AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Caminho de Santiago, Cláudio Louro

Do Minho a Compostela a pé

Diário de Caminho (6): Fazermo-nos terra

| 10/03/2024

Caminho de Santiago, Cláudio Louro

Registo do diário à hora de almoço – o típico caldo dos humildes da região. Foto © Cláudio Lobo

 

Acordei. Este é o último albergue antes de chegar a Santiago. Recordei o dia de ontem e o desgaste que tenho sentido, com algumas coisas antigas a virem ao de cima. No diário escrevi esta breve oração: “Hoje peço-Te, Pai, que me ensines a arte do desprendimento, das mãos vazias. Ensina-me a ser pobre de espírito, a acolher tudo o que vem, mesmo o que é desagradável. Tudo faz parte do Caminho.”

Para mim, aceitar a “cruz” sempre foi sinónimo de peso (só de imaginar…). Mas hoje tive uma nova perspectiva… É que se não levarmos a cruz, ou seja, se recusarmos aceitar a nossa vulnerabilidade, o peso será bem maior. Então, levar a cruz pode fazer de nós pessoas livres, não fosse ela caminho para a Páscoa. Então… medo de quê? (Pensei eu)… É tudo Caminho de crescimento, mesmo as dores antigas.

Levantei-me. Despedi-me do simpatiquíssimo rapaz do hostel, que no fim do dia de ontem me ajudou bastante. Quando tomava o pequeno-almoço, estava a dar na TV espanhola o Got Talent. E eis que aparece alguém cujo talento é fazer arte com as suas sombras… Com tudo isto que andava cá por dentro, senti Deus a piscar-me o olho: sim, é possível fazermos arte com as nossas próprias sombras!

Comecei a caminhar. O sol despontou, iluminando uma paisagem cada vez mais campestre, por entre algumas aldeias de pedra escura. Ontem, ao chegar ao albergue, escutara uma peregrina espanhola a queixar-se das pessoas que apenas caminham, sem parar: «O Caminho é para parar e usufruir! Ver a beleza de uma flor!», dizia. Inspirado também pelas suas palavras, parei e descansei, observando o que me rodeava, principalmente o “pequeno”. Cheguei a um lugar onde confluíam dois riachos. Sentei-me debaixo das árvores e começou a chover! As reflexões do Passo a Rezar foram-me nutrindo. Um grande grupo de peregrinos passou por mim. Acho que foi a primeira vez que vi tantos peregrinos juntos.

Vários quilómetros depois cheguei à Igreja de Escravitude. Sentei-me para rezar, quando de repente sinto uma mão no meu ombro. Um peregrino veio ter comigo e quis dar-me força, com o seu olhar e o seu sorriso. Este é daqueles instantes que guardarei no tesouro do Caminho. O que a coragem de um gesto tão simples pode fazer… Lembrei-me de imediato da mensagem muito bonita que recebera de uma amiga.. Dizia: “No teu último percurso, quando o cansaço se apoderar de ti, irá com certeza aparecer um peregrino que te levará o meu abraço.”

Apercebi-me de que ia haver missa. A homilia foi muito interessante. O desafio, neste tempo de metanoia, é sermos terra, lama. Húmus, de onde deriva a palavra “humildade”. Estas palavras foram ecoando. Já ontem tinha lidado com a lama, mas é difícil tocá-la por dentro. Levei isso comigo, no desejo de me tornar mais húmus, sem tanto receio de tocar na fragilidade, ou melhor, nas “cinzas” que fazem parte de nós.

A tarde foi pontuada por momentos bem consoladores. O deitar-me na relva e ver o céu azul, ou o dançar e cantar à chuva (não resisti!). Sim, as oscilações dos estados do tempo eram constantes, a par da meteorologia interna.

Passei por um casebre de pedra e madeira. Parecia abandonado. Lembrou-me o nascimento de Jesus. Pus-me a pensar que tantas e tantas vezes dou por mim enredado em várias idealizações e expectativas (a expectativa da chegada, a idealização do caminho…) que perco esse contacto com o “húmus”. O Filho de Deus nasceu no lugar menos idílico e menos atractivo que poderia nascer. Há que fazer-me mais terra.

A chegada às portas de Santiago foi muito exigente. Parece que os quilómetros simplesmente não passavam. Exigiu, como uma amiga me dissera hoje, a superação do triplo desgaste que sentia: físico, psicológico e espiritual. Para conseguir atravessá-lo, ia cantando para o bom Pastor. Tentava olhar para esses momentos como as reais oportunidades para fortalecer e ginasticar a fé.

Depois de ter entrado noutra igreja e ter participado na missa, saí e já tinha caído a noite. Apercebi-me que já estava em Santiago pelo chão de pedra escura que entretanto apareceu. Senti-me como num filme: de cajado um pouco cambaleante e a atravessar a chuvosa rua que dava acesso à catedral. Ao vê-la, ainda longe, houve algo que mexeu cá por dentro. Um misto de algumas emoções difíceis de definir e gratidão por chegar, depois de toda esta aventura. Trilhei o caminho de pedra que conflui com os outros caminhos, oriundos dos vários pontos cardeais.

Ao chegar à famosa concha, no centro da Praça, olhei para a Catedral. Agradeci. Quis ver por onde poderia entrar, mas deparei-me com placas nas escadas a dizer “não passar”. Disseram-me que durante a missa do peregrino as portas fecham-se e só voltam a abrir mais tarde…

Confesso que isso me entristeceu. Lembrei-me novamente do mistério do nascimento de Cristo, em que, naquele momento de chegada a Belém, não havia lugar. Parece que este episódio me acompanhou, hoje, ajudando-me a ter as mãos mais desapegadas de expectativas. Contudo, sentia também que por mais visitas ou peregrinos que pudesse haver, é sempre bom chegar e as portas estarem abertas para nos sentirmos acolhidos (sobretudo, em dias de chuva como aqueles). Lembrei-me da conversa que tive dias atrás, em que me disseram que muitos peregrinos procuram ir até Finisterra para fechar o Caminho, de modo a sentirem-se acolhidos por esse abraço do oceano. Não fui até Finisterra, mas fui dentro, a esse templo sempre disponível, onde Deus habita em espírito e verdade.

Cheguei ao hostel The Last Stamp e quando ia preparar os registos do diário… deparei-me com o telemóvel a fraquejar, por causa da água que apanhara… Tentei que sobrevivesse mas… off. Fiquei sem ecrã. Pedira eu, ao início do dia, a arte do desprendimento… Eis a oportunidade.

 

Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.

Os textos anteriores deste Diário podem ser lidos aqui.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Ciclos e Rituais para atravessar a noite do inverno: medos e transformação

Ensaio

Ciclos e Rituais para atravessar a noite do inverno: medos e transformação novidade

Comecei o dia a interrogar a minha assistente pessoal (IA, Notion) sobre o Halloween, o dia de Todos os Santos e o Pão por Deus. Adoro festas, brincadeiras e celebrações – quem não gosta? A polarização e o antagonismo são geradores de tensões e conflitos – não promovem o diálogo e o reconhecimento do Outro, daquele ou daquela que são diferentes de nós. [Texto de Margarida Belchior].

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos

“Chuva Pacífica”

Recém-criada Aliança Inter-Religiosa pela Paz apela ao envolvimento de todos

“Uma única gota de chuva parece insignificante. Não pode apagar um incêndio. Não pode parar uma guerra. Não pode curar todas as feridas da história. Mas uma multidão de gotas pode humedecer a terra seca e permitir que uma nova vida brote dela. O mesmo acontece com a construção da paz”. É com esta imagem de um simples pingo de chuva que acaba de ser constituída na cidade croata de Rijeka a Aliança Mediterrânea para a Paz.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.