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[Entre Margens]

Duas pérolas

| 24/07/2026

Senhores e senhores, apresentam-se de seguida duas pérolas, retiradas de um caderninho designado “Pérolas de Maio” (1). Como decerto o leitor concordará, trata-se de pérolas de qualidade indiscutível, embora de natureza muito distinta. 

captação de imagem - fotografia que acompanha o post de 30ABR2016 das Forças Armadas Portuguesas na sua página do Facebook; a imagem original é colorida

captação de imagem – fotografia que acompanha o post de 30ABR2016 das Forças Armadas Portuguesas na sua página do Facebook; a imagem original é colorida

aulas de religião imoral 

Com a televisão desinteressante, AbC pegou no computador, viu umas notícias aqui e ali, passeou-se por vários sítios. De certa página do Facebook, sem aviso, praticamente à traição, saltou-lhe uma malandra duma pérola que estava escondida (tecnicamente seria camuflada) entre prosas aparentemente inofensivas. Honestamente, ele teria preferido uma pérola que tivesse como exemplo de vida a nêspera do Mário Henrique Leiria, que estivesse quieta e calada a ver o que acontecia, mas não, logo lhe calhou uma aCtiva, ladina até mais não, que o atacou cheia de gana, sem pingo de misericórdia, parecia que vinha para o massacrar, olha olha, como certos verbos podem adquirir um sentido curioso – como à frente se verá. 

Para ser rigoroso, eis os factos da pérola. Saíra ela disparada (de novo, interessante verbo) de um post das nossas Forças Armadas que rezava assim (rezar, hoje é o dia dos verbos curiosos): “A iniciativa Ser Militar foi idealizada pelo aluno Gonçalo Santos (santos, desta vez é o nome que é curioso), como projeCto da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica no ano leCtivo de 2023/2024, dedicado ao tema “O que gostava de ser no futuro”, tendo sido a primeira edição no ano passado, replicada este ano”. A prosa vinha acompanhada de imagens, entre as quais uma bonita fotografia de adolescentes com maus cortes de cabelo a admirar uma mesa recheada de metralhadoras, um deles em posição de fazer tiro, o olho direito fechado, dedo no gatilho, ar compenetrado, imagina-se no fundo da mira um alvo maléfico, quem sabe se o bully da escola, quiçá um professor, quiçá um árabe, um russo, um terrorista, talvez um preto ou cigano, ou meros colegas, nada disso está explicado ou se pode legitimamente deduzir da imagem, trata-se de mero exercício retórico e especulativo, certo é que alguma coisa ou alguém estaria no fundo da mira. Alindam a imagem duas raparigas que convenientemente compõem o cenário da igualdade de género, todos olhados com desvelo maternal por uma senhora mais velha (crachá não tinha) que poderia ser ou não uma professora ou uma mãe. AbC achou logo tudo aquilo muito bem, evidentemente, cena católica o mais possível, de apoiar! (Ainda quis fazer um trocadilho com apoiar e poia, mas não conseguiu), ficou até convicto que a coisa tinha um enorme potencial de evangelização e achou até que se o projeCto caísse nas mãos de gente competente da sétima arte, poderia dar um filme fantástico. A sua cabeça esboçou logo um cartaz publicitário:

Título: O SNIPER CATÓLICO

Realização e argumento
Lopes da Silva, professor de religião imoral

Sinopse
A emocionante história do Furriel Gonçalinho Santos, filho de honrados lavradores católicos do interior, que sentiu o chamamento de Nossa Senhora depois desta lhe ter aparecido na aula de religião imoral da escola de Famalicão, perguntando quem queria servir os céus mandando para lá inimigos da pátria e de Deus. Gonçalinho queria e, aconselhado em lágrimas pelo seu fervoroso professor Lopes da Silva, mal findou o secundário, alistou-se nas tropas especiais. Queria ser sniper, percorrer o mundo de espingarda às costas. 

Produção
SCASN – Secretariado Católico do Apostolado para a Segurança Nacional
(elegante logotipo com uma cruz verde e uma espingarda encarnada vertical unidas por um cordão trabalhado amarelo)

Apoios
G-CEME – Grande-Chefe do Estado Maior do Exército
SNI – Secretariado Nacional de Informação

AbC via o exemplo de Gonçalinho a passar nas salas de cinema, no fim das missas, a animar serões nos salões paroquiais e, evidentemente, a elevar as aulas de religião imoral. 

Igualmente lhe pareceu imensamente bem a ideia do direCtor da escola de mandar afixar em lugar de destaque no átrio de entrada uma bela placa de latão amarelo mantido brilhante a poder de litros de solarina aplicada semanalmente pela D. Deolinda das limpezas, que perpetuaria o ideal de Gonçalinho, futuro furriel.

A placa: 

SENTIDA HOMENAGEM
da escola de Famalicão ao ex-aluno Gonçalo Santos, insigne Furriel do Exército, que nas aulas de religião imoral encontrou os valores que orientaram a sua carreia de sniper católico. 

Que o seu exemplo ilumine outros alunos.

No 1º aniversário da sua morte em combate

13 de Maio de 2029

 

O aCto de a descerrar imaginava-se nobre e festivo. Viria Sua Eminência Reverendíssima, o bispo do Porto, caminhando com solenidade e pesadamente, apoiado no báculo, equilibrando na cabeça a mitra, e naturalmente fardado a rigor com os paramentos dourados da praxe, arrastando atrás de si um manto brilhante e um monte de ministros e secretário de estado e uma apreciável lote de generais e coronéis e deputados da nação e o presidente da câmara e os das junta de freguesia do concelho e arredores e a família em choro mas orgulhosa e todos aqueles que, sob a capa de forças vivas da região, aparecem para que as fotografias os registem para uma fantasiada posteridade. Não faltaria, claro, a banda filarmónica da terra que tocaria peças litúrgico-militares, como a célebre “Ide, que Jesus te protegerá das balas dos infiéis”, evidente paradoxo perante o caso de Gonçalinho que a ninguém pareceu ocorrer. Um amigo de AbC recentemente regressado dos Balcãs tinha-lhe até contado como vinha impressionado com a quantidade de Gonçalinhos que povoam os cemitérios locais. Miudezas que não vêm ao caso.

Ironias à parte, AbC, alma velha de espírito antigo e desaCtualizado, deplorava que a sua Igreja, que evocara tradições e alegara imensa sabedoria milenar para reagir tão mal à modernidade, aceitasse agora tão adaptativamente os ventos dominantes da pós-pós-pós-modernidade ou lá o que era aquilo. Neste caso das aulas de religião imoral entristecia-o ver que já não serviam os propósitos da fé cristã, não falavam da transcendência de Deus, ou do Evangelho, nem tentavam ligar os seus valores à vida dos adolescentes para os ajudar a se pensarem e a crescerem, tudo coisas que já haviam dado uvas. Reorientadas segundo uma nova estratégica, apesar de manterem o espírito das velas e do incenso para que o tradicional bafio não se perdesse, as aulas de religião imoral demonstravam agora aos alunos a utilidade dos capacetes balísticos desde que benzidos, faziam a introdução ao manejamento de drones suicidas (explicando que neste caso o suicídio não era pecado), explicavam quais as mais apropriadas bençãos antes do seu lançamento para os ares e, claro, apresentavam o pio exemplo de Gonçalinho, o sniper católico. 

Ámen.

 

milagre

Capelinha das Aparições, em Fátima. Foto Santuário de Fátima

Capelinha das Aparições, em Fátima. Foto © Santuário de Fátima

Minusculinha nos seus meros cinco quilos oitocentos e cinquenta, Teresinha foi levada a passear pela avó e pela mãe. Era 13 de Maio, o que só dois dias depois AbC deu conta. 

Estava em casa, não viu nada, contaram-lhe tudo. Desciam as três a rua quando a avó decidiu entrar na igreja. Sentaram-se as três no local onde ela costuma rezar. Serenaram da passeata, do calor, do cansaço, contemplaram. 

Num ímpeto, a avó tirou Teresinha do carro e levou-a ao colo até lá à frente. Disse, meio a sério meio a brincar que, para que se conhecessem, a foi apresentar a Nossa Senhora (alegadamente a de Fátima, AbC era pouco versado nessa coisa das poli-maternidades de Jesus). A criança investigou a imagem como investiga tudo em seu redor, é da idade, os olhos num rodopio e, inesperadamente, sorriu-lhe um sorriso aberto e lindo. É a parte do inesperadamente que torna o momento especial porque Teresinha rir-se nada tinha de notório: a criança era uma doçura, um qualquer estranho pegava-lhe ao colo e ela sorrir-lhe-ia. Não raras vezes pestanejava com uma graciosidade que AbC achava ímpar, enfim, podia ser ou não ser, parece que isso pode muito depender de quem olha, mas ele olhava Teresinha como avô e por isso achava-se no inquestionável direito de, por exemplo, considerar completa e absolutamente singular o pestanejar e o sorriso de Teresinha. Portanto, em resumo, Teresinha sorrira docemente para uma imagem de madeira como sorri para as pessoas, de modo tal que espantou a mãe e avó, senhoras já batidas nos sorrisos de Teresinha. 

O episódio de brevíssimos segundos foi contado em casa com certa emoção, e sob uma levíssima neblina de mistério, a suficiente para no dia seguinte AbC ir à igreja tirar as medidas a Nossa Senhora.

Em primeiro lugar confirmou tratar-se da de Fátima graças à ridícula coroa que os homens insistem em literalmente espetar-lhe no cocuruto, como se fosse monárquica ou regente de algum reino celestial. Depois, achou a estatueta inverosimilmente pequena, o que tornava a situação mais estranha. Olha que há coisas…, pensou. 

Nas semanas que se seguiram, sempre que podia contava a cena aos amigos provocando a gargalhada de agnósticos e ateus, e uma condescendente risada dos católicos. AbC retorquia-lhes, vocês sabem que eu não sou nada dessas coisas de Fátima, acredito lá em pastorinhos e aparições, aliás nada daquilo é dogma de fé. Mas a verdade é que a Teresinha ia ao colo da avó e diante da pequena imagem de Nossa Senhora riu-se para ela, como se fosse para uma pessoa. Eu não digo que foi um milagre, ora essa, há-de ter sido um acaso, uma emoção momentânea vinda da amígdala, mas gosto de pensar que a Teresinha viu o que só ela aos cinco meses poderia ver, um sinal invisível de Nossa Senhora, talvez um piscar de olhos de cumplicidade entre as duas, vocês imaginam Nossa Senhora a piscar-lhe o olho?, gosto de pensar isso, que é que vocês querem, não posso? 

Podia, claro. Até ao ponto poético em que se convenceu que era verdade, ou antes, que podia ser verdade. 

Certo é que Teresinha, com a sua doçura habitual, havia sorrido a Nossa Senhora. Por isso, AbC achou-se a agradecer-lhe a amabilidade e a pedir- lhe encarecidamente que olhasse por ela, pelos pais e por todos, que o mundo estava tão terrível e perigoso. 

E nas orações da noite, Nossa Senhora passou a ter, digamos, uma outra atenção.

AbC concluiu que de vez em quando lá aparecem outras pérolas, das verdadeiras, mesmo que não pareçam.

Apeteceu-lhe gritar: viva a TAP. Não o fez porque achou que ninguém o compreenderia.

 

  1. Nota do autor: “Pérolas de Maio” é um caderninho de acidez impublicável; contudo, pode ser remetido a quem o solicitar (nfcaiado@gmail.com). O autor não se responsabiliza pelos efeitos da referida acidez em espíritos mais sensíveis. 

 

Nuno Caiado

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