
“Un Long Chemin Vers la Paix”, de Tal Barda, é uma das propostas sobre a questão palestiniana, no festival de Melgaço. Foto: Direitos reservados
Melgaço mergulha na atualidade, a partir desta segunda-feira, com um festival de cinema documentalista que trará para destaque e debate o conflito da Palestina, a luta pelos direitos humanos e o fenómeno das migrações.
A 10.ª edição do MDOC — Festival Internacional de Documentário de Melgaço, assim se chama, inicia-se nesta vila de fronteira neste dia 29 e prolonga-se até domingo, dia 4. De acordo com um comunicado da organização, vão estar a concurso 21 longas-metragens e outras dez curtas e médias metragens, de cinematografias tão diferentes (sublinha a nota) como Portugal (com nove documentários) e também Indonésia, França, Rússia, Alemanha, Áustria, EUA, Itália, Canadá, Países Baixos (num total de 22 filmes internacionais), candidatas aos prémios Jean-Loup Passek e D. Quixote.
Para a organização, esta “será uma edição que irá certamente marcar os próximos anos do festival que desafia o público a refletir não só sobre as questões da identidade, memória e fronteira, mas também sobre causas e temas atuais que, de uma forma, ou de outra, impactam o mundo em que vivemos moldado pelas crises e conflitos em constante transformação”.
Nos três temas definidos pela organização como centrais, o MDOC destaca “três leituras diferentes” sobre a questão palestiniana: “Un Long Chemin Vers la Paix”, de Tal Barda, “um manifesto de tolerância de um médico palestiniano que viu as suas três filhas mortas por um tanque israelita; “Voyage à Gaza”, de Piero Usberti, a perspetiva de um “viajante estrangeiro” que chega a Gaza na primavera de 2018 e é confrontado com três histórias pessoais; e “No Other Land“, do coletivo Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham, Rachel Szor, com filmagens de destruição pela ocupação israelita das aldeias de Masafer Yatta, no sul da Cisjordânia, enquanto se alicerça uma aliança improvável entre um ativista palestiniano e um jornalista israelita.
Sobre “os direitos humanos (ou a sua ausência)”, Melgaço poderá ver “Of Caravan and the dogs”, no qual Askold Kurov aborda a asfixia do discurso e do pensamento independentes na Rússia de Putin e, em “Democracy Noir”, de Connie Field, uma jornalista, uma política e uma ativista decidem denunciar a natureza autocrática e populista do regime de Viktor Orbán, presidente húngaro que, atualmente, assume a presidência rotativa da União Europeia.
A falta de direitos e a situação da mulher está igualmente presente em filmes como “My Stolen Planet”, da realizadora iraniana Farahnaz Sharif, forçada a imigrar, ou Maydegol, de Sarvnaz Alambeigi, testemunho que tem como foco uma adolescente afegã imigrada no Irão e a luta pelos seus direitos contra a discriminação e a violência. Em “The Takeover”, filmado quando os talibãs retomaram o poder no Afeganistão, Anders Hammer retrata a rápida transformação do país e das mulheres que se recusam a perder os seus direitos. Há ainda espaço para questões pós-coloniais, abordadas em filmes como “The Battle for Laikipia”, ou “Fogo no lodo”, sobre as memórias da guerra colonial.
Por fim, as migrações são abordadas em “As Melusinas à margem do rio”, de Melanie Pereira, filme em que cinco mulheres nascidas no Luxemburgo de famílias imigrantes, refletem sobre a sua identidade; em “Les Chenilles”, Michelle Keserwany e Noel Keserwany mostram-nos através da história de duas jovens imigrantes em França (provenientes da Síria e do Líbano), os efeitos dos acontecimentos históricos nas suas vidas; e numa tragicomédia repleta de ironia, Clara Trischler, em “Night of the coyotes”, documenta como os habitantes de uma aldeia mexicana — que ficou praticamente deserta devido à imigração dos seus habitantes para os Estados Unidos — inventaram um jogo em que oferecem aos turistas a oportunidade de experimentarem a migração ilegal através da fronteira americana, isto para evitar que a aldeia desapareça.
Há também filmes sobre questões ambientais, numa mostra que apresenta ainda um vasto conteúdo programático, com uma Oficina de Documentário, residências de cinema e fotografia, masterclass, análise de um filme documentário de referência, estreia de seis exposições, um curso de verão e ainda o habitual CINEférias e o Salto a Melgaço. Uma semana cheia de atualidade no alto Minho.










