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Fernando Ventura, Joaquim Ferreira Lopes
Joaquim Ferreira Lopes (dirª), com frei Fernando Ventura (esqª), na sessão dos 70 anos da Difusora e revista "Bíblica". Foto © António Marujo/7MARGENS

70 anos de trabalho bíblico dos Capuchinhos

“É hora de rever as traduções da Bíblia existentes”

| 25/03/2025

É preciso “rever as traduções da Bíblia existentes no mercado”, mesmo se a qualidade delas é genericamente boa. Que o defende é frei Joaquim Ferreira Lopes, capuchinho e bispo emérito de duas dioceses angolanas. A editora e a revista Bíblica, dos frades Missionários Capuchinhos, fizeram 70 anos e a efeméride foi assinalada em Fátima, recordando histórias que metem polícias e comboios com frades suspeitos, e recordes de vendas de meio milhão de livros.

 

O frade capuchinho espanhol Inácio de Vegas conduzia um dia uma carrinha em Lisboa e fez uma manobra proibida à frente de um polícia. Este interpelou-o vigorosamente e Inácio de Vegas respondeu: “Tem toda a razão, senhor polícia. Mas a palavra de Deus tem sempre prioridade. Tome lá este Novo Testamento e leia sempre pelo menos uma ou duas linhas.”

A história era contada por Fernando de Negreiros, também frade capuchinho, e passou-se em 1961. Nessa altura, o movimento fundado à volta da revista Bíblica e da editora, Difusora Bíblica, tinha apenas seis anos. Mas em 1957 vendera 510 mil livros, entre exemplares da Bíblia e obras que dela falavam.

Hoje, as vendas anuais da editora andam pelos 20/25 mil livros, diz ao 7MARGENS o administrador, frei Luís Leitão. Apesar de o país desse tempo ter um quarto da população analfabeta e haver hoje muito mais catequistas e agentes pastorais católicos em actividade.

A Bíblia é o campo de actividade prioritário dos capuchinhos há 70 anos, depois da criação da editora e da revista. A efeméride foi assinalada na tarde desta terça-feira em Fátima, com uma sessão em que também foram apresentadas duas novas edições da Difusora: HomEnquadrado, pequenos poemas de frei Lopes Morgado, que morreu no dia 1 de Março do ano passado e que, além de ter sido o principal responsável da revista Bíblica em vários períodos, foi também animador do movimento de dinamização bíblica, cronista de jornais e rádios, inspirador de um “Jardim Bíblico” e de um núcleo museológico de presépios em Fátima, além de autor de vários livros poéticos e sobre Bíblia; e ainda O Livro de Rute – O Evangelho da Mulher, sobre o texto bíblico que celebra uma das figuras femininas mais importantes do Antigo Testamento, da autoria de Joaquim Ferreira Lopes, frade capuchinho e bispo emérito de Dundo (2002-2008) e de Viana (2007-2019), em Angola.

 

Masculino/feminino: aperfeiçoar as traduções

Fernando Ventura, Joaquim Ferreira Lopes, Lopes Morgado

O frade capuchinho e bispo emérito Joaquim Ferreira Lopes (dirª), com frei Fernando Ventura e a foto de frei Lopes Morgado (esqª), na sessão evocativa dos 70 anos da Difusora e revista “Bíblica”. Foto © António Marujo/7MARGENS

“É hora de rever as traduções da Bíblia existentes no mercado”, defendeu o autor durante a sessão de apresentação do seu livro. Mesmo a edição promovida pela Difusora Bíblica, diz o frade capuchinho e biblista. Sendo de “boa qualidade”, elas estão ultrapassadas em diversos pormenores, tendo em conta os códices que têm sido descobertos e que acrescentam possibilidades de leitura e interpretação.

Ao 7MARGENS, Joaquim Lopes dá um exemplo: em hebraico, há verbos que são conjugados no masculino e no feminino; mas nas versões existentes são quase sempre traduzidos no masculino. E há verbos com “um leque de significados por vezes quase infinito, que se torna difícil traduzir. “Hoje há elementos que estão à nossa disposição” e as descobertas mais recentes “podem ajudar a aperfeiçoar as traduções” existentes, acrescenta.

O frade e bispo refere ainda que o livro de Rute é um exemplo da exaltação da mulher que aparece na Bíblia. Na apresentação da obra, um estudo textual que pretende ser uma sugestão para propostas de tradução segundo o autor, frei Fernando Ventura, actual director da revista Bíblica, destacou que o livro de Rute fala de mulheres estrangeiras – moabitas – e que é protagonizado por elas. “Algumas pessoas ficam assustadas porque as mulheres podem tomar a palavra”, comentou, acrescentando que, na actual situação da Igreja Católica, o “desafio não é clericalizar as mulheres, é ministerializar a Igreja”.

Fernando Ventura referiu que o livro de Rute nasce algures nos séculos VI/VII antes de Cristo, depois do exílio dos judeus na Babilónia, “num tempo muito semelhante ao nosso”, quando “vão aparecendo novos faraós: hoje estão a chegar ao poder tantos homens sem memória”, lamentou, o que repete uma situação referida no livro do Êxodo, quando “chegou ao poder um faraó que não conhecera José”, o judeu que conquistara a amizade dos anteriores líderes egípcios, antes da escravidão a que os judeus foram sendo submetidos, como conta aquele livro bíblico.

Homenageado através da publicação do pequeno livro póstumo de poemas, HomEnquadrado, Lopes Morgado foi recordado por Luísa Abreu, do Movimento de Dinamização Bíblica, como “um poeta” com uma “centralidade bíblica” na sua obra, e que era um “apaixonado pela palavra de Deus, pelos presépios e pela ideia de “nascer todos os dias”, tão presente no Natal. “Um criador”, acrescentou Tânia Cordeiro, responsável gráfica da editora, que tinha permanentemente consigo um bloca de notas para registar ideias de que se ia lembrando.

 

Um saco de livros às costas pelos comboios

Herculano Alves

Frei Herculano Alves, coordenador da Nova Bíblia dos Capuchinhos, lançada em 1998, e o espanhol Frei Inácio de Vegas, iniciador em Portugal do Movimento de Dinamização Bíblica. Foto © Difusora Bíblica.

O Movimento Bíblico e a Difusora Bíblica (a maior editora do texto sagrado em Portugal) foi fundado por Inácio de Vegas em Portugal em 1955, um “andarilho e contemplativo, hábil em arranjar financiamentos para as edições bíblicas e profundamente pobre, especulativo e prático”, como recordava em tempos o também capuchinho Fernando de Negreiros, que com ele trabalhou directamente durante vários anos.

Nascido em Vegas del Condado (León, Espanha), a 19 de Setembro de 1904 – fez agora 100 anos – Florencio Eradio González Martínez, de seu nome de baptismo, veio para Portugal em Junho de 1936. O seu grande ideal era “espalhar a palavra de Deus”, o que conseguia recrutando, nas classes mais altas, “madrinhas” que financiavam edições dos evangelhos e textos bíblicos.

Inácio de Vegas também entrava muitas vezes nos comboios, com uma sacola às costas cheia de livros. Explicava brevemente ao que ia e, depois, distribuía edições dos evangelhos que levava consigo. Vestido de frade, muitos dos viajantes achavam a cena estranha – na Igreja Católica, a Bíblia era ainda vista como um livro perigoso para os fiéis – e telefonavam para os franciscanos capuchinhos a confirmar se ele era mesmo frade.

Em 1965, Inácio de Vegas viu concretizado o seu sonho de publicar uma nova tradução da Bíblia, com uma primeira edição de 50 mil exemplares. Até hoje, a Difusora já ultrapassou em muito os dois milhões de exemplares da Bíblia vendidos em quase 30 edições. Sobre ele, dizia Lopes Morgado que foi “o maior apóstolo da Sagrada Escritura na segunda metade do século XX”.

(Os parágrafos relativos a frei Inácio de Vegas recuperam elementos de um texto publicado no Público em Novembro de 2004.)

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