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[O flagelo que não acaba – XIV]

Garrido, o vitimador

Abusos ilustração Catarina Soares Barbosa

Ilustração © Catarina Soares Barbosa

 

Cidadelas do Orgulho é um livro de M. Nussbaum, que analisa como a alegada superioridade moral e o poder sem controlo de alguns homens perpetuam o abuso sexual sistémico, o narcisismo e a masculinidade tóxica.

Os abusos de qualquer tipo na Igreja são, em essência, uma forma de eclesiopatía, fruto de uma formação distorcida nos seminários e noviciados (embora alguns destes últimos já pareçam estar a corrigir o rumo) que, embora possa parecer estranho hoje, ainda considera o corpo como o inimigo a ser derrotado, o que gera muitos traumas. Tampouco é levada em consideração a formação afetiva, sexual e emocional dos seminaristas. Tudo isto porque se entende que uma vida de oração ajuda a superar qualquer tipo de situação complicada que surja. Pois bem, nem a ordenação, nem a oração por si só podem suprimir essa força da natureza que se chama libido. E, se a espiritualidade for mal canalizada, pode acabar sendo um fator de risco mais que considerável quando essa força da natureza desperta sem controle.

Temos uma sucessão de abusadores cujos nomes, reconhecidos como mestres nas suas especialidades, fizeram com que os seus abusos tenham tido um impacto muito maior. Refiro-me a Marko Rupnik, padre e ex-jesuíta, mestre em mosaicos e espiritualidade; Tony Anatrella, sacerdote diocesano, psiquiatra especializado em sexualidade adolescente e flagelo da homossexualidade e dos homossexuais; e Javier Garrido, franciscano e padre, especialista em acompanhamento e guia espiritual. Evito recordar detalhes específicos dos abusos e dos locais onde ocorreram por respeito às vítimas.

Pouco se pode acrescentar ao que já dissemos sobre os abusos, as vítimas e os vitimadores, a não ser insistir na selecção dos candidatos, na formação psico-afectivo-sexual e na Inteligência Emocional, e no posterior acompanhamento – durante a vida – porque todos, e mais ainda, quem se dedica ao acompanhamento precisa de ser acompanhado para objetivar a sua própria vida.

Encontramo-nos mais uma vez perante um caso, o de Javier Garrido, em que o desrespeito das vítimas por parte da Ordem – embora agora peçam perdão e se mostrem arrependidos pelo comportamento que tiveram – marcou a trajectória, juntamente com a negação das provas, e o olhar para o outro lado – por parte de alguns superiores – para “fazer parecer” que não sabiam de nada, ou que não era assim tão grave. Nada de novo sob o sol.

Contudo, este caso em concreto, abre-nos os olhos para três questões diferentes entre si, mas que nos devem fazer reflectir e, sobretudo, face a outros possíveis casos futuros que, infelizmente, chegarão.

A primeira questão em que deveríamos pensar são as vítimas “colaterais”. Aquelas que, sem o serem de forma física, se sentem agora atraiçoadas na confiança que depositaram no vitimador – ao confiar-lhe o acompanhamento espiritual das suas vidas – e questionam se os seus conselhos continham algo mais que não se chegou a concretizar da mesma forma que as vítimas que denunciaram e cuja coragem permitiu – apesar de todos os obstáculos e vazios legais – ter uma sentença que reconhece o que aconteceu e priva o vitimador de continuar a causar tantos danos como fez.

A segunda questão é perguntar se toda a reflexão espiritual do vitimador – neste caso reconhecida pela sua profundidade – se pode considerar desvinculada da sua actuação com as vítimas quando, precisamente por causa desta, chegou a essas pessoas que submeteu e das quais abusou psicológica, espiritual e fisicamente. A sentença que o condena por “falso misticismo e solicitação de confissão” implica “o afastamento de todo o exercício ministerial e pastoral, a proibição de publicar livros e artigos ou de exercer a direção ou aconselhamento espiritual”.

Também os grupos que trabalharam para personalizar a fé com base nas propostas deste vitimador, estão agora sob o efeito causado ao saber-se da verdade do que aconteceu. Haverá quem decida continuar com esse método porque os ajudou e porque se sentiram bem. A única coisa que se poderia dizer às pessoas que formam estes grupos é que, se alguém se juntar pela primeira vez ou outros grupos forem criados ou coordenados com base nesse método, é um dever moral alertar a esses novos que chegam sobre o que essa pessoa fez. Por respeito a eles e às vítimas.

Não podemos ignorar o facto de que nunca saberemos se o vitimador, no seu delírio de poder e superioridade, chegou a manipular a Deus para assegurar-se um espaço e forma de domínio. Nos abusos de consciência, os vitimadores invadem esse espaço íntimo onde ocorre a relação da pessoa com Deus – a consciência – e ocupam o lugar de Deus. Eles não têm problemas nem se impedem a si próprios de alcançar os seus objetivos doentios.

A terceira e última questão, por agora, é a da responsabilidade moral daqueles que, sendo responsáveis pela Ordem no momento dos acontecimentos e depois – após a denúncia das vítimas – preferiram continuar com a sua vida e os seus deveres pastorais como se nada tivesse acontecido, ou como se não fosse com eles. Alguns inclusivamente até aceitaram, não há muito tempo, um certo cargo que pressupõe uma grande ascensão nas suas carreiras.

É evidente que se impõe uma reforma da lei porque existem lacunas de tamanho considerável. Tem de se insistir naquilo que implica a realidade dos abusos, seja de crianças ou de adultos, para tomarmos consciência do que as vítimas chegam a passar e, também, para sermos mais credíveis como Igreja.

Por último, recordar que este vitimador, Javier Garrido, tem agora 82 anos, mas não os tinha quando cometeu os abusos de poder, de consciência e sexuais, pelos quais foi agora julgado e condenado. Por isso, e tendo em conta casos precedentes – mais McCarrick do que Rupnik, embora também vale para este –, resta apenas perguntar: para quando a sua saída da Ordem e a sua expulsão do ministério sacerdotal?

Isso não implica que a Ordem não se faça responsável pelo seu cuidado psicológico e espiritual, uma vez que, quando cometeu os delitos pelos quais foi condenado, era membro dela, sendo responsável por isso.

Em todo o caso, teremos de começar a pensar em processos de perdão e de reconciliação porque nos fazem muita falta. Mas estes processos não podem fazer-nos esquecer a dor das vítimas e a necessidade de uma justiça restaurativa.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo da Igreja Católica. Este texto foi inicialmente publicado na revista Vida Nueva. Tradução de Júlio Martin.

 

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