Rankings, missão de escolas católicas, felicidade dos alunos. A directora do colégio da Apresentação de Maria, do Funchal, diz que as escolas católicas têm de regressar à sua essência. Durante toda esta semana, congregação assinala os 100 anos da sua chegada a Portugal – o primeiro local de implantação da congregação foi a Madeira. Um congresso internacional sob o tema “Educação, Solidariedade e Evangelização” junta dezenas de conferencistas e investigadores, além de várias centenas de participantes.
“As escolas católicas devem reflectir e ir às suas origens e à essência do que eram, adequando à realidade que vivemos.” No centenário da chegada a Portugal da congregação das irmãs da Apresentação de Maria em Portugal, que se dedica à evangelização, à catequese e à solidariedade, a irmã Conceição Malho não tem dúvidas: “Não trabalhamos para os rankings, que valem o que valem e muitas vezes comparam o incomparável.”
Directora do Externato da Apresentação de Maria, do Funchal (pré-escolar e três ciclos do ensino básico, 670 alunos, 90 funcionários), Conceição Malho sublinha que a escola que dirige é, mesmo assim, uma escola com equilíbrio entre as avaliações externa e interna. Mas diz que as escolas católicas “têm de ser abertas aos que podem e aos que não podem pagar”. O filho do jardineiro ou do agricultor tem de ter o mesmo direito do filho do ministro, afirma. “Obviamente, temos de ter capacidade de gestão”, porque há salários para pagar, mas se as escolas católicas não forem capazes de fazer esse equilíbrio e dar lugar a todos, se se converterem em “empresas, não estamos a ser fiéis à essência”.
Muitas das congregações católicas que têm colégios nasceram precisamente para dar educação e alfabetizar as crianças mais pobres, que não tinham acesso à escolarização. “Se olharmos para o Evangelho, é também para os mais pobres que se volta a atenção. Não só as vítimas de pobreza material, mas também os que precisam de atenção, carinho, tempo para serem escutadas”, acrescenta.
A educação para a solidariedade faz-se através de iniciativas concretas no colégio: um grupo de voluntários do 3º ciclo visita lares de idosos, há campanhas de angariação de fundos para causas sociais, os finalistas do 9º ano fazem uma récita para recolher verbas para obras da congregação – este ano o destino é Moçambique. Trata-se de “estarmos atentos às necessidades de outros”, diz a irmã Conceição ao 7MARGENS. Os miúdos aderem e “são sensíveis” às propostas e muitos pais também, têm um “espírito solidário”. O fundamental da escola católica, acrescenta, é “que os alunos se sintam bem, sejam felizes e façam outros felizes”.
“Repensar” a competição

Aprender sem dar prioridade à competição, querem as irmãs da Apresentação de Maria. Foto: Direitos reservados.
Algumas das questões que estes problemas e objectivos colocam hoje são a excessiva competitividade e a permanente ocupação a que muitas crianças são sujeitas logo na escola. “Há uma tendência para ocupar todo o tempo livre dos filhos” em nome da competição, de serem os melhores, “é preciso repensar” tudo isso, afirma a directora do Externato funchalense, para quem são importantes um sistema de ensino que valorize a arte e a vertente da escola inclusiva (no colégio, há um gabinete técnico com três psicólogos e docentes do ensino especial).
Por tudo isso, Conceição Malho insiste: “Não trabalhamos para o ranking.” E explica: “O carisma que tentamos passar é que os alunos cresçam a ser atentos aos outros, a ser solidários, a ser capazes de ajudar os colegas com problemas de saúde ou com dificuldades de aprendizagem – quando são eles a explicar até aprendem melhor e ajudam professor.”
Além do colégio, há outros três escolas dirigidas pela congregação: o Centro Infantil Maria Eugénia de Canavial (341 crianças, 65 funcionários) tem creche, pré-escolar e 1º ciclo; o Externato São Francisco de Sales, na Gaula, Santa Cruz (196 alunos, 38 professores e auxiliares) tem pré-escolar e 1º ciclo); o Externato São Francisco de Sales (Prazeres, Calheta) vai da creche ao 1º ciclo, e tem 141 crianças e 30 funcionários; e o jardim de infância Apresentação de Maria (Calheta) é frequentado por 57 crianças na creche e pré-escolar e tem 14 funcionários. No total, 1405 alunos e 237 trabalhadores. Entre as crianças, há católicos, não baptizados e alunos de outras confissões religiosas.
“Conseguimos receber alunos de vários estratos sociais”, diz Conceição Malho, que é também a responsável da associação dos centros educativos da congregação, destinada a tratar da gestão e contabilidade. A mensalidade no colégio são 160 euros, muito menos do que os preços de colégios católicos ou privados. Mas há uma explicação: na Madeira não acabaram os contratos de associação e isso permite uma resposta mais cabal. O facto de, no externato funchalense, haver todos os ciclos até ao fim do ensino básico também é positivo: “Temos mais possibilidade de acompanhar o ritmo de cada aluno” e as famílias valorizam isso como um dado importante. Mesmo se, para algumas, o valor a pagar significa “um esforço grande” por parte dos pais.
Numa altura de celebração, quando as irmãs são menos do que eram, o “desafio maior é preparar leigos com os quais já há um caminho feito e passar a chama” do carisma da congregação. “Queremos continuar a história a partir do que Deus nos inspirar” e esse é um dos debates que também tem atravessado o congresso esta semana.
As voltas que a guerra obrigou a dar

Leontina de Ornelas e Vasconcelos/Madre Maria da Santíssima Trindade, que trouxe para Portugal a congregação das irmãs da Apresentação de Maria, em 1925. Foto: Direitos reservados, captada pelos Estúdios Vicentes, do Funchal.
Foi por causa de uma madeirense que a congregação, nascida em França, se instalou pela primeira vez em território português. Leontina de Ornelas e Vasconcelos, nascida em 1893, ia para a Alemanha com a mãe e a irmã, Maria da Graça, quando rebentou a Grande Guerra de 1914. Desviaram então para Lausanne (Suíça), e aí tomaram contacto com a espiritualidade e o carisma da fundadora das irmãs da Apresentação de Maria, Maria Rivier. Em 1921, a jovem Leontina professa em Bourg-Saint-Andéol (uns 50 quilómetros a norte de Avinhão, França). Ainda noviça, propusera à superiora geral, madre Sainte Honorine, trazer a congregação para Portugal. Esta respondera que só quando houvesse 20 portuguesas dispostas a professar.
Maria da Santíssima Trindade, o nome que Leontina adoptou na congregação, não desiste e, de volta à Madeira, fala da congregação a múltiplas pessoas. Em pouco tempo, dezenas de mulheres rumam para o noviciado em França. Em 1921, quando professa, o número de 20 já tinha sido ultrapassado e, em 1925, eram já 33 portuguesas. Nesse mesmo ano, com três delas, Leontina chega ao Funchal, enviada pela superiora geral, para fundar a “Protecção às crianças fracas”, obra que ela propusera para servir os mais pobres da cidade – e onde hoje está o Centro Infantil Maria Eugénia de Canavial.
Enquanto viajava para Portugal, a irmã Trindade/Leontina sofre uma tuberculose grave, mas acaba por recuperar, no que as suas companheiras vêem um sinal do céu. Depois de fundar várias comunidades na ilha, as irmãs chegam ao continente em 1938, criando escolas, colégios e uma casa de oração em Setúbal, Lisboa e Fátima.
Três anos depois, é fundado o noviciado português, a madre Trindade fica como responsável e, no mesmo ano, as primeiras missionárias seguem para Moçambique. E 1947, a província portuguesa fica autónoma de França e de novo é a irmã Leontina/Trindade que fica como primeira provincial. Depois de abandonar o cargo de superiora em 1961, morre, já em democracia, aos 81 anos, em 16 de Julho de 1974.
Anne-Marie Rivier, nascida a 19 de Dezembro de 1768, em Montpezat (perto de Nimes e a uns 50 quilómetros a leste de Avinhão). Aos 16 anos sofreu um acidente que a deixou imobilizada. Durante os cinco anos seguintes, levada pela mãe, dirigiu-se a uma pequena capela próxima, onde rezava durante horas diante de uma Pietà. Em 8 de Setembro de 1774, descobriu que voltara a ser capaz de andar. Onze anos depois, já movida pelo desejo de ser religiosa, tentou entrar na congregação das Irmãs de Notre Dame, mas a saúde frágil impediu-a. Regressa à cidade natal, onde ela própria, em 1786, funda uma escola para as crianças pobres e órfãs.
Três anos depois, a Revolução Francesa troca-lhe as voltas: as congregações religiosas são extintas e, em 1794 a escola é confiscada. Com mais cinco companheiras, Maria Rivier refugia-se em Thueyts, mais a Norte, a meio caminho de Lyon.
Educação, solidariedade, evangelização

“Educação, solidariedade e evangelização” é o mote da congregação. Foto: Direitos reservados.
Ali, num sótão arranjado por um padre amigo, recria uma escola e ensina a Bíblia. As cinco companheiras fazem juntas a sua profissão religiosa no mesmo sótão, em 21 de Novembro de 1797. Quatro anos depois, uma nova Concordata volta a dar liberdade religiosa e a congregação conhece uma fase de expansão. Rivier morreria em 1838, pouco depois de o Papa Gregório XVI ter promulgado um decreto de louvor da congregação, mas antes do seu reconhecimento pleno, que só chegaria com Pio X, em 1909. Beatificada pelo Papa João Paulo II em 1982, tem neste momento a correr o processo para a sua canonização. Actualmente, são mais de mil religiosas em mais de centena e meia de casas em 20 países de quatro continentes (só não estão na Oceânia).
“A educação, a solidariedade e a evangelização” são os focos da acção destas religiosas que em Portugal têm casas também em Palmela (casa provincial e noviciado), Fátima (casa de oração e acolhimento), Cernache do Bonjardim, Alferrarede e Montijo. Nestes três lugares, colaboram nos centros sociais paroquiais, em creches, jardins de infância, centros de dia e apoio domiciliário para pessoas idosas, na pastoral paroquial, catequese, grupos de oração, animação litúrgica, visitas a doentes ou na pastoral das prisões.
Os 100 anos da chegada a Portugal, completados dia 1 de Março, foram assinalados com a celebração de uma missa. Mas o acto central é o congresso que nesta sexta termina no Funchal. “Em vez de multiplicar celebrações ou iniciativas devocionais, organizámos um congresso mais englobante”, explica a irmã Fernanda Pereira, actual superiora provincial portuguesa.
O congresso inclui a participação de religiosas e leigos de todos os países onde as irmãs estão presentes. Trata-se de ver, explica a irmã Fernanda, como a congregação vive hoje a educação, a solidariedade e a evangelização. Foram da Madeira para o mundo, querem reflectir, na Madeira, a sua presença no mundo.










