
Francisco Perestrello, dinamizador do Boletim Cinematográfico e do Cinedoc, “pugnou pela causa e dignificação desta Arte ímpar que é o cinema”. Foto: Direitos reservados
Conheci o Francisco Perestrello – através de amigo comum – em 1975, quando por ele fui convidado para me juntar à equipa de críticos do Boletim Cinematográfico (BC). Já sabia alguma coisa, na altura, dessa publicação que cobria exaustivamente todas as estreias acontecidas nas salas de cinema, não apenas em Lisboa, mas um pouco por todo o lado onde se estreava um filme. E os filmes explodiam, nessa altura, de forma exponencial com a queda da censura e a vinda de tudo o que estava proibido ou cortado, antes do 25 de Abril de 1974, bem como a profusão de abertura de novas salas, ao menos em Lisboa.
Surpreendeu-me de imediato o conhecimento profundo que o Francisco possuía da coisa cinematográfica. Não era um saber enciclopédico – como tantas vezes acontece com cinéfilos – era um conhecimento vasto, enraizado, enquadrado numa profunda contextualização de sentido crítico. E tudo isto, embora, sem perder uma exaltante cinefilia e um caloroso amor pela sétima arte. Essas, de resto, eram características que se aplicavam por inteiro ao seu Amigo (e que fora também crítico do BC) Luís de Pina, há anos precocemente desaparecido enquanto diretor da Cinemateca Portuguesa e que, entretanto, no imediato da Revolução, fora diretor do IMAVE (Instituto de Meios Audiovisuais Para o Ensino), entidade do Ministério da Educação.
Tratava-se, pois, de um tandem altamente qualificado em matéria de cinema e que, desde a Universidade, lutava, no seio da Igreja Católica, pelo reconhecimento do Cinema como matéria importante no domínio comunicacional, cultural e artístico. Como noutro lugar desenvolvo, Francisco Perestrello fora colaborador próximo de Mons. Lopes da Cruz, fundador do Secretariado do Cinema e da Rádio (SCR), mais tarde Rádio, na designação, ser substituída pelo termo Audiovisual. E, ali, e no BC, Francisco Perestrello entregou todo o seu conhecimento e generosidade na dinâmica de muitos anos que, obviamente, passaram também pelo conturbado período revolucionário. Quando o BC teve de encerrar – em 1998 – por constrangimentos financeiros (os tempos e as convicções eram de outro tipo), o Francisco não desistiu e continuou, na Internet, com o entretanto criado CINEDOC que, como tem sido referido, foi um outro tipo de luta e de presença.
Tive o prazer de colaborar com o BC durante cerca de vinte anos. E quando, em 2000, com apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia, durante quatro anos, iniciei uma investigação em ordem a tese de doutoramento, centrei-a, no que tocava à documentação primária, no imenso material do BC. E aí encontrei, mais uma vez, o conhecimento, generosidade e amizade de Francisco Perestrello.
Quando desaparece, assim, alguém que tanto pugnou pela causa e dignificação desta Arte ímpar que é o cinema, o nosso sentimento só pode ser de profunda gratidão. Bem-haja Francisco, para sempre.
Carlos Capucho é professor aposentado da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa










