Identificado com "ideologia de género"

Documento sobre sexualidade gera críticas dentro do Corpo Nacional de Escutas

| 10 Jan 2024

Escuteiros durante o Tecoree 2023. Foto CNE

O “Posicionamento Institucional” do CNE, que está a ser contestado, inclui como princípio de atuação o repúdio de “todos os comportamentos agressivos e de discriminação injusta, nos relacionamentos interpessoais, afetivos e sexuais”. Foto © CNE

 

Um documento que suscita muitas “questões e dúvidas” e que foi “rejeitado” pela maioria dos assistentes regionais: assim se referem os dois assistentes eclesiásticos do Corpo Nacional de Escutas (CNE) no Patriarcado de Lisboa ao “Posicionamento Institucional” sobre a afetividade e sexualidade que passou recentemente a integrar o projeto educativo do movimento, numa carta sigilosa enviada aos restantes padres do Patriarcado, e à qual o 7MARGENS teve acesso. As críticas tecidas ao documento – que defende o acolhimento de todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual – vêm somar-se às de outros responsáveis dentro dos escuteiros, que consideram que o texto “não está em comunhão com a doutrina católica” e se trata de “um equívoco”. Os responsáveis principais pelo documento visado rejeitam os argumentos, mas dizem que todo o debate é bem-vindo.

“Como assistentes do Corpo Nacional de Escutas não nos identificamos com a circular emitida pela Junta Central em 29 de setembro de 2023 [a qual correspondia ao texto do ‘Posicionamento Institucional’, simultaneamente divulgado no site do CNE]. Esta circular é, essencialmente, a mesma versão ambígua do documento que foi apresentado, discutido, exposto e rejeitado (por praticamente todos os assistentes regionais), em 21 de novembro de 2022, durante a reunião de assistentes regionais em Fátima. As questões e dúvidas debatidas e expostas nesse dia continuam a ser as mesmas até hoje, com a diferença de que em 2022 era um documento preparatório e agora foi apresentado como documento final”, pode ler-se na versão preliminar da carta dos dois assistentes regionais de Lisboa, enviada no passado sábado, 6 de janeiro, aos padres do Patriarcado de Lisboa.

“Uma vez que as mesmas dúvidas foram levantadas desde o início do processo sem receber reposta ou alteração, nós continuamos, com a maioria dos assistentes regionais do CNE, com a mesma posição que todos tomámos na reunião de 2022 em Fátima”, escrevem os padres Marcos Castro (assistente regional) e Marcos Martins (assistente regional adjunto). “Considerando que persistem questões fundamentais sem esclarecimento, é difícil para nós, Região de Lisboa e famílias, aceitar estas conclusões, bem como qualquer proposta que venha a surgir para uma ‘nova’ pedagogia educativa no povo cristão que nos é confiado”, acrescentam, reafirmando ainda “a necessidade de um processo verdadeiramente sinodal”.

A carta, que foi enviada por correio eletrónico, através do Departamento de Comunicação do Patriarcado, no passado sábado, 6 de janeiro, solicitava aos presbíteros a sua leitura e “envio de contributos, para a redação final da mesma” até esta quarta-feira, 10.

Nesse mesmo e-mail, em que se pedia sigilo pelo facto de a carta ser “de caráter confidencial”, explicava-se que a mesma “resultou do Encontro de Assistentes de Agrupamento da Diocese de Lisboa no passado mês de novembro”, que decorreu no Turcifal (Torres Vedras). Refere ainda que a versão final da mesma deverá ser enviada na próxima semana, não especificando quais os destinatários.

 

Reflexão foi validada pela hierarquia da Igreja

O padre Luís Marinho, coordenador geral do projeto Entre Linhas, no âmbito do qual foi desenvolvido o “Posicionamento Institucional”, considera que é necessário mais diálogo sobre o tema. Foto © CNE

 

Questionado sobre o teor desta carta, o padre Luís Marinho, assistente nacional do CNE de 2013 a 2023 e coordenador geral do projeto Entre Linhas (no âmbito do qual foi desenvolvido o “Posicionamento Institucional” e que foi divulgado em primeira mão pelo 7MARGENS em maio de 2022), reagiu com surpresa. “Não é de todo verdade que a maioria dos assistentes regionais se tenha manifestado contra o documento. Houve uma discussão intensa, debateram-se vários aspetos, mas não se pode inferir que a maioria estaria contra”, afirmou, em declarações a este jornal.

O atual assistente mundial da Conferência Internacional Católica do Escutismo assinalou ainda que “desde o ponto zero do projeto tratou-se sempre de uma reflexão profundamente eclesial, feita por católicos, com toda a validação das estruturas oficiais e da Igreja Católica em Portugal”, nomeadamente a Conferência Episcopal Portuguesa, e tendo como parceiros o Secretariado Nacional da Educação Cristã e a Universidade Católica Portuguesa, através de vários professores da Faculdade de Teologia.

Lamentando que a carta não aponte, pelo menos na versão partilhada este sábado, “nenhum ponto em concreto do posicionamento que seja questionado”, o padre Luís Marinho considera, ainda assim, que a mesma “é muito bem-vinda”. “Saúdo efusivamente aqueles que se juntaram para pensar sobre o tema, pois efetivamente precisamos de o aprofundar e de um diálogo que nos capacite para sermos melhores cidadãos, melhores educadores e, portanto, melhores cristãos”.

Também o chefe nacional do CNE, Ivo Faria, vê como “positivos” todos os contributos para o projeto. Relativamente à carta agora enviada aos padres do Patriarcado de Lisboa, confessa que gostaria que a mesma “tivesse sido partilhada e integrada naquilo que foi todo o processo de reflexão há mais tempo”. “Mas ficamos contentes por poder ainda receber contributos de reflexão como este, não os sentimos como algo de negativo… É isto que faz com que possamos crescer”, afirma ao 7MARGENS.

Apesar de não ter participado na reunião de 2022 referida na missiva, Ivo Faria recorda os ecos que lhe chegaram da mesma após a sua realização. “De acordo com a sensibilidade de quem esteve na reunião, não houve uma posição alargada de assistentes regionais discordantes ou desconfortáveis com o documento, e também não houve uma posição dominante de assistentes que estivessem de acordo… Se calhar, muitos deles tomaram contacto com o documento só nessa altura e por isso não se manifestaram. Pelo menos, foi essa a informação que recebi”, refere.

À semelhança do padre Luís Marinho, Ivo Faria garante também que “todo o trabalho foi desenvolvido em estreita ligação com as estruturas do CNE, envolvendo a Junta Central, os assistentes regionais e também os chefes regionais, e ainda em ligação com a Conferência Episcopal Portuguesa”. E destaca: “O projeto é do CNE, mas enquanto membro vivo e ativo da Igreja Católica, que sente a obrigação de contribuir para aquilo que é o desenvolvimento da mesma”.

 

Duas “cartas abertas” e uma publicação no Facebook

Posicionamento Institucional subordinado ao tema da vivência da afetividade e da sexualidade no programa educativo do CNE

Imagem de capa do “Posicionamento Institucional” sobre a vivência da afetividade e da sexualidade no programa educativo do CNE, divulgado no final de setembro.

Tal como o 7MARGENS noticiou na altura da sua divulgação, o “Posicionamento Institucional” do CNE valoriza e afirma a doutrina da Igreja sobre a sexualidade, o amor e o matrimónio; “reconhece o contributo da afetividade e da sexualidade para um projeto de vida feliz e não ignora a existência de situações de dor, de sofrimento e de exclusão”; sublinha que “a expressão sexual do amor é também querida por Deus no contexto do amor autenticamente humano”; e exprime o desejo do CNE de sensibilizar os seus membros para as “situações de sofrimento de pessoas com diferentes orientações sexuais, decorrentes dos processos de construção da sua identidade pessoal”.

O texto, com sete páginas, inclui um glossário com a definição de termos como orientação sexual, afetividade, sexualidade, sexo, intersexualidade, género e incongruência de género e inclui como princípio de atuação o repúdio de “todos os comportamentos agressivos e de discriminação injusta, nos relacionamentos interpessoais, afetivos e sexuais, quer no âmbito do CNE, quer nos contextos familiares e sociais, reafirmando que cada pessoa deve ser acolhida e respeitada na sua dignidade, independentemente da própria orientação sexual”.

Imediatamente após a sua divulgação, “não houve muitas reações”, lembra Ivo Faria. “Inclusivamente, chegámos a publicar na altura um texto na revista [oficial do CNE] Flor de Lis a dar conta de que um dos objetivos do projeto era precisamente que o tema fosse discutido”, assinala o responsável.

Uma primeira posição pública foi tomada pelo assistente regional do CNE em Aveiro, padre Pedro José Lopes Correia, que escreveu uma “Carta Aberta sobre a ‘Ideologia de Género’ e CNE”, publicada a 22 de novembro no jornal Correio do Vouga, em que afirmava que “o posicionamento institucional não respeita o programa educativo do Corpo Nacional de Escutas”, porque “não se identifica com a Sagrada Escritura, o magistério da Igreja, a reflexão teológica, concretamente a moral católica”. 

Na perspectiva deste assistente regional, o documento “assume e identifica-se com a ‘Ideologia de Género’, tirando as consequências diretas e indiretas, o que não está em comunhão com a doutrina católica e isso fere a comunhão com a própria comunidade eclesial onde o Escutismo Católico Português está inserido”.

Poucos dias depois, a 28 de novembro, circulava nas redes sociais uma outra “Carta aberta sobre o equívoco do CNE a propósito da educação para a afetividade e sexualidade”, assinada pelo padre Rui Silva, antecessor de Luís Marinho como assistente nacional do CNE (de 2007 a 2013). Nela, o antigo assistente afirmava que “a Junta Central [do CNE] não tem poderes para definir posicionamentos institucionais não ratificados em Conselho Nacional”, nem pode “contrariar os estatutos do CNE” ou “contrariar o ensino oficial da Igreja”.

Reconhecendo que a intenção do projeto Entre Linhas pudesse ser a de “erradicar toda a discriminação injusta e, sobretudo, atitudes de violência ou segregação das pessoas”, o padre Rui Silva assinalava que aquilo que o posicionamento faz é “deixar de promover entre os jovens a meta da pureza e da castidade”, o que “constitui um grave erro, pois significa deixar de iluminar a vida com a fé”. Assim, concluía, “o CNE só pode estar a viver um grande equívoco!”.

Mais tarde, numa publicação no seu perfil de Facebook, o padre Pedro José Lopes Correia voltava a escrever sobre o tema: “O CNE é um movimento da Igreja católica, não deve por isso emitir opiniões ambíguas, equívocas, confusas… sobre este, ou outros assuntos, que contrariam claramente a doutrina oficial da instituição a que pertence”. E acrescentava: “Não, Deus não nos aceita tal como somos, de todo! Se Jesus Cristo nos aceitasse como nós somos, não precisava de ter vindo à Terra. Claro que Deus recebe-nos e acolhe-nos… por inteiro, tal como somos, com todos os nossos defeitos e virtudes… mas depois, convida-nos e desafia-nos a trabalharmos sobre nós próprios: sobre o nosso egoísmo, sobre a nossa autossuficiência, a nossa arrogância e pretensão, sobre as nossas teimosias e infidelidades… em suma, convida-nos a todos, todos, todos… à Conversão”.

Depois, sobre o acolhimento das pessoas homossexuais na Igreja, alertava ainda: “uma coisa é a delicadeza e o respeito, outra coisa é promover, normalizar, banalizar… a sua prática (veja-se a publicidade, a literatura, as televisões, o cinema, as abordagens na escola e, agora, até dentro da própria igreja)”.

Entretanto, no dia 3 de Janeiro, um artigo no Observador da autoria de um professor e antigo escuteiro, João Paulo Vieira, falava também do que considera ser uma “tentativa de assalto, marcada pela agenda ideológica, que está a ser feita ao Corpo Nacional de Escutas”.

 

“Encontros de aprofundamento” para “falar olhos nos olhos”

O chefe nacional do CNE, Ivo Faria, assume que “este encontro de ideias que por vezes não se encontram” estava previsto no projeto. Foto © CNE

 

Ivo Faria considera que “levou algum tempo para que as pessoas pudessem analisar [o documento] e tomar posição sobre ele” e assume que “este encontro de ideias que por vezes não se encontram” estava previsto no projeto Entre Linhas. O padre Luís Marinho confirma: “O projeto Entre Linhas é uma iniciativa de quem quer falar… foi para isso que foi criado e foi isso que fizemos ao longos dos últimos três anos. E eu, como responsável dele, assumo totalmente esta vontade muito firme de criar um espaço para falar aprofundadamente”.

O projeto incluiu, inclusive, várias iniciativas de debate, que culminaram, há um ano, com a realização de um simpósio sobre afetividade e sexualidade, que deu depois origem ao livro Lugares da Afetividade e da Sexualidade na Configuração da Identidade Pessoal, publicado em novembro pela Universidade Católica Editora, e que inclui contributos de 24 autores, vários deles professores da Faculdade de Teologia.

De resto, é com o espírito de aprofundamento, defende Luís Marinho, que têm sido realizados, por todo o país, “encontros de aprofundamento” sobre o “Posicionamento Institucional”, estando agendados mais três para os próximos dias: um já esta sexta-feira, 12, na Sede da Junta Regional de Évora, às 21 horas; outro no sábado, no Auditório da Paróquia S. João de Brito, em Lisboa, às 10 horas; e um último no dia 19 de janeiro, às 21 horas, no Auditório do Centro Pastoral de Pêra (Algarve).

“Todos os dirigentes do CNE são muito bem-vindos a esta conversa, assim como catequistas, professores de Educação Moral e Religiosa Católica e todos os que queiram juntar-se. Tudo aquilo que desejo é que o que se diz via redes sociais ou se escreve noutros locais possa ser falado aprofundadamente, olhos nos olhos. Porque no CNE continua a haver lugar para que se fale olhos nos olhos, como o projeto Entre Linhas sempre fez”, conclui.

O 7MARGENS tentou contactar durante os últimos dois dias, por várias vezes, o assistente regional do Patriarcado de Lisboa, a fim de pedir esclarecimentos sobre a carta sigilosa enviada aos restantes padres do Patriarcado, mas não obteve resposta.

 

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