
O Papa Francisco em Assis, no sábado, no momento da assinatura da nova encíclica Fratelli Tutti. Foto reproduzida da transmissão vídeo do Vatican Media no canal YouYube.
Conselheiro do Grande Imã de Al-Azhar participou na conferência de imprensa de apresentação do documento, no Vaticano, e diz esperar que a encíclica ilumine decisores políticos “para sair do estado irracional em que o mundo vive hoje”.
Um recomeço na história. É deste modo que o juiz Mohamed Mahmoud Abdel Salam, conselheiro do Grande Imã de Al-Azhar, xeque Ahmad Al-Tayyeb, caracteriza a importância da nova encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti, a par do documento sobre a Fraternidade Humana, que ambos assinaram há ano e meio em Abu Dhabi.
Abdel Salam esteve ao final da manhã deste domingo, no Vaticano, numa conferência de imprensa de apresentação da terceira encíclica de Francisco, que o próprio caracteriza como sendo um documento de cariz social.
“Estou convencido de que esta encíclica, juntamente com o Documento sobre a Fraternidade Humana, reiniciará o comboio da história que parou na estação da ordem mundial actual, enraizada na irracionalidade, com a injustiça, orgulho e violência colonial”, afirmou Abdel Salam, citado na Ecclesia.
O juiz, que é também secretário-geral do Alto Comité para a Fraternidade Humana (ACFH), considera a nova encíclica do Papa e o Documento sobre a Fraternidade Humana como dois fortes elementos “contra a falsidade, com todas as suas formas e expressões” e impulsionam o “nascimento de uma nova ordem mundial, baseada na inviolável dignidade e nos direitos humanos”.
“Espero também que esta encíclica chegue às mãos de políticos e dos que tomam decisões, para que se sintam iluminados a partir dela para sair do estado irracional em que o mundo vive hoje”, afirmou o conselheiro do Grande Imã de Al-Azhar, a mais prestigiada universidade e centro religioso do islão sunita.
Na encíclica Fratelli Tutti (que significa “Todos irmãos”), o Papa cita várias vezes a inédita declaração sobre a Fraternidade Humana que foi assinada em Abu Dhabi (2019) pelo Papa e pelo imã de Al-Azhar, a mais prestigiada instituição do Islão sunita.
“Como é grande o Papa, quando adverte os povos diante dessa nova forma de colonialismo que se vive na manipulação de conceitos extremamente importantes e sensíveis, como democracia, liberdade, justiça e unidade, usando-os como meio de controlo, dominação e arrogância, esvaziando-os do seu significado, às vezes até mesmo para justificar o seu trabalho”, afirmou Abdel Salam.
“Como é criativo, quando fala dos direitos humanos, quando destaca as novas formas de injustiça e exploração do homem e da negação de sua dignidade, da injustiça contra as mulheres e de condições semelhantes à da escravidão, que tantas pessoas sofrem hoje”, acrescentou.
O secretário-geral do ACFH anunciou, na mesma ocasião, que a instituição vai convocar “um Fórum para 100 jovens de diferentes partes do mundo, e organizar dias de estudo dedicados a esta encíclica”, em Roma e Abu Dhabi, onde foi assinado o Documento da Fraternidade Humana, e ainda no Egipto, onde está sediada a Al Azhar, O objectivo é que os participantes se dediquem “à reflexão, ao estudo e ao diálogo”.
Com essa iniciativa, o Alto Comité pretende fazer chegar o pensamento da encíclica a jovens, de diferentes religiões e etnias, na esperança de que possa ser um passo “na direcção certa, em direção a uma fraternidade humana mundial”.
A encíclica foi hoje oficialmente publicada pelo Vaticano e apresentada, em conferência de imprensa, pelos cardeais Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso. Além de Abdel Salam, participaram também Anna Rowlands, professora da Universidade de Durham, e Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio.









