Fernando Abreu, antigo militante dos movimentos católicos operários, faleceu na passada quarta-feira, dia 21 de janeiro. Grande parte da sua vida foi dedicada à atividade nos movimentos operários da Ação Católica, na BASE-FUT (Frente Unitária de Trabalhadores) e no sindicalismo. Foi um militante autodidata, uma referência para muitas pessoas cristãs e não cristãs e foi na Juventude Operária Católica que despertou para a necessidade de promover os trabalhadores numa perspetiva de que os mesmos terão de ser agentes da sua própria emancipação.
O velório será no domingo, 25, a partir das 10h, na capela mortuária da Igreja de Santo Condestável (Rua Saraiva de Carvalho, em Lisboa). Às 14h, no mesmo local, será celebrada missa de corpo presente, saindo depois o funeral para o cemitério dos Prazeres (Praça São João Bosco).
Nascido em 1933, foi trabalhar com 12 anos. O seu primeiro emprego foi no Café Nacional, onde hoje é o Celeiro, na Rua 1º de Dezembro, em Lisboa, como paquete, distribuidor de correspondência. Depois passou para a Livraria Bertrand, na Rua Anchieta, ao Chiado. Pouco tempo depois, foi trabalhar no Secretariado da Direção Geral da Liga Operária Católica, onde permaneceu dois anos.
Na JOC (Juventude Operária Católica) foi vogal da Pré-JOC, “propagandista” diocesano, presidente da secção da Encarnação (ao Chiado) sucedendo a João Gomes quando este transitou para a direção geral da JOC.
Trabalhou numa companhia de seguros de onde saiu para uma multinacional automóvel, onde esteve 43 anos.
Seria nomeado, pela direção geral da LOC (Liga Operária Católica), diretor do Centro de Cultura Operária (CCO).
Foi um dos obreiros da renovação que ocorreu no CCO e dos seus métodos de formação de trabalhadores. Uma formação que sem desprezar os instrumentos académicos seria feita a partir das realidades da vida dos trabalhadores.
Por outro lado, uma corrente do CCO progride e vai mais longe do que que a luta pela liberdade e contra a ditadura. Vários dirigentes, entre eles o Fernando Abreu, consideram necessário fazer uma rutura com o modelo económico que empobrecia a maioria dos portugueses, com a economia nas mãos de algumas famílias, e lutar por um sindicalismo que não seja de conciliação de classes.
A unidade dos trabalhadores como grande prioridade

Fernando Abreu trabalhou mais de quatro décadas numa empresa do setor automóvel.
Fundador do Movimento BASE na clandestinidade, o Fernando esteve no centro do debate sobre a criação de sindicatos cristãos em Portugal. A não criação de sindicatos confessionais que se colocou com mais premência em cima da mesa no seguimento do 25 de Abril de 1974 foi uma opção refletida, não apenas pelo contexto revolucionário, mas fundamentalmente para manter a unidade sindical dos trabalhadores portugueses. No período da ditadura ainda foram lançadas as Edições BASE e editados os primeiros livros, sob coordenação do Fernando Abreu.
Sob o pretexto de ser comunista, foi detido pela PIDE, a polícia política do Estado Novo, e espancado durante a ditadura de Salazar e Caetano. Por instruções da PIDE foi-lhe instaurado pela Polícia Judiciária, no início de 1970, um processo-crime por ofensas ao chefe do Estado do Chile por motivo de a introdução do livro Chile -Socialismo Impossível, publicado pelas Edições BASE, ter sido considerado ofensivo do General Pinochet.
Após o 25 de Abril desenvolveu intensa atividade sindical na multinacional onde trabalhou e no sindicato dos trabalhadores do Escritório. Foi o primeiro coordenador da BASE-FUT, Diretor da revista Autonomia Sindical, responsável das Edições BASE e presidente da direção do Centro de Formação e Tempos Livres (CFTL).
O mesmo aconteceu com a coordenação do Sector de Intervenção Sindical, a principal equipa de trabalho da BASE-FUT, a cargo também do Fernando Abreu e que esteve no apoio a várias lutas sindicais, na criação de alguns sindicatos como o das Empregadas Domésticas, Portaria, Vigilância e Limpeza, CTT e na luta pela unidade sindical e a preparação do Congresso de Todos os Sindicatos onde a CGTP se tornou mais abrangente e unitária, não se evitando, contudo, a criação da UGT.
No período já democrático, em 1978, o Fernando Abreu deslocou-se ao Brasil, que vivia em ditadura, onde esteve um mês a contactar e apoiar a Oposição Sindical Brasileira. Esta deslocação, totalmente clandestina, teve o apoio e cobertura da Confederação Mundial do Trabalho.
Em 1982, José Luís Judas, em nome da Comissão Executiva Nacional da CGTP, convidou o Fernando Abreu para integrar a direção desta central sindical com o pelouro das relações internacionais. Embora honrado pelo convite, o Fernando não aceitou o desafio por razões familiares e profissionais. Antes disso, em 10 de junho de 1981, foi condecorado pelo Presidente da República, António Ramalho Eanes.
Foi ainda um elemento importante na sensibilização do sindicalismo europeu, em particular da área da Confederação Mundial do trabalho (CMT), para as especificidades e problemas do sindicalismo português no quadro da Revolução de Abril colocando sempre em primeiro lugar a unidade dos trabalhadores. A sua lucidez militante e jovialidade fazem dele uma referência de várias gerações.
A BASE-FUT apenas lhe pode agradecer o seu empenhamento total durante tantos anos em prejuízo por vezes da própria família! Bem hajas querido amigo e companheiro de trabalhos e lutas! Descansa em paz. Estamos solidários com a família!
Brandão Guedes é membro da comissão executiva da Base-FUT e técnico superior aposentado da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT).










