
Foto © Albin Hillert/WCC-CMI.
Os apelos ao fim imediato da invasão e dos bombardeamentos da Ucrânia, que a Rússia iniciou nesta quarta-feira, 24 de Fevereiro, chegaram de muitos dirigentes e organizações, incluindo confissões religiosas. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, fez um apelo dramático ao Presidente russo, Vladimir Putin: “Em nome da humanidade, não permita que se inicie na Europa aquela que poderá ser a pior guerra desde o início do século, com consequências não só devastadoras para a Ucrânia, não só trágicas para a Federação Russa, mas com um impacto que nem sequer podemos prever em relação às consequências para a economia global.” E acrescentou, dizendo que a invasão russa viola a Carta das Nações Unidas e causará um grau de sofrimento que a Europa não conhece desde pelo menos a crise dos Balcãs dos anos 90: “O que é claro para mim é que esta guerra não faz qualquer sentido.”
No Vaticano, o secretário de Estado Pietro Parolin, resume a Ecclesia, pediu o regresso da “negociação” para travar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, renovando os alertas do Papa contra a “loucura e horrores da guerra”.
“Os cenários trágicos, que todos temiam, infelizmente estão a tornar-se realidade. Mas ainda há tempo para a boa vontade, ainda há espaço para negociação, ainda há lugar para o exercício de uma sabedoria que impeça a prevalência de interesses particulares, proteja as aspirações legítimas de todos e salve o mundo da loucura e dos horrores da guerra”, afirmou, numa declaração oficial.
Condenações da invasão e apelos ao fim imediato das hostilidades foram feitos também pela Aliança Evangélica Mundial (WEA, da sigla inglesa) e Aliança Evangélica Europeia (EEA). O secretário-geral da WEA, bispo Thomas Schirrmacher manifestou a sua grave preocupação por um conflito que levará à “trágica perda de vidas humanas, incluindo civis inocentes cujo único desejo é viver em paz”.
O mesmo responsável acrescentou, de acordo com uma informação publicada na página oficial da WEA: “Apelamos também à comunidade cristã global para que reze pela paz na Ucrânia. A Europa testemunhou os horrores da guerra no passado e aprendeu que o conflito armado e a ocupação militar apenas trazem sofrimento e devastação.” E o secretário-geral da EEA, Thomas Bucher, afirmou que não vê “qualquer justificação para estas acções”, manifestando a sua angústia pela “morte, a destruição, o caos e a miséria que daí resultarão“.
De novo no âmbito católico, a Ecclesia cita o presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), Gintaras Grušas, arcebispo de Vilnius (Lituânia), que afirmou a determinação de as Igrejas agirem conjuntamente e com determinação para acabar com a agressão.
A partir de Florença, onde decorre o encontro Mediterrâneo, Fronteira de Paz, o arcebispo Grušas afirmou que a comunidade internacional e a União Europeia em particular devem fazer todo o possível para “que as armas dêem lugar ao diálogo e negociações, e que o direito internacional e a independência e soberania da Ucrânia sejam defendidas”.
Na Ucrânia, o Conselho das Igrejas Ucranianas também pediu a Putin o fim das hostilidades. Hryhorii Komendant, presidente do Conselho Ucraniano de Igrejas e Organizações Religiosas e também líder da Sociedade Bíblica Ucraniana enviou uma carta ao chefe de Estado russo: “Testemunhamos com autoridade e unanimidade que o povo ucraniano não procura a guerra, e consideramos um dever comum dos crentes pará-la antes que seja tarde demais.”
O Conselho referido representa 16 associações de várias denominações e religiões, que unem mais de 95% das comunidades religiosas. “A guerra agressiva é um grande crime contra o Deus Todo-Poderoso. Em nome da preservação das vidas das tropas ucranianas e russas, ucranianos civis, os verdadeiros crentes devem fazer tudo para impedir o derramamento de sangue”, escreveu Komendant, pedindo ao Presidente russo que pare o “fogo crescente da guerra”, uma decisão que “está em seu poder”.
Numa curta declaração, o reverendo Ioan Sauca, secretário-geral em exercício do Conselho Mundial de Igrejas – do qual faz parte a Igreja Ortodoxa Russa, que tem apoiado muitos dos argumentos de Putin – denunciou “qualquer uso da força armada para resolver conflitos que possam ser resolvidos através do diálogo”, exortando igualmente as igrejas e os crentes a juntarem-se em oração pela paz pelo povo da Ucrânia e da região.
Solidariedade e oração em Portugal – e para que serve rezar?

Encontro de Taizé em Lviv, Ucrânia, em Abril de 2018: a comunidade convida quem quiser a rezar em silêncio pela paz nesta sexta-feira, às 19h. Foto © Taizé.
Em Portugal, o Presidente da República e o Governo também coincidiram na condenação da agressão russa.
A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou também um comunicado “pela paz na Ucrânia”. No texto, enviado ao 7MARGENS, lembram-se as afirmações do Papa na quarta-feira e a iniciativa do dia de jejum, à qual se garante a adesão.
Manifestando “solidariedade para com a população da Ucrânia e, em particular, para com a numerosa comunidade ucraniana em Portugal, desejando que este tempo de angústia, sofrimento e guerra seja rapidamente ultrapassado e se restabeleça a paz e a prática do bem para todos, a CEP apela à “partilha efectiva para com a Igreja na Ucrânia, nomeadamente através da Cáritas e outras instituições”.
Muitos ucranianos a residir em Portugal manifestaram-se diante da embaixada russa em Lisboa e do consulado russo no Porto, tendo rezado colectivamente em vários momentos. As comunidades cristãs também se associaram à condenação da guerra e às iniciativas de oração pela paz. O padre Ivan Petliak, em serviço pastoral na Diocese de Setúbal, referiu à Ecclesia que as pessoas se mobilizaram para “rezar nas casas, todos começaram a rezar, com as suas famílias”. O mesmo acontece com padres e crentes em dioceses como Évora e Lisboa.
Os bispos do Porto e Braga pediram orações, em Fátima prosseguiu a corrente de oração pela paz convocada pelo cardeal António Marto e o Santuário de Fátima anunciou que o terço diário continuará a ser rezado com a mesma intenção, prometendo ao mesmo tempo a entrega de uma verba à Cáritas para apoio à população ucraniana.
Também em Fátima, mas na paróquia, está a ser organizada uma procissão das velas para o próximo domingo, 27, com início às 18h00 junto da igreja paroquial.
Na comunidade de Taizé, os irmãos rezarão em silêncio pela paz, esta sexta-feira, às 19h de Lisboa, podendo quem quiser associar-se à transmissão em directo.
E para que serve rezar numa tal situação? Numa entrevista na revista America, dos jesuítas, o padre James Martin afirma que, não podendo os cidadãos e os crentes influenciar o Presidente russo, “as orações são tudo o que resta”. E pergunta: “Mas o que é que elas conseguem? O que é suposto eu dizer ou sentir quando rezo pela Ucrânia? Trata-se de convencer Deus a intervir ou simplesmente suavizar o meu próprio coração para poder sofrer com os meus irmãos e irmãs ucranianos?”










