“O homem caprichoso não acredita e não se abre ao encontro. Ignora o vínculo, conhece apenas o mundo febril lá fora e o seu prazer impetuoso de o utilizar (…) Quando diz Tu, ele pensa «Tu, minha possibilidade de uso».(…) O seu mundo é privado de sacrifício e graça, de encontro e presença...”
(Martin Buber, Eu e Tu)

Pintura: Pablo Picasso, Dança da Paz
É preciso desinstrumentalizar o nosso modo de ver o outro, cultivando assim a sua dignidade por aquilo que é. Este é um esforço verdadeiramente espiritual, talvez mesmo o esforço espiritual por excelência – a purificação do olhar e da intenção. Tem de haver o culto da dignidade humana em cada indivíduo. Sem esse culto, que é um esforço de reconhecimento permanente, a dignidade humana não passará de um ideal que facilmente soçobrará às conveniências mais imediatas de pessoas, povos, grupos e nações. Cultivemo-la também em nós mesmos, deixemo-nos de auto-instrumentalização. Ponderemos bem os nossos fins, se estão de facto à altura de nós mesmos e da nobreza a que aspiramos.
O reconhecimento da dignidade humana nos indivíduos não é de todo automático nem dado à partida. É por isso que nos é mais fácil reconhecê-la a um semelhante do mesmo sangue, etnia, nação, crença, do que a qualquer outro cuja cultura, língua, costumes, diferem grandemente dos nossos. É essa miopia no reconhecimento da dignidade do outro, do diferente e do distante, que nos leva automaticamente ao choque perante um atentado em plena Europa, entre europeus, e à profunda indiferença perante os mortos de um atentado algures em África ou na Ásia, mesmo que o número de vítimas seja muito maior neste do que naquele.
Assim sendo, creio que é dever de uma sociedade que reclama ter por fundamento os direitos humanos e os valores da democracia – como são as nossas sociedades do chamado Ocidente – cultivar e educar para o culto do reconhecimento incondicional da dignidade humana em todos os seres humanos. Isto não significa ter de tolerar tudo em todos, fazer da tolerância um valor absoluto em si mesmo, porque, em princípio, aquilo que atenta contra a dignidade dos indivíduos, isto é, contra a sua irredutível liberdade, a sua faculdade inerente de aspirar, sonhar e realizar, não deve ser tolerado – só o valor da dignidade humana deve ser visto como absoluto, na linha da Fórmula da Humanidade do famoso imperativo categórico de Kant: tratar cada ser humano como um fim em si mesmo e não como um simples meio.
Trata-se de fazer um esforço para ver além da aparência, da fealdade, das circunstâncias, do contexto, das personalidades, das opções ideológicas, religiosas ou outras, tentando compreender o que se encontra no âmago de tudo isso, na pessoa no coração de tudo isso, simultaneamente dado empírico e mistério infinito, finitude e inapreensibilidade. Cada indivíduo é um infinito, uma alma, uma profundidade de ser da qual, as mais das vezes, nem o próprio suspeita, com um potencial de sonhar e realizar virtualmente ilimitado. Reconhecer-lhe a dignidade é, num certo sentido, dispor-se a ter esperança nele, ter fé nesse potencial oculto, acreditar no melhor de cada um; é deixar em aberto e desimpedido o caminho que poderá levar à eclosão do milagre, senão mesmo contribuir ativamente para essa eclosão. Trata-se de procurar ver em cada ser humano, não obstante o que nele salta à vista de diferente, alógeno, até mesmo de desagradável, uma mesma perplexidade, mais ou menos consciente, pelo facto de existir; uma mesma sede de certezas, de sentido, de reconhecimento e de amor; um mesmo desejo radical de alegria e de paz.
O desígnio de uma sociedade de facto votada ao culto da dignidade da pessoa humana implica toda uma mobilização política, económica, educativa, a nível nacional como internacional, para que, qualquer que seja o domínio da sociedade, do mais ínfimo ao mais abrangente, se evite reduzir a instrumento, número ou estatística aquilo que é, por natureza, irredutível – a alma humana.
Só este esforço poderá fazer recuar, pouco a pouco, as múltiplas “razões de estado” que, sob esse estranho conceito que é a realpolitik, instrumentalizam e exploram pessoas, populações e até povos inteiros, tratando-os ora como mercadorias, ora como moeda de troca, ora como carne para canhão, ora como cobaias, em nome de interesses “estratégicos” de médio-longo prazo, interesses de supremacia político-militar, económica, etc. Interesses que, se lhes seguirmos a meada até à origem, são muitas vezes de caráter privado, especialmente industrial e/ou financeiro.
Também é assim que se cultiva a Paz.
Porque cultivar a Paz é cultivar a Justiça.
Que não haja exploradores nem explorados — pessoas, povos, nações.
Que não haja quem faça fortunas com conflitos que devastam populações, roubando-lhes a dignidade e o futuro (especialmente no Terceiro-Mundo).
Que haja absoluto respeito pela dignidade da pessoa humana, quer seja um natural do Primeiro-Mundo, do Segundo ou do Terceiro.
Que os povos, quer sejam mais ou menos poderosos do ponto de vista económico, militar ou político, possam sempre fazer ouvir a sua voz e dizer de sua justiça, sem serem esmagados por outros interesses mais poderosos, geoestratégicos ou de outro tipo. Que possam denunciar, expor os seus agravos bem como as suas legítimas aspirações, e que encontrem sempre quem os ouça! E que possam dar o seu contributo nos assuntos que a todos dizem respeito, de interesse global ou regional, e que sejam ouvidos imparcialmente, e que o seu contributo possa ser tido em conta, se for justo e racional.
Não há, não deve haver, povos de primeira e povos de segunda categoria, cujos interesses possam ser sacrificados à realpolítik definida segundo as conveniências das potências hegemónicas.
É preciso que aqueles que podem, porque detêm certos monopólios — sejam potências nacionais, económicas, financeiras ou simples indivíduos ou grupos –, renunciem à tentação hegemónica de fazer tudo o que podem, só porque podem, mas façam antes o que devem segundo a justiça e o Direito Internacional. Por exemplo, no caso das potências hegemónicas, oferecendo o seu poder, o seu hard power se necessário, para reforçar o poder e autoridade das instituições supranacionais, como a ONU, em vez de as torpedearem e enfraquecerem continuamente com decisões unilaterais à revelia das mesmas, ou instrumentalizando-as de acordo com os interesses do momento. Que as potências hegemónicas nunca deixem de ter em conta o impacto presente e futuro das suas ações, nas pessoas, nos povos, no conjunto da Humanidade. E que os povos saibam cada vez mais exigi-lo aos seus líderes, e que a democracia, onde quer que medre (e tomara medre cada vez mais), possa aperfeiçoar-se e fundar-se na verdade, na informação rigorosa e isenta, na educação para a liberdade/responsabilidade, na abertura cosmopolita ao mundo e não no vício mesquinho do nacionalismo estreito e mistificador.
Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.










