
Gerard van Honthorst, A Adoração dos Pastores (1622): “Jesus, o Deus-connosco, une verdadeiramente a divindade aos homens.”
Deus connosco, mistério tremendo desse Deus que se fez homem entre nós. Sete séculos haviam passado desde a declaração profética de Isaías, de que o Senhor, Ele próprio, daria um sinal: “Eis que a virgem no ventre terá e parturirá um filho; e chamarás o nome dele Emanuel.”[1]
A ideia de um deus se fazer carne e habitar entre os homens não era de todo estranha no mundo greco-romano. A mitologia grega era bastante fecunda em estórias de deuses com poderes extraordinários, os quais realizavam feitos sobrenaturais, mas eram pouco ou nada empáticos para com os homens, algo completamente estranho ao pensamento judaico de então. O imaginário judaico acerca de Deus era essencialmente transcendental: Yahweh, o nome de Deus revelado a Moisés, é aquele que, sendo único, incomparável, está muito para além de toda a compreensão e definição.[2] Embora Deus seja igualmente descrito na literatura sapiencial e profética como sendo relacional, teremos de esperar até à vinda de Jesus, aquele que é o Deus-connosco, aquele ponto tangencial que, na História, une verdadeiramente a divindade aos homens.
Os grandes esforços da teologia, tantas vezes presunçosos e infrutíferos em todas as tentativas de explicar esse grande mistério que é a encarnação, acabaram por obscurecer, por vezes, as suas implicações para a vida de todos nós. Relia há uns tempos a obra de um grande teólogo e pastor congregacionalista norte-americano, Lyman Abbott, intitulada The Great Companion.[3] O livro, publicado pela primeira vez em 1929, contrapondo muitas das ideias, tantas vezes erradas, de um Deus distante, autoritário, impessoal e até implacável na sua justiça, pretende explorar e aprofundar o conceito de Deus como um grande companheiro, sempre presente em todas as circunstâncias da nossa vida. “Eu acredito que Deus é o nosso Grande Companheiro, que nunca nos deixa órfãos e que deseja ser o nosso camarada”, afirma Abbott. Para ele, este Deus, revelado plenamente na vida de Jesus, verdadeiramente Deus, mas também verdadeiro homem, é um companheiro constante que partilha as nossas alegrias e tristezas.
Essa ideia de um Deus totalmente acessível, sempre querendo estabelecer uma relação directa, íntima e amorosa com cada um dos seus filhos, esbarra, por vezes, com barreiras impostas por muitos dos sistemas religiosos, que nos impõem uma ideia distorcida daquilo que o nosso Deus verdadeiramente é.
Questiono-me como devemos então idealizar essa experiência de ter Deus como Companheiro, sempre constante ao longo da nossa jornada. O que devemos entender por companheirismo? O filósofo Byung-Chul Hans[4] alerta-nos para o perigo da alienação do Outro, a tendência para o condenar à irrelevância nas nossas vidas. Perante as crises e os problemas que nos vão surgindo – muitos deles insuportáveis – por vezes nem amigos temos que nos ajudem a suportar o peso da vida.
É verdade que aquela interrogação profundamente angustiante que muitas vezes fazemos, “onde estás tu?”, muitas vezes feita em tom de revolta – como Elie Wiesel relata no seu livro Noite –, tem muitas vezes uma resposta vazia. Será que o nosso Deus, o nosso Emanuel, o Deus connosco, nos abandona nesses momentos? Não creio. Não prometeu Jesus que estaria sempre connosco, até à consumação dos séculos?[5] Não é a Igreja, entendida como o Corpo de Deus e representada no “partir do Pão”, também ela convidada a repartir a vida uns com os outros e com o mundo? Afinal Deus também se faz companheiro através de nós nos momentos de alegria e de dor do nosso próximo.
[1] Livro do Profeta Isaías 7:14. Tradução de Frederico Lourenço da Septuaginta. Volume III. Editora Quetzal. Lisboa, 2017.
[2] Livro do Profeta Isaías 55:8-9
[3] O livro encontra-se disponível em formato digital no link https://archive.org/details/greatcompanion0000lyma/mode/2up
[4] Byung-Chul Han. A Expulsão do Outro. Editora Relógio D’Agua, 2018.
[5] Evangelho de Mateus 28:20
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona e doutorando em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.









