
O bispo Américo Aguiar em entrevista ao 7MARGENS, em Junho, na sede da JMJ: a nova missão será agora em Setúbal. Foto © Clara Raimundo
O novo bispo de Setúbal, que neste sábado será formalmente investido no Vaticano como cardeal, considerou nesta sexta-feira que a Igreja Católica em Portugal “tem de fazer um esforço diário” para “continuar a ser exemplar” na questão dos abusos sexuais.
Américo Aguiar, até agora bispo auxiliar de Lisboa que desempenhou as funções de presidente da Fundação Jornada Mundial da Juventude, falava nesta sexta de manhã a alguns jornalistas portugueses acerca das expectativas para a nova função. Aguiar tomará posse do cargo em Setúbal no dia 26 de Outubro.
Considerando que as vítimas são hoje a “prioridade” e que esse é o “lugar certo” para elas, o novo bispo de Setúbal acrescentou: “Todos estamos convencidos de que a dor não prescreve, que estas pessoas são heróis, porque tiveram a coragem de abrir o coração, de partilhar momentos negros da sua vida e nós só podemos abraçar, acolher, abraçar e acompanhar, sem nos dispensarmos de nada que esteja ao nosso alcance e dependa de nós para ajudar no caminho que é necessário fazer.”
Américo Aguiar acrescentou que, comparando “o sentir da Igreja portuguesa na sociedade portuguesa em 2019 e hoje”, a situação é “totalmente diferente – e é diferente para melhor, naquilo que é o entendimento do grave problema e naquilo que são os procedimentos que cada um tomou”.
O relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, no passado recente, a melhoria da constituição e procedimentos das comissões diocesanas de Proteção de Menores e a constituição do Grupo Vita, para acompanhamento das situações de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis são passos que Américo Aguiar considera importantes neste processo.
No caso da Comissão Independente, o relatório apresentado em Fevereiro validou 512 dos 564 testemunhos recebidos, calculando aquele organismo que tenha havido pelo menos 4.815 vítimas de abusos, entre 1950-2022. O Grupo Vita, apresentado em Abril, sucedeu à CI e identificou já 57 queixas ou pedidos de ajuda.
“Agora cada uma das dioceses tem de fazer o melhor, cada vez melhor” para que a Igreja seja exemplar “no tratamento e no acolhimento dos casos”. E “este sentimento” deve ser agora assumido “transversalmente, na sociedade portuguesa”, considerou ainda o bispo Américo Aguiar. Já há muita coisa a fazer-se “na educação, nas empresas, em todas as áreas”, mas a percepção da opinião pública ainda não é essa.
As realidades “muito díspares” de Setúbal

Sé de Setúbal: o novo bispo quer “ir ao terreno”. Foto © Diocese de Setúbal.
Quanto à diocese onde passará a trabalhar, o novo bispo de Setúbal está preocupado as realidades sociais “muito díspares” da região, apontando situações concretas como a “habitação” ou a “falta dela” e os “problemas laborais”.
Afirmando que deseja “profundamente ir ao terreno, estar com as pessoas”, o novo cardeal português – um dos quatro que podem votar num eventual conclave – manifestou a sua preocupação com situações como a da Autoeuropa. O bispo já tinha, enquanto cidadão e português, “algum carinho e alguma curiosidade pelo projeto” da fábrica, mas as últimas notícias – a empresa teve de parar a produção por causa da falta de uma peça – mexeram-lhe com “as entranhas”.
A “diversidade de origens das pessoas que vivem neste território” e as “actividades económicas e industriais” da região de Setúbal são importantes “para o país e para as pessoas que lá vivem”, acrescentou, dizendo que terá “muitas frentes” na nova diocese. Por isso, pretende nesta primeira fase “ir ao encontro das pessoas e tentar conhecer” as diversas realidades”, incluindo a Comporta e outras “muito díspares”. Setúbal “tem tudo”, resumiu.
Enquanto cardeal, Américo Aguiar não se vê, por enquanto, a participar em breve num futuro conclave – em que pode eleger o Papa e, em teoria, ser eleito: “Para já estamos muito bem servidos”, afirmou, referindo-se ao Papa Francisco”, que tem 86 anos. O novo conselheiro do Papa imagina que essa será “uma experiência única na vida”, já que até agora a sua única “experiência de conclaves” foi “do lado de cá”, numa referência às eleições de Bento XVI (2005) e Francisco (2013).
No seu novo cargo, Aguiar espera tomar parte “naquilo que são os problemas, as dificuldades, os projectos, os caminhos, as reflexões, a oração” da Igreja e do Colégio Cardinalício.
Mesmo não se falando neste momento de abandono do Papa, sabe-se que Francisco já escreveu há anos uma carta de demissão, se vier a ter problemas de saúde que o impeçam de exercer as suas funções. E o próprio chegou a afirmar várias vezes que o seu seria um pontificado “curto”. No entanto, o facto de Ratzinger/Bento XVI ter vivido até final de 2022 terá feito adiar uma eventual renúncia de Francisco. Agora prestes a começar aquele que é um dos principais projectos do pontificado, tem-se especulado que o Papa quererá pelo menos terminar o Sínodo sobre a sinodalidade (em Outubro de 2024).









