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Em busca da Luz: peregrinação pelas abadias cistercienses da Borgonha

| 24/08/2025

O modo de vida cisterciense é cenobítico.
Os monges cistercienses buscam a Deus
e seguem Cristo sob uma regra e um abade numa comunidade estável, escola de caridade fraterna.
Porque todos os irmãos formam um só coração e uma só alma, tudo lhes é comum.
Carregando os fardos uns dos outros, realizam a lei de Cristo e, participando nos seus sofrimentos, esperam entrar no reino dos céus.

(Constituições dos monges cistercienses da estrita observância – 1990)

 

Foi uma semana memorável, um sonho meu que finalmente se concretizou: peregrinar pelos mosteiros cistercienses da Borgonha em busca da espiritualidade desta ordem religiosa que prezo tanto. Foi uma peregrinação organizada pela comunidade da Capela do Rato na pessoa do padre António Martins entre 11 e 18 de passado mês de julho: o percurso incluiu, a partir de Lyon, passagem pelos mosteiros/abadias de Cluny, Paray le Monial, Cister ( Citeaux), Dijon (catedral de Saint-Bénigne e Igreja de Notre Dame), Abadia de Claraval (Clairevaux, Ville Sous-La-Ferté), Fontenay, Vezelay, Auxerre, Pontigny, Reims, Saint Denis e, finalmente, Notre-Dame de Paris. Um grupo diversificado de 32 peregrinos/as, com percursos de vida diversos, todos inquietos na busca do Indizível.

Abadia de Cister no departamento de Côte-d’Or, região da Borgonha: “Tudo foi animado por um espírito de grande rigor e uniformidade de vida, capacidade de adaptação às constantes exigências, despertando a admiração dos contemporâneos. Foto © Teresa Vasconcelos

O monaquismo cisterciense, basicamente, emerge da ordem beneditina, num momento em que se sentiu, com mais premência, a necessidade de uma reforma monástica. O movimento de Cister, iniciado em 1098, com a fundação de Cister (Citeaux), foi concebido para atingir objetivos concretos: romper com o mundo feudal que tinha comprometido a vida nos mosteiros e trazer um equilíbrio mais autêntico entre as componentes fundamentais da Regra beneditina combinando a oração com o trabalho manual. Isto foi conseguido através da escolha de uma verdadeira pobreza, como evidenciado pelo trabalho e simplicidade de uma vida centrada na contemplação. Tudo foi animado por um espírito de grande rigor e uniformidade de vida, capacidade de adaptação às constantes exigências, despertando a admiração dos contemporâneos. Esta foi a experiência de vida que as primeiras comunidades cistercienses gradualmente foram disseminando nas diversas áreas onde se instalaram. O ideal, de que os cistercienses eram pioneiros, embora focado numa ascese muito rigorosa, foi muito favoravelmente aceite pelos seus contemporâneos e rapidamente se espalhou por toda a Europa.

Os requisitos básicos da vida monástica, como descrito nos estatutos da Ordem, podem ser resumidos como: a pobreza, a uniformidade da vida, solidão, trabalho manual, simplicidade e devoção a Maria. Para ser capaz de viver em liberdade, as primeiras comunidades cistercienses acharam necessário estabelecer os seus mosteiros em lugares solitários e longe das cidades, castelos e aldeias. A escolha da solidão prevaleceu quer geograficamente quer ao nível do estilo de vida.

Vou desenvolver a minha reflexão sobre a visita a partir de um conjunto de grandes linhas que a espiritualidade cisterciense evoca em mim. Nestas amplas linhas procurarei inserir o que fui observando nas várias visitas. No entanto lembro que nem tudo o que visitámos pertence à tradição de Cister.

 

Beleza e estética cisterciense

“A peregrinação começou por Cluny.  Sabemos que Cister emergiu de um questionamento e como uma alternativa aos excessos da ordem de S. Bento.” Foto: Abadia de Cluny (detalhe). © Teresa Vasconcelos

A estética cisterciense foi fortemente influenciada por Bernardo de Claraval insistindo que as igrejas deveriam evitar ornamentação supérflua para não distrair o monge da oração. A arquitetura cisterciense era simples e utilitária, embora algumas imagens fossem permitidas como, por exemplo, o crucifixo e a estátua de Maria. Figuras mais fantasiosas e elaboradas, comuns nas igrejas medievais, eram proibidas.

A peregrinação começou por Cluny. Sabemos que Cister emergiu de um questionamento e como uma alternativa aos excessos da ordem de São Bento. Lindíssimo e imponente mosteiro, profundamente danificado pela Revolução Francesa: o que resta da igreja abacial, por exemplo, é apenas uma sombra da extensão do que foi a maior igreja da cristandade ocidental. Paredes maciças, tons beije/castanho na pedra, torres e telhados escuros, em pirâmide circular. Vitrais praticamente inexistentes, substituídos por vidros ou tentativas de colorir ligeiramente os vidros. Muitas paredes cerceadas – interrompidas…– com tijolos à vista, ajudando-nos a intuir o que teria sido o edifício original. Apesar de muita destruição pudemos constatar a sumptuosidade dos edifícios, nomeadamente as suas portadas para o exterior.

Claraval

Abadia de Claraval: “A estética cisterciense foi fortemente influenciada por Bernardo de Claraval insistindo que as igrejas deveriam evitar ornamentação supérflua para não distrair o monge da oração.” Foto © Teresa Vasconcelos

Cister e Claraval são magníficos exemplos da transição do românico para o gótico próprio da estética cisterciense, apesar dos danos causados pela Revolução Francesa e, anteriormente, pela Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Citeaux, o único mosteiro que ainda mantém uma comunidade de 35 monges, é apenas dotado de uma capela moderna (muito bonita por sinal) porque a igreja original foi completamente destruída. O processo de reconstrução tem vindo a ser feito lentamente, harmonizando a cor de tijolo com o branco das colunas e arcos em ogiva. Pelo contrário, o mosteiro de Claraval constituiu choque para alguns de nós, já que desde o século XIX até 2023 foi uma prisão que albergou três mil prisioneiros, incluindo crianças que viviam em situações deploráveis, sujeitas a castigos físicos e a subalimentação. Edifícios enormes, alguns apenas construídos para esse efeito, circundados de duplos muros com arame farpado, celas isoladas e sombrias lembrando bem a “paisagem” de um campo de concentração. Pareceu a alguns de nós que todo o sistema prisional se tinha apropriado de Claraval. Um dos edifícios em processo de reconstrução – destinado outrora aos irmãos conversos – mostra a amplitude e a beleza da simplicidade cisterciense. Alguns falam, a propósito da estética cisterciense, de uma “arquitetura de luz”. Regressarei a este tema da luz.

Abadia de Fontenay

A Abadia de Fontenay: “dos complexos monásticos cistercienses que visitámos, o melhor preservado; fundada por S. Bernardo, inicialmente construída em estilo românico, foi classificada como Património Mundial da Unesco (em 1981).” Foto © Teresa Vasconcelos

A Abadia de Fontenay é, dos complexos monásticos cistercienses que visitámos, o melhor preservado. Fundada por S. Bernardo, inicialmente construída em estilo românico, foi classificada como Património Mundial da Unesco (em 1981). Em consequência da Revolução Francesa e da expulsão dos monges a Abadia foi vendida em 1791 a um fabricante de papel. Bem mais tarde (em 1901), foi adquirida por um rico banqueiro de Lyon com o fim de a devolver à sua primitiva forma. Um dos edifícios é residência não permanente da família. Outro edifício à parte abriga a forja com seu moinho de água na qual os monges trabalhavam o ferro destinado a usos vários na região. Interessante verificar a técnica e engenharia criada pelos monges para tornar o seu trabalho mais eficaz. A igreja, totalmente reconstruída, mas vazia, impõe-se pela beleza e sobriedade dos seus arcos em ogiva. Todos os edifícios monásticos estão bem preservados.

Basília de Vezelay.

Basílica de Vézelay, mosteiro beneditino dedicado a Santa Maria Madalena, na rota dos Caminhos de Santiago.” Foto © Teresa Vasconcelos.

A Basílica de Vézelay, mosteiro beneditino dedicado a Santa Maria Madalena, está na rota dos Caminhos de Santiago. Situada no alto de uma colina, a íngreme subida representa algum esforço para os peregrinos, esforço esse que fez todo o sentido fazer. Apesar do calor. Em meados de 1050, os monges de Vézelay quiseram manter e guardar as relíquias de Maria Madalena trazidas da Terra Santa. Presentemente são veneradas na cripta.

A catedral de Reims representa o cume da estética gótica. Sublime nas suas proporções, está decorada dentro e fora por imagens – uma delas, no pórtico de entrada, o conhecido “anjo do sorriso” em tons rosáceos. Vitrais lindíssimos, entre eles os célebres vitrais de Chagall.

De Notre-Dame de Paris não posso descrever a emoção depois do terrível incêndio. De sombria tornou-se clara, uma iluminação preciosa, encaminhando os fiéis para a luz, algumas tapeçarias modernas (por exemplo Matisse) substituem as obras de arte que pereceram com o fogo. Radiosa, a conhecida imagem de Maria que, inexplicavelmente, escapou ao fogo. Notre Dame tornou-se uma catedral iluminada… uma catedral feita de luz.

A arquitetura gótica substituiu as paredes grossas das igrejas românicas por colunas altas e arcos capazes de sustentar o peso dos telhados. Orientados para o céu, sugerindo mãos postas. Em consequência, os edifícios góticos ganharam um aspeto mais leve. As janelas, mais amplas e altas, foram decoradas com belos vitrais coloridos que filtravam a luz natural, e com isso, criavam um clima de misticismo no seu interior.

 

Simplicidade e Frugalidade

Notre Dame. Paris

Notre-Dame de Paris: “Não posso descrever a emoção depois do terrível incêndio. De sombria tornou-se clara, uma iluminação preciosa, encaminhando os fiéis para a luz”. Foto © Teresa Vasconcelos

Depois dos excessos da prática beneditina que antecedeu Cister, a simplicidade está no coração do modus vivendi cisterciense. A nova arquitetura cisterciense incorporava a ordem e o despojamento. Como afirmei anteriormente, o excesso decorativo das igrejas e capelas era visto por São Bernardo como “distração da piedade”.

A maioria das abadias e igrejas cistercienses foram construídas em vales remotos, longe das cidades e áreas povoadas; o isolamento e a necessidade de auto-sustentabilidade geraram inovação entre os cistercienses. Muitos assentamentos cistercienses mostram os primeiros exemplos de engenharia hidráulica e rodas de água. Depois da pedra, os dois materiais de construção mais importantes eram a madeira e o metal. Os cistercienses também eram metalúrgicos habilidosos, e a sua habilidade com o metal foi associada diretamente ao desenvolvimento da arquitetura cisterciense e à disseminação da arquitetura gótica como um todo.

Dormitórios situados intencionalmente  ao lado das igrejas. Ligação da oração ao trabalho – todos os monges trabalhavam para garantir o seu sustento. Frugalidade de vida, incluindo a alimentação: os monges não comiam carne, por exemplo. Cluny havia perdido o sentido do trabalho manual, bem físico – por exemplo, a metalurgia, que encontrámos em Fontenay. Os irmãos conversos (irmãos leigos, não ordenados sacerdotes, mas fazendo votos) em certas circunstâncias asseguravam trabalho laboral mais pesado, não invalidando que os monges se mantivessem fiéis aos princípios do ora et labora.

 

Estabilidade

 Catedral de  Notre-Dame de Reims. Estátua do anjo sorridente. Foto © Teresa Vasconcelos

Em primeiro lugar a estabilidade, pela qual, no que depende de si mesmo, o monge está fixado na comunidade que ele escolheu e adotou. O voto de estabilidade fixa cada monge sob a autoridade do abade até à morte. Aparentemente uma exigência muito dura. Segundo a tradição, mantendo-se as mesmas pessoas em presença umas das outras, a estabilidade dá-lhes uma inevitável interpenetração dos menores defeitos, que é pouco cómoda para o amor-próprio ou para o ego, mas preciosa para o bem humano e espiritual de cada um e para a ordem geral. “Assim se acham corrigidas duas tendências que podem emergir quando falamos de nós: a primeira consiste em atenuar, disfarçar o melhor possível, tudo o que é contra nós; a segunda, fazer sobressair artisticamente tudo o que é a nosso favor”, afirma São Bento. Portanto, São Bento estabeleceu o voto de estabilidade contra essas duas tendências. É um remédio contra as ilusões … “e contra a inconstância” afirma. Concentra as diferentes fases do combate num mesmo lugar, sob o mesmo comando, diante das mesmas testemunhas, manejando as mesmas armas, todas escolhidas por um mestre como São Bento. Assim, segundo ele, pela estabilidade o combate espiritual é reduzido “a uma espécie de duelo em campo cerrado”, e este prosseguirá sem descanso, o que é necessário, uma vez que durará toda a vida. É necessário conduzi-lo com perseverança. Ora, se nas obras importantes e trabalhosas, a estabilidade dá o seguimento indispensável, ela é bem mais necessária num trabalho de santificação, que deve durar a vida inteira. Do ponto de vista instrumental, ela é decisiva. Ela fixa, prolonga, une à ação do tempo e da continuidade, a ação da Graça. A perseverança é a melhor tradução do voto de estabilidade.

A estabilidade produz, pouco a pouco, “o equilíbrio das faculdades, a paz da consciência, uma visão muito mais clara de si mesmo. Ela estabelece nas almas na calma e no silêncio interior, num estado que as mantém sem cessar à disposição do Espírito Santo”. “Tocar no voto de estabilidade é demolir a Regra” afirma São Bento. Houve mosteiros, pouco numerosos aliás que, não compreendendo a importância da estabilidade, não a aplicando, ficaram em situações incertas, e foi preciso que o conjunto de religiosos do exterior interviesse para remediar a situação. Os mosteiros isolados esgotaram-se. Mas, onde se manteve a estabilidade com toda a sua força, os mosteiros floresceram.

O mosteiro de Claraval mencionado em cima, fundado por São Bernardo, fez emergir em alguns de nós uma certa similitude entre a situação dos monges que os antecederam e os presos. A solidão e o isolamento, as condições duras do dia a dia e, sobretudo, a privação da liberdade. Mas se em uns – os presos – a privação da liberdade era compulsiva, com os monges a privação da liberdade era escolhida e oferecida por um bem maior. Esta privação da liberdade escolhida, estava diretamente ligada ao voto de estabilidade: tal como os presos, o confinamento a um mesmo lugar por um tempo indeterminado.

Pensei também no voto de estabilidade dos monges cistercienses de Tibhirine, na Argélia – havia uma fotografia deles no mosteiro de Citeaux. Na radicalidade das suas escolhas, de uma forma coletiva e assumidamente negociada (apesar dos dilemas experimentados individualmente), escolheram permanecer no mosteiro apesar da ameaça dos guerrilheiros fundamentalistas argelinos. Foram levados e mortos. São hoje considerados mártires. A fidelidade ao lugar também se prendeu com a comunidade muçulmana da aldeia com quem partilhavam afinidades, cultura e a busca de Deus, mas também apoios na saúde, no discernimento espiritual, nas celebrações. Foi a esta comunidade muçulmana que os monges de Tibhirine escolheram também permanecer fiéis no seu voto de estabilidade. Assumo então que o voto de estabilidade pode e deve ser contextualizado, neste caso a uma comunidade bem diversa da dos monges.

 

Transcendência e Luz

Abadia de Pontigny

Abadia de Pontigny: construída no século XII, combina arquitetura românica e gótica; fiel à arte cisterciense, é desprovida de qualquer representação supérflua e contenta-se em sublimar e magnificar a luz. Foto © Teresa Vasconcelos.

 

Comum a todos os conventos visitados foi a experiência da luz como busca da transcendência. ”A nobre obra brilha, mas, como é nobremente brilhante, deve iluminar as mentes para as conduzir através das verdadeiras luzes, para a verdadeira luz, onde Cristo é a verdadeira porta (inscrição numa das portas de bronze da Abadia de Saint-Denis, por ordem do abade Suger (c. 1081-1151). A Abadia de Pontigny, construída no século XII, combina arquitetura românica e gótica. Fiel à arte cisterciense, é desprovida de qualquer representação supérflua e contenta-se em sublimar e magnificar a luz. A luz entra pelos vitrais para iluminar os pilares de calcário branco, ampliando a sensação de luminosidade no espaço despido. Admira-se a pureza das linhas e a harmonia das proporções, sente-se a atmosfera minimalista, saboreia-se o silêncio monástico. É considerada a maior abadia cisterciense do mundo.

Esta “arquitetura de luz” pretendia elevar o observador “do material ao imaterial”. Era, segundo o historiador do século XX, Georges Duby, um “monumento da teologia aplicada”. A fim de alcançar tais efeitos emocionantes, os interiores de muitos edifícios religiosos foram projetados para serem testemunhados em horários específicos do dia, como o nascer e o pôr do sol, simplesmente através da luz espelhada no solo.

Um “esquema racional e integrado” foi usado em toda a Europa para atender às necessidades amplamente homogéneas da ordem, com indicações semelhantes para liturgia e música e mesmo para a lectio divina (leitura orante da Bíblia). Vários edifícios, incluindo a sala capitular a leste e os dormitórios em cima, foram agrupados em torno de um claustro e, às vezes, ligados ao transepto da própria igreja por uma escada noturna que permitia um rápido acesso ao dormitório de modo a permitir os ritmos litúrgicos da noite. Normalmente as igrejas cistercienses eram cruciformes, com um presbitério curto para atender às necessidades litúrgicas dos irmãos, pequenas capelas nos transeptos para a oração privada, e uma nave dividida aproximadamente ao meio por uma tela para separar os monges dos irmãos leigos. Em todas as abadias visitadas uma imagem de Maria, Nossa Senhora, ocupava um lugar central. Comoveu-me contemplar a estátua de Maria em Notre-Dame de Paris, inexplicavelmente salva do fogo. Hoje, mesmo nas capelas mais simples dos monges cistercienses um ícone de Nossa Senhora ocupa uma das paredes da capela. Todos os mosteiros cistercienses são dedicados a Maria. Reims e Notre-Dame incorporam de modo sublime o esplendor do gótico.

Recorro aqui a uma interpeladora reflexão de frei Carlos Maria Antunes (2011), monge de Cister no mosteiro do Sobrado (Espanha) sobre o que é ser monge: “Ser monge requer uma rutura, uma iniciação, um novo nascimento. Ninguém se faz monge porque simplesmente quer. Fazemo-nos monges como resultado de um impulso, de uma urgência interior; urgência essa que, atrevo-me a dizer, é provocada por uma ausência. Uma ausência que intui uma Presença (…). A partir desta experiência sentimos que nada mais podemos fazer senão adentrarmo-nos no desconhecido de nós mesmos. Cansados de buscar fora de nós a alegria que tanto desejamos, redirecionamos o olhar para o interior, lançando-nos numa busca solitária, conduzidos pela nossa sede. Está traçado o grande eixo da vida monástica”.

Chagall. Vitrais. Reims

Vitrais de Chagall na Catedral de Reims: “O apelo à transcendência em todos os momentos: a luz, a ogiva dos arcos, a simplicidade das colunas, a pedra lisa e clara, o teto abobadado, o ‘vazio’ de imagens que dispersem a oração”. Foto © Teresa Vasconcelos.

Aquilo que mais me move na espiritualidade cisterciense é o apelo à transcendência em todos os momentos: a luz, mas também a ogiva dos arcos, a simplicidade das colunas, a pedra lisa e clara, o teto abobadado, o “vazio” de imagens que dispersem a oração, a funcionalidade de modo a poupar tempo e esforços, a simplicidade dos bancos em madeira, a própria sobriedade dos vitrais. A busca do desconhecido. Quando me ajoelho sinto que toco algo que me transcende e ilumina: a busca e a sede do “centro”.

Frei Carlos Antunes cita Raimon Panikkar no mesmo livro: Na medida em que tentamos unificar as nossas vidas à volta de um centro, todos temos algo de um monge. Este centro, em virtude de ser um centro, é imanente ao ser humano; mas ao mesmo tempo, como ainda não o alcançámos, é transcendente (p. 50).

 

Referências
. Antunes, Carlos Maria (2011), Atravessar a Própria Solidão: Chamamento à Vida Espiritual: Monge – Um olhar aberto e atento (páginas 49-66). Lisboa: Paulinas.
. Beauvoix, Xavier de (2011), filme Des Hommes et des Dieux.
. Niaussat, M. (2021) L’ Ordre Cistercien. Editions Ouest-France.
. Ray, Christine (1998). Christian de Chergé: Une biographie Spirituelle du prieur de Tibhrine. Paris: Albin Michel.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal. t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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