
“Pergunto agora: será a nossa realidade assim tão diferente? Será que os nossos governos são agora imunes à aprovação da população?” Retrato de Nicolau Maquiavel de Santi di Tito, Palácio Vecchio, Florença, Itália. / Wikimedia
Acredito na sabedoria de alguns daqueles que nos precederam. Afinal, eles também aqui viveram e, como tal, deixaram-nos dicas sobre como é o mundo. No entanto, não diria que tudo se repete, de forma intacta, nem que todos foram capazes de atingir uma tão grande longevidade nas palavras. Houve alterações, é claro. Os seres humanos evoluíram, adquiriram conhecimento. Com tantos erros cometidos ao longo da história, levaria até à descrença na nossa espécie se não houvesse alguma aprendizagem. Mas, terá sido esta mudança suficiente para nos afirmarmos superiores aos que viveram muito antes de nós?
Há cerca de 500 anos, um indivíduo cujo nome pode levar ao preconceito, escreveu um livro intitulado de “O Príncipe”. Em busca de respostas sobre a política e sociedades atuais, decidi lê-lo, e mais esclarecida não podia ter ficado. Fascina-me como Nicolau Maquiavel nos dá um retrato do mundo selvagem e ardiloso que é a política. O autor propôs-se a escrever uma série de recomendações para o príncipe, de modo a que este governasse de forma segura, para si próprio. Explicava-lhe como lidar com as pessoas, ricos e pobres, com os seus conselheiros, com a interferência externa de outros príncipes. Maquiavel não escondia a realidade: nua e crua, era assim que a apresentava. E para uma conjuntura difícil, as recomendações que dava eram muitas vezes imorais. Ele aconselhava o príncipe a garantir o contentamento da população, dando-lhe, pelo menos, a ilusão de que se preocupava. Este devia proporcionar às pessoas entretenimento que fosse do seu agrado e evitasse qualquer reboliço social. Diz-nos Maquiavel que era destas ações das quais poderia depender a manutenção da posição de comando do príncipe. Simultaneamente, este não deveria mostrar fraqueza, mas antes determinação e força nas suas decisões. Ostentar em demasia a riqueza podia também trazer o ódio do povo, assim como a presença numerosa de estrangeiros. Quanto aos mais ricos e poderosos, Maquiavel reforçava junto do governante a importância de tê-los perto de si, precavendo o perigo de quererem tomar o seu poder.
Pergunto agora: será a nossa realidade assim tão diferente? Será que os nossos governos são agora imunes à aprovação da população? Não continuam eles a querer mostrar-se cautelosos com o nosso bem-estar, oferecendo ocasionais regalos, por recear perder todo o poder com a rebelião das pessoas? E quantas ações vimos serem tomadas pelos governos, com motivações declaradamente egoístas? Não nos deixamos nós influenciar por aqueles que aparentam zelar implacavelmente pelos nossos interesses, mesmo que não o façam efetivamente? A verdade é que o nosso critério para respeitar um líder reside na capacidade deste de não mostrar indecisão ou dependência. A não ser que grite por nós e que prometa tudo o que queremos ouvir, perderá a nossa atenção e será apelidado de fraco e inútil. Incompetente, se aceitar receber no seu território pessoas que cá não “pertencem”. Continuo a sentir-nos profundamente nacionalistas e patrióticos, moldáveis por palavras. Deixamo-nos dominar emocionalmente e vivemos acorrentados ao nosso mundo, às nossas ilusões, ao nosso tão feliz desconhecimento.
Podem considerar absurdo que comparemos tempos tão distintos, mas, na realidade, é ao ser humano que nos referimos. Adquirimos novos hábitos, mas a nossa natureza dificilmente se domina. Somos egoístas e queremos o que ilusoriamente nos pertence, sentindo-nos injustiçados quando o real vem ao de cima e nos apercebemos do nosso papel de meras marionetas. E tudo isto porque vivemos obstinados a pensar em nós e, imediatamente a seguir, em nós próprios. Todos herdamos algum maquiavelismo.
Beatriz Martins Mendes é aluna do 2°ano de Licenciatura do curso de Relações Internacionais da Universidade do Minho.










