Cultura, ao longo de 2026, sobre “Ética e justiça social”, foi orador D. José Cordeiro, Arcebispo de Braga, que reflectiu sobre a interrogação “Os valores ainda têm valor?”. É um tema muito pertinente, no momento em que vivemos de relativismo cultural e moral. Podemos interrogar-nos, por exemplo, se pode existir uma sociedade sem valores comuns, ou se todos os valores são relativos e, por isso, igualmente válidos.
“Furar as barreiras do nosso egoísmo”

É preciso regressar ao “tempo bom”. “Ao contrário do tempo do eu, que nos isola e nos individualiza, o tempo do outro cria uma comunidade.” Foto © Pixabay
Na sua intervenção, D. José Cordeiro identifica alguns males da sociedade actual que estão no centro dos problemas humanos dos nossos dias, e faz um apelo à prática das virtudes teologais de justiça e caridade, que são o caminho para a paz e o encontro com os outros, e a cura para o nosso egoísmo.
Em primeiro lugar, apresenta-nos a virtude cardeal da justiça, que consiste em dar ao próximo o que é “dele” e que lhe pertence, mas sempre iluminada pela virtude da caridade, ou seja, eu dou ao meu semelhante do que é “meu”, não apenas por ser justo, mas porque me compadeço dele e me identifico com o seu sofrimento. Por isso, as duas virtudes caminham juntas, tal como nos ensina o Catecismo cristão nas “Obras de Misericórdia”, tantas vezes esquecidas no mundo egoísta e hedonista em que vivemos.
José Cordeiro recorda a tradição das obras de misericórdia, que “permitem apreender a caridade e a misericórdia como a arte do encontro, as quais podem dar um novo impulso de humanidade, para não permitir que o cinismo, a mentira, a corrupção, a ambição do poder do domínio sobre os outros, a barbárie e a indiferença levem a melhor”.
Mostra-nos que o caminho para tornar este mundo melhor é reflectirmos sobre uma nova ética social que nos responsabiliza, a viver um Evangelho que implica denunciar o mal e que se traduz em acções concretas a nível individual e colectivo. Um Evangelho que nos dá esperança e consola, mas que também inquieta e perturba.
Prosseguindo a sua análise da perda e relativização dos valores espirituais que, no passado, eram o centro da vida dos homens, D. José Cordeiro termina propondo um conjunto de valores reconfigurados e adaptados a esta geração digital, os quais, além das três virtudes teologais, também supõem as virtudes cardeais. São eles: integridade; lealdade; paciência; misericórdia. São valores do passado, que eram comuns na sociedade e na qual estavam implícitos como valores morais a ser seguidos e valorizados: a honra, a generosidade, o amor ao próximo, o amor da verdade tão necessário neste tempo em que “a mentira é universal”, como numa entrevista afirmou José Saramago. Hoje, com a desumanização, o individualismo, a fragmentação e a relativização, mais do que nunca, é preciso retomá-los. São valores libertadores para o homem do nosso tempo que se esqueceu que é um ser espiritual e tem urgência em encontrar a sua vocação e o seu lugar na nova sociedade.
É preciso voltar a acreditar

Momento de oração no final de uma caminhada inter-religiosa durante a COP28, no Dubai, em 2023. Foto Foto © LWF/Albin Hillert
“Faltava-nos tempo para sentir a melancolia das coisas que passam.” (9)
Vivemos num tempo acelerado, num mundo onde não há tempo para encontrar o outro, nosso irmão, o diferente.
É preciso regressar ao “tempo bom”. “Ao contrário do tempo do eu, que nos isola e nos individualiza, o tempo do outro cria uma comunidade.” (10).
É preciso regressar à comunicação, que é relacional. Eu aprendo com o outro e o outro aprende comigo.
Sonhamos com uma nova Pátria, com a Terra Prometida, e sobre as ruínas cinzentas dos escombros das guerras, acreditamos num tempo redimido pelo sofrimento, um tempo transfigurado.
Nos lugares mais longínquos da Terra, mulheres, homens, crianças e jovens, rezam, têm gestos e acções de coragem e abnegação, de generosidade e de bondade.
Uma brisa suave parece descer pelas montanhas azuis até aos vales verdes, como uma fugaz visão de esperança desaparecendo nas sombras do entardecer. Mas resta-me a extraordinária emoção do coração.
Notas:
- Biéler, André – A esperança é política. Almedina, Coimbra, 1972, p. 72
- Esquirol, Josep Maria – Humano mais humano. Uma antropologia da ferida infinita, Edições Paulinas, 2022, p. 53
- Idem, p. 15
- Gaudí, Antoní
- Eliot, T.S. – Quatro Quartetos, Burnt Norton, Edições Ática, Lisboa, p. 15
- Esquirol, Josep Maria – A penúltima bondade, Edições 70, p. 129
- Idem», p. 129
- Câmara, D. Hélder – A esperança é política, Almedina, Coimbra, 1972, p. 14
- Ernaux, Annie – Os anos, Livros do Brasil
- Byung-Chul Han – A expulsão do outro, Relógio d’Água, 2018, p. 95
Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada, com formação académica na área de Filologia Germânica. Desempenhou alguns cargos políticos e foi presidente da Fundação Cultural Bracara Augusta de 2000 a 2013.
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