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Domingos Silva Araújo, Braga, Diário do Minho
Domingos Silva Araújo, padre e jornalista.

Entrevista "Rostos e Rumos", do 7MARGENS e TSF

Domingos Silva Araújo, um padre jornalista no furacão do PREC em Braga

Há “decisões que se tomam no país que não estão condizentes com a doutrina da Igreja”, diz o padre Domingos Silva Araújo, antigo director do Diário do Minho, da arquidiocese de Braga, na última entrevista ao programa Rostos e Rumos, do 7MARGENS e da TSF.

Uma das questões que Silva Araújo contesta é a que diz respeito às propostas de lei do Governo sobre a imigração. “A imigração é um direito que as pessoas têm”, justifica. “Deus quando criou o mundo não fez fronteiras, Deus criou o mundo para todos. Os homens depois é que fizeram divisões.”

“É pena que não tenhamos católicos a sério no Parlamento; temos muita gente no Parlamento que é católica porque foi baptizada”, lamenta o padre bracarense. Mas, na hora de tomar decisões, “pesa muito mais a disciplina partidária do que a própria consciência”, acrescenta Silva Araújo, que continua a manter uma presença nas redes sociais – o seu “púlpito” actual, como diz – bem como uma coluna regular no jornal que dirigiu.

Menino e moço, Domingos nasceu em Gondar, no Verão de 1936, a breve distância de Guimarães. “Sou filho de um carpinteiro e a minha mãe era uma santa, uma grande senhora”, recorda, acerca dos pais. Seria entretanto pela cidade de Braga que distenderia os seus actuais 89 anos em actividades múltiplas, incluindo o dom de versejar, vertido sob o pseudónimo de Seara, em Poemas da Hora que Passa, publicados no semanário vimaranense Conquistador. Domingos Silva Araújo foi aluno dos seminários da arquidiocese de Braga, desde 1947. Em 15 de agosto de 1959, com 23 anos, é ordenado padre na Sé de Braga. Seria depois prefeito e professor de Latim e Português no Seminário de Nossa Senhora da Conceição. Até 1974, leccionou Religião e Moral em diversas escolas da cidade dos arcebispos.

Decisivo foi o curso de jornalismo que frequentou, por dois anos, na Universidade de Navarra, em Pamplona (Espanha), fundado pelo Opus Dei em 1952. A preparação académica tornou-o presença constante na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, em Braga, e em diversos institutos ligados à Comunicação Social. E, por 28 anos, Silva Araújo trabalhou como jornalista na redação do Diário do Minho. Seria depois o intrépido diretor do jornal por mais 27 anos, de 15 de abril de 1970 a 31 de agosto de 1997.

Deixou o jornal cansado das lutas com a administração, por causa das finanças: “Estava farto da ditadura do dinheiro, praticada por quem controlava o arcebispo” nesse campo. Apesar disso, foi seu ponto de honra manter sempre uma colaboração regular no diário da diocese. “Eu gostei sempre de escrever”, diz na entrevista.

Responsável pela instalação do estúdio Voz do Minho, da Rádio Renascença, foi também correspondente da Agência Lusa, em Braga. A seu tempo, deu também uma mão sábia na página da Internet da arquidiocese.

 

O PREC e as memórias de tempos políticos quentes

Domingos Silva Araújo, Braga, Diário do Minho

Domingos Silva Araújo num dos momentos da entrevista. Foto © J. Campinho, cedida pelo autor.

Sobre os tempos politicamente tensos do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) vividos em Braga em 1975, Domingos Silva Araújo defende a memória do seu colega, o cónego Eduardo Melo, e do então arcebispo: “O Partido Comunista teve o país na mão”, admite, e o cónego Melo militou contra a hipótese de uma “ditadura não-democrática” e Silva Araúsjo está “persuadíssimo” que o o seu “amigo” não teve qualquer “intervenção” na morte, em Vila Real, da estudante Maria de Lurdes e do padre Maximino de Sousa, que se tinha candidatado e deputado pela União Democrática e Popular, partido de extrema-esquerda.

Quanto ao arcebispo Francisco Maria da Silva “tinha vários defeitos – era um homem muito primário, conservador – mas também fez muita coisa boa”. O que dele se diz é muitas vezes mais “caricatura do que um retrato”, assegura. De resto, “nunca” se comprometeu “com nenhum partido político”. E acha “bem” muita coisa na esquerda política, tal como na direita.

Já quanto ao que se passa na Faixa de Gaza não hesita: “O que se passa é um crime repugnante, é um atentado contra a humanidade. Deus prometeu aquela terra a Abraão e aos seus descendentes; tanto são descendentes os israelitas como os ismaelitas”, lembra.

Na actividade pastoral, Domingos Silva Araújo foi reitor da Basílica dos Congregados, capelão de bombeiros e misericórdias, conselheiro espiritual das Equipas de Nossa Senhora, dos Centros de Preparação para o Matrimónio e assistente eclesiástico da Liga Operática Católica.

Sobre o catolicismo de Braga, diz que ele é “mais de acções de aparato do que de vida cristã” e por isso é preciso “ir” pelo caminho da sinodalidade. O celibato é uma regra que a Igreja “pode mudar”, mas observa que “é muito mais fácil orientar uma Igreja de padres solteiros do que de padres casados”. E afirma-se “solteiro, mas não “solteirão: quando pedi para ser ordenado, livremente aceitei a lei do celibato”.

Domingos Silva Araújo, Braga, Diário do Minho

Capa de Memórias de um Jornalista.

Na actividade literária é pródiga a participação de Domingos Silva Araújo em conferências, em volumes publicados, em livros que prefaciou e colaborações várias em revistas e jornais.

Definindo os seus versos como “poesia pobre” que todas as pessoas podem entender, afirma que continua a procurar “levar a vida muito a sério, na consciência de que [tem] 89 anos”. E no final despede-se com uma das músicas que evoca: Foi Deus, o fado cantado por Amália Rodrigues.

A entrevista pode ser escutada na íntegra na página digital da TSF.

 

 

 

 

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