“…Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh’alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia
…”
(A. Lopes Vieira)
No Pinhal d’ El-Rei pedalávamos de madrugada à procura da melhor caruma, contemplando também outras plantas, tais como os medronheiros de frutos vermelhos, camarinheiras de frutos branquinhos, urzes de cor entre o rosa e o roxo, ao som do chilrear dos pássaros garridos. De certo modo, estes trabalhos, pinhal dentro, tinham algo de cativante, a aventura matutina parecia um passeio à deriva, por cima do leve manto branco da geada, que a tudo dava um ar de Natal.

Algumas das camarinhas eram comidas no local, e as outras eram apanhadas pelas mulheres da Praia da Vieira ou de e S. Pedro de Moel, para depois venderem. Foto da autoria da Câmara Municipal da Marinha Grande. Direitos Reservados.
Esta Mata Nacional de cerca de dez séculos de existência, para além de ter sido, ao longo dos anos, uma fonte constante de benefício para os lavradores, carvoeiros e operários dos lugares circundantes, oferecia alguns recantos de uma beleza muito peculiar. Destes, no Olho do Samouco, a água doce, apesar de muito perto da salgada, brotava borbulhando espontaneamente da areia, fazendo bolhas de mistura de água com areia, que nasciam ali mesmo por entre o denso pinhal bravo e a escassos metros do Atlântico.
Enquanto, os pinheiros bravos davam pinhas com peniscos, haviam alguns recantos do pinhal com pinheiros mansos. Das pinhas destes, se retiravam os pinhões tão apreciados hoje em Portugal e Espanha.

As mulheres faziam fiadas de pinhões, uma espécie de colares, que vendiam e as crianças adoravam. As que aqui se visualizam, foram adquiridas no último Verão, na Praia da Vieira. Direitos Reservados.
Apesar da árvore de Natal ter sido adoptada pelo Cristianismo na Idade Média, na minha terra, optávamos pelo Presépio, que nunca deixámos de fazer. Também para este, recorríamos aos pinhais, sobretudo aos sítios húmidos, onde colhíamos musgo para cobrir o chão, pedras para a gruta e azevinho para ornamentar a casa.

Foto de azevinho, captada na última quadra natalícia, na minha terra natal. Direitos Reservados.
Como todos sabemos, o Pinhal d’ El-Rei foi incendiado em 2017, tendo sido atingidos 86% da Mata Nacional, portanto mais de 9000 hectares. O planeamento do incêndio com um mês de antecedência, conforme reportado no ano seguinte, foi levado a cabo pelos apelidados de “Máfia do Pinhal”… “…a questão dos incêndios é indissociável das questões climáticas…” disse Ana Loureiro, conforme citado por Clara Raimundo no último Novembro, 7MARGENS. A destruição das áreas florestais estão na base das citadas alterações climáticas. Desde o nosso Rei D. Diniz, o Pinhal de Leiria oferecia não só a fixação das dunas, como a proteção dos campos agrícolas e casas, formando uma barreira natural. Como podemos dissociar completamente os estragos da depressão Kristin de ontem, 28.01.2026 daquele incêndio, uma vez que a tempestade entrou em território nacional pela zona de Leiria e daí progrediu para uma área alargada do País? Era o Pinhal que a Nossa Rainha Santa Isabel, tinha iniciado, transportando sementes, penisco, no seu avental e cuja sementeira vingou mostrando-se verdejante e bela. A. Lopes Vieira canta o facto, “A Rainha Santa Isabel/ no areal bravo de Moel/ meteu a mão no regaço/ deitou sementes ao espaço. – Ó Pinhal do Rei, do Rei meu marido/ Andará nos mares teu corpo florido…”
No contexto actual, ocorre-me um artigo de A. Rebelo (2018), onde é explicado o papel importante que a Rainha Santa teve na construção da Paz, os seus devotos a invocavam na qualidade de medianeira da Paz, não só no plano particular e familiar, mas também perante conflitos bélicos de larga projecção ou âmbito, como foi o da Grande Guerra. A triste e cruel realidade que era transmitida, moveram o País em preces junto da sua Mãe da Paz. Tal foi a afluência dos fiéis ao túmulo de Santa Isabel que a sua Confraria pôde dar início e vir até a inspirar obras sociais, entre as quais a Casa do Gaiato.
E como não poderia eu mencionar a invocada Rainha da Paz, Mãe Maria, e a devoção do povo português a Nossa Senhora e à terra. Naquele pinhal, estavam presentes a força da natureza que provinha da terra, as vacas e outra fauna diversa, como raposas, coelhos e aves, a imensidão da floresta, a vegetação colorida, a proximidade do Atlântico e das inúmeras nascentes de água doce, não só a do Samouco, como a das Canas, a do Tremelgo, a da Felícia, a dos Amieiros, a da Água Formosa e mais. Era também a doce sensação de serenidade e segurança em que se pode estar, a união profunda entre as nossas paisagens interiores e a beleza da terra que nos envolvia.
Nossa Senhora andava sempre dentro de nós e nos protegia, e a todos os nossos próximos espalhados pelos vários Continentes. No Brasil, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é de origem portuguesa, de meados do século XV (1463) e é venerada em Curitiba, “Core-tuba” (“muito pinhão”).
Maria é um exemplo de liberdade, de inspiração, de inteligência, de apostolado, de contemplação, de responsabilidade, de coragem e questionamento conforme já foi afirmado por bispos católicos.
Mário de Oliveira, já deixou escrito há cerca de 50 anos: “Então despertemos, porque é urgente que nos tornamos Maria. E, quando a Humanidade for Maria, então ela será a Humanidade recuperada, restabelecida na PAZ, onde o Homem deixou de ser o lobo do Homem, porque passou a ser companheiro, irmão, amigo”. Este/a homem/mulher será companheiro/a de Jesus!
No último 16 de Outubro, no Santuário de Fátima, fiquei feliz pela simplicidade com que o Cardeal George Jacob Koovakad, Prefeito do Dicastério para o Diálogo Inter-Religioso, terminou o evento comemorativo, para lembrar o 60º aniversário da NOSTRA AETATE: “Que a nossa Mãe Santíssima vos abençoe e vos guie!”.
Múltiplas e frequentes espécies de pinheiros são observáveis hoje a nível mundial e têm um alto significado espiritual em diversas culturas e religiões, simbolizando a imortalidade, a força e a coragem.

Este aprazível Parque de cerca de dez hectares é ladeado pela Ribeira do Jamor a Nascente e pelo Palácio de Queluz a Sul. Destina-se a todos, não tem cancelas nem muros. Foto © Maria Aldina Brás
Além de numerosas outras árvores, mais de vinte espécies incluindo as espalhadas pelos arredores, o parque conta com manchas de arbustos e plantas herbáceas coloridas que estimulam não só o ambiente vital, como o autoconhecimento.
O Parque oferece espaços de saudável exercício e convívio intergeracional, onde crianças, adultos e seniores, se sentem bem, ajudando a perceber a natureza como uma envolvência sagrada. Aqui caminho diariamente.
Maria Aldina Brás é geneticista médica e professora aposentada da UNL.
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