“i” de impossível, de indiferença, de inquietação, de irmão, de Igreja, de impacto. O “i” que nos abre a tantas palavras importantes é também a letra que melhor resume o legado de um homem que, mais do que ocupar o trono de Pedro, desceu ao chão do mundo para escutar, tocar e incomodar. O Papa Francisco não foi apenas um pontífice — foi uma interrupção no curso previsível de uma Igreja muitas vezes adormecida, e depois da sua partida, é impossível voltar atrás.
Desde que foi eleito em 2013, Bergoglio fez questão de trocar o palácio pelo quarto simples, o protocolo pelo gesto, a distância pelo abraço. Escolheu chamar-se Francisco — não por acaso — terá sido para lembrar que a Igreja deve ser pobre, simples e fraterna. O seu pontificado foi marcado por um estilo direto, desarmante, feito de palavras que cortam a fundo e silêncios que gritam.
O Papa Francisco tornou-se incómodo porque fez perguntas que preferíamos não ter ouvido. Uma delas, vinda do mais antigo dos textos, ecoa com força renovada no seu modo de estar no mundo: “Por acaso sou eu o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). A pergunta de Caim, feita após matar o seu irmão Abel, é hoje a pergunta que o Papa repete, em ações e discursos. E a resposta mais frequente, ainda hoje, é um desviar de olhos, um encolher de ombros, um murmurante “e eu com isso?”. É a indiferença — a resposta que olha para ninguém.
Francisco alertou-nos para esta doença espiritual do século XXI: a globalização da indiferença. Diante dos refugiados afogados no Mediterrâneo, dos pobres invisíveis, das florestas queimadas, dos idosos abandonados, dos jovens sem futuro, o mundo responde com silêncio. Mas ele não. Ele respondeu com a sua presença, com lágrimas, com denúncia. Disse-nos que a fé sem compromisso é uma ilusão. Que não basta rezar — é preciso agir.
Depois da sua partida, quando a sua voz já não ecoar em praças cheias de gente, quando os microfones se desligarem, algo permanecerá: a impossibilidade de voltar atrás porque ele abriu um caminho que, uma vez visto, já não pode ser ignorado. Ele fez-nos ver o outro, e depois de ver, não há como “desver”. A sua passagem pela Igreja e pelo mundo foi como uma ferida no véu da indiferença — uma ferida necessária, que nos impede de continuar a viver anestesiados.
“I” de inversão, porque ele inverteu prioridades. Pôs os pobres no centro, falou dos descartados, escutou os que ninguém escutava. “I” de inspiração, porque em cada gesto deixou um sinal de autenticidade, humildade e firmeza. “I” de irreversível, porque o espírito que despertou em tantos corações não pode ser adormecido de novo.
E assim, a pergunta que se impõe a cada um de nós é esta: “Sou eu o guarda do meu irmão?”. Francisco não nos deu respostas fáceis. Mas mostrou, com a sua vida, que a única resposta aceitável é: “Sim, sou”. E não posso fingir que não vi.
O futuro da Igreja e da humanidade será traçado por esta resposta. A era de Francisco não foi uma pausa — foi um início… e que ninguém diga que, depois dele, nada mudou.
Nota: Depois de leres o texto na totalidade, experimenta ler apenas as palavras a negrito. Permite-te demorar em cada uma delas, deixando-as ecoar no teu pensamento, no teu coração e, por consequência, na tua atitude e ações.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










