Este título não é original: Moria é um inferno (um testemunho)

A “selva” junto do campo de refugiados de Moria (ilha de Lesbos, Grécia), em Janeiro de 2020. Foto © Cláudia Valente, cedida pela autora.
O título não é original, mas inferno define bem o que por lá se passa. E não tinha de ser assim…
Moria é uma pequena aldeia na ilha grega de Lesbos: umas dezenas de casas, ruas estreitas onde passa um carro de cada vez e onde, nos passeios minúsculos, estão duas ou três cadeiras do café local, onde se sentam os homens de idade… tudo o que fica bem numa fotografia. Mas não se tira a foto, porque estranha-se a quantidade de pessoas que andam nessas ruas, em grupo ou sozinhas: famílias com crianças ou um bando de jovens, velhos e novos, homens e mulhers, cheios de sacos, com um pedaço de cartão ou madeira. Não são gregos nem são turistas. É que, seguindo numa dessas ruas, meia hora a caminhar, encontra-se o campo de refugiados de Moria. O que era antes um monte de oliveiras, é hoje um bairro de lata, plástico e cartão onde 20 mil pessoas tentam sobreviver.
A visão do campo é devastadora. Um amontoado de barracas à volta de uma estrutura em betão com arame farpado. O campo de Moria é constituido por duas áreas: o campo oficial, construído para o efeito e onde, dentro dos muros de betão pintados de branco, colocaram contentores (a que chamam “ice cubes” pelo frio que passam lá dentro) para alojarem os refugiados; e a segunda área, a que chamam “selva”, que não é mais que um conjunto a perder de vista de barracas feitas pelos própios com os materiais que arranjam: tendas de campismo cobertas de plástico, ou, simplesmente, uns paus ao alto com um plástico por cima, todos dispostos á volta do campo oficial.
Não entrámos no campo oficial… pelas descrições não era muito melhor que estar na “selva”. A lotação está mais que superlotada. O campo construído para cerca de 3.000 pessoas alberga mais de 20.000!
Na “selva” não há água, nem luz nem recolha de lixo. Há uma sanita e um chuveiro para cada 500 pessoas. Existe uma zona com água potável durante duas horas por dia que tem de servir para consumo, lavagem de roupa e tomar banho. Há um médico (de ONG, Organizações Não-Governamentais) para 3.000 pessoas. Há filas enormes para tudo. Sente-se uma grande tensão no ar e uma sensação bem real de que, a qualquer momento, os confrontos físicos podem acontecer. A falta de segurança é evidente. Há relatos de mulheres dormirem de fraldas para não terem de sair da “tenda” durante a noite…

A “selva” junto do campo de refugiados de Moria (ilha de Lesbos, Grécia), em Janeiro de 2020: barracas, lixo e pessoas convivem lado a lado, diariamente. Foto © Cláudia Valente, cedida pela autora.
Aqui não se vive… espera-se e sobrevive-se. E nem sequer percebemos muito bem como é que se pode sobreviver num sítio destes. Ao percorrer o labirinto por entre as barracas, onde uma miséria degradante se atira para os nossos olhos, vemos muitas pessoas agradecidas por estarem ali e que nos dão um pouco do nada que têm para agradecer o nosso trabalho. E não são só os sorrisos e o bando de miúdos que nos cercam a gritar my friend, my friend para nos dar um abraço, mas também o pão que cozem e que nos oferecem, a acompanhar o chá num copo incrivelmente lavado. Grande é o desespero desta gente que os leva a saírem das suas terras para virem parar a este inferno e estarem agradecidas por isso!
Os relatos são impressionantes… famílias inteiras, que tinham a sua vida normal e que, devido à guerra, tiveram de fugir. Que acharam que não conseguiam mais esconder a filha e evitar que fosse raptada pelos talibãs. Que um dos filhos tinha sido raptado por um qualquer senhor da guerra e não queriam perder os outros. Que acordaram com as bombas e agradeceram a Deus porque a casa deles foi a única a ficar de pé. Qualquer um de nós faria o mesmo. Neste campo, a maioria das pessoas são do Afeganistão, Síria, Iraque e Somália. Fugiram porque todos eles já perderam alguém na guerra. A morte é algo muito próximo.
O papel das ONG é fundamental para a sobrevivência destas pessoas. A falência da política europeia para a gestão desta crise humanitária está bem patente no número de ONG que todos os dias trabalham para tentar colmatar as necessidades mais básicas. Comida, roupa, calçado, apoio legal, suporte às grávidas (existem tantas mulheres grávidas!), suporte aos menores sozinhos (mais de 1000!), suporte aos bebés (tantos bebés de colo!), espaços para as mulheres tomarem banho, lavagem de roupa, formação em inglês, atividades para crianças (tantas famílias com cinco e seis filhos pequenos!) recolha de lixo, tudo isto é feito pelas ONG e os seus voluntários.
É impressionante a forma como as ONG no terreno se organizam para maximizarem o apoio, mas o que é fundamental não conseguem alterar. Continuam a chegar à ilha mais pessoas do que as que saem. Esperam meses, anos perdidos em processos burocráticos na esperança de irem para o continente e não serem devolvidos à Turquia ou aos seus países de origem. E enquanto esperam não têm nada para fazer. Uns juntam-se às ONG como voluntários, outros tentam montar um negócio no meio da “selva”, mas sobretudo deambulam por lá. Pelo campo, pela aldeia, junto ao mar… e isto, não faz nada bem ao turismo, uma das principais actividades económicas da ilha.

Uma barbearia e cabeleireiro improvisado numa barraca: há quem tente montar pequenos negócios, mas a maior parte deambula pela “selva”. Foto © Cláudia Valente, cedida pela autora.
Compreensivamente, os gregos de Lesbos estão preocupados e revoltados por estarem eles, sozinhos, a suportar tudo isto. A ilha, bastante pacata, a viver de um turismo ainda não muito invasivo e de uma agricultura baseada nas oliveiras, vê-se de repente envolvida nesta confusão, com sentimentos muito contraditórios. Aqui também se sente a tensão, entre os que querem a sua ilha de volta e a compreensão pela situação desesperante dos refugiados.
Fomos voluntários na Refuge4Refugees, uma ONG criada por um refugiado sírio. Um rapaz novo que atravessou a nado da Turquia para Lesbos e que, depois de obter a autorização de residência, voltou para ajudar outros refugiados. Esta ONG trabalha na distribuição de roupa, calçado e conjuntos de higiene e na recolha de lixo, ação de grande importância para o campo. São 20 mil pessoas a gerar lixo diariamente e os serviços municipais não o recolhem. Fica na memória a satisfação e agradecimento daquelas pessoas, por quatro dias de trabalho árduo numa recolha massiva de toneladas de lixo, o que deixou uma parte do campo com um aspeto mais limpo… por dois ou três dias!…
Uma semana depois de termos regressado a Portugal, a casa onde ficámos em Moria com outros voluntários e vários carros de diversas ONG foram vandalizados por grupos extremistas gregos. Nesta altura, várias ONG decidiram cessar a sua actividade por não ser possivel garantir a segurança dos voluntários.
No final, fica uma grande dor e uma grande revolta por esta Europa permitir que isto aconteça no seu próprio território. O que já era inadmissível, vai ficar pior com a saída das ONG. Cabe-nos a nós todos não deixar que o inferno de Moria continue a ser um inferno. Temos a obrigação de ficar no lado certo da história.

João Valente, Cláudia e Rui Valente, que estiveram quinze dias como voluntários em Moria. Foto: Direiros reservados.
Rui e Cláudia são gestores, pais do João, estudante e o mais velho dos seus quatro filhos; estiveram durante duas semanas em Lesbos como voluntários na Refugee4Refuguees, em janeiro de 2020.
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