
“Mãos criminosas daqueles que não se importam de destruir e de matar por dinheiro, por “vício”, por perturbação mental, por ausência total de culpa e de remorso, para servir interesses perversos e marginais.” Foto © Matt Howard / Unsplash
Há alguns dias fomos levados a refletir sobre florestas, mãos criminosas e heróis. Mãos criminosas daqueles que não se importam de destruir e de matar por dinheiro, por “vício”, por perturbação mental, por ausência total de culpa e de remorso, para servir interesses perversos e marginais. Heróis, os que doam horas, dias, semanas, meses das suas vidas para combater chamas; para impedir que muitos fiquem sem os seus pertences, o que nem sempre conseguem; para tentar salvar pessoas, animais, casas, florestas, ambiente, paisagens… Deixam as famílias, abdicam do seu tempo livre e de descanso e partem, mesmo sem saber se voltam, mas com a esperança no coração, certamente baseada na crença de que podem fazer a diferença.
Há 6 anos publiquei um artigo noutro jornal, a que chamei A Mostrar as Chamas não se Apagam Fogos e, nesse, a certo ponto do texto, referi – «(…) existe uma perturbação que, etimologicamente, tem origem grega e que, em síntese, define alguém que perde o controlo ou, como se diria em linguagem comum, enlouquece, perante o uso e abuso do fogo. Se é verdade que toda a pessoa com um superego bem estruturado e, felizmente, são a maioria dos seres humanos, consegue (…) evitar fazer o que é errado e procurar atuar no sentido do que é certo, também não é menos verdade que há aqueles que sofrem de distúrbios que se concretizam em graves dificuldades de dominar os seus impulsos. Estamos a falar (…) dos, assim chamados, pirómanos, que chegam a experimentar prazer, bastante prazer não apenas em produzir incêndios, mas também em observá-los, como se estes momentos representassem, para si, um estímulo desinibidor e potenciador dessa sua dificuldade de controlo. (…) Considero (…) que, tendo os media um papel tão importante na ajuda, na divulgação de informação útil, na passagem de notas relevantes sobre os acontecimentos, deveriam acautelar a sistemática passagem de imagens de fogo, cada qual mais estimulante para quem (…), perante elas, menos se conseguirá controlar.»
Voltando ao tempo atual – Infelizmente e sem palavras para exprimir o pesar, morreram três bombeiros nestes últimos fogos em Portugal. Os nossos dirigentes homenagearam-nos, e muito bem, com a sua presença. Isso, para além de merecido, foi absolutamente aconchegante. Muitos repórteres e reportagens cobriram essas participações nas cerimónias fúnebres.
Eu sei que não vejo muita televisão, não oiço muitas notícias e, por vezes, só tenho tempo disponível para ler os destaques da imprensa. No entanto, julgo que não me engano se disser que, em múltiplos lugares da comunicação social, falaram dos três bombeiros que morreram, mas não ouvi em nenhum desses sítios o nome de qualquer um deles.
Quando morre uma personagem da história, alguém que se destaca umas vezes pela sua valentia, outras pela sua escrita, pelo seu lugar na política, na ciência, nas artes, na saúde, às vezes até no crime… sempre se diz o nome de quem foi embora, mas estes três heróis, apesar de tão homenageados, saíram daqui anónimos, pelo menos no que se refere à cobertura mediática.
Sinto-me obrigada a pedir desculpa a algum lugar que mencionou os seus nomes. Eu não li, nem ouvi e, por isso, lamento. Lamento profundamente. Parece que somos números e nos resumimos a uma quantificação que apenas impressiona. Não. Não considero que possa ser assim. Eu sei que nada nem qualquer circunstância devolve a vida a quem quer que seja. No entanto a dignidade deste partir precoce, se assim pode dizer-se, ficaria mais completa se se conhecesse a identidade destes que nos deixaram. A dor dos que lhes eram próximos talvez pudesse também ser um pouco mais atenuada porque partilhada de uma forma justa, apenas e só porque se sabiam os seus nomes.

“É certo que os valentes e ilustres desconhecidos, até lhes acontecer algo relevante, normalmente grave, são ignorados, como qualquer um de nós e não é possível pedir mais.” Foto © Facebook do grupo “Bombeiros de Portugal”
Nunca falei com quem quer que seja que tenha perdido um ente querido nestas circunstâncias; nunca auscultei esse sentir real. No entanto, todos sabemos que o anonimato tem limites, pois, levado ao extremo, é injusto e revela displicência face a quem, nele, fica escondido.
A minha forma de perceber a vida humana é entendê-la apenas como uma etapa da nossa existência. Na verdade, a única que conhecemos. Talvez por isto, ainda que nem sempre de uma forma consciente, conseguimos arriscar-nos e ter esperança em simultâneo. Ainda assim, há algumas coisas que gostamos que aconteçam por cá e podemos dizer que sim, que são de facto boas práticas.
Os famosos, apesar de todos podermos partir em qualquer tempo do nosso tempo, quando alcançam certo patamar etário, são objeto de atenção especial, não apenas para lhes aproveitar a sabedoria, mas para ter “na manga” o que dizer sobre a sua história e a sua obra.
Sobretudo a comunicação social prepara biografias mais ou menos completas para poder dar a notícia em primeira mão.
É certo que os valentes e ilustres desconhecidos, até lhes acontecer algo relevante, normalmente grave, são ignorados, como qualquer um de nós e não é possível pedir mais. Por isso, ao menos, a sua identidade revelada tornar-se-ia, parece-me a mim, uma singela, mas justa homenagem quando, pelas piores razões, se pode saber quem são.
Tendemos a reduzir tudo a números. Nos cenários de guerra, por exemplo, parece que não morrem pessoas. Morrem massas, morrem molhadas, por mais horrível que soe o que escrevo e não é possível que seja doutra maneira.
Que, no mínimo, quando fica ao nosso alcance contrariar esta tendência, o possamos fazer com determinação, dignificando os obreiros e as obras feitas, ainda que não estejam assinadas, nem sequer nos troncos das árvores que foram salvas do implacável incêndio por estes verdadeiros e enormes heróis.
Para, com toda a humildade, homenagear à minha maneira estes 3 GRANDES, aqui deixo as referências que pesquisei – Paulo Santos. Tinha 38 anos; Susana Carvalho. Tinha 44 anos; Sónia Melo tinha 36 anos. Perderam a vida num carro dos Bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha que foi apanhado pelas chamas. Estavam no combate ao incêndio que lavrava no Concelho de Tábua. Que as suas almas encontrem a merecida paz.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt










