Jaime Gonçalves, arcebispo da Beira e militante da paz em Moçambique

| 2 Set 19

Beira, Moçambique – Lugares da tragédia, palcos da história (I)

A poucos dias da visita do Papa Francisco a Moçambique e meio ano depois do ciclone Idai ter destruído a cidade da Beira e a região centro do país, o 7MARGENS recorda episódios e personagens da história recente do catolicismo moçambicano, que tiveram a cidade da Beira por cenário. Neste texto, evoca-se o papel de Jaime Gonçalves, arcebispo da Beira, como mediador do acordo de paz de 1992. 

 

D. Jaime Gonçalves, numa imagem captada pelo autor do texto: o mediador do acordo de paz de 1992 foi o primeiro bispo negro da diocese.

 

A cidade da Beira tem estado no mapa internacional devido à tragédia do ciclone que a assolou em Março.

A cidade onde poisei, pela primeira vez, em Agosto de 1968, na minha aventura de jovem “voluntário missionário” (como se diria hoje) foi centro de atenções em toda a sua história, entretanto ensombrada pela centralização excessiva que a Frelimo fez da capital – Maputo – após a independência.

A Beira era a porta de entrada para todo o território até à subida do aeroporto da então Lourenço Marques ao mesmo estatuto, já nos últimos anos do regime colonial. Todos os voos convergiam para e irradiavam da Beira na DETA, antecessora das LAM.

As dimensões do edifício do aeroporto atestam a envergadura da sua actividade até à independência. Quando agora por ali passo, fico chocado com um enorme espaço quase “às moscas”!

Mas a Beira, como cidade, como entidade sociológica e política, e económica, não se tem deixado amesquinhar. Tal como no tempo colonial em que os colonos da Beira sempre gostaram de se demarcar do governo da capital, então Lourenço Marques, também após a independência a Beira continua a ser aquela entidade rebelde perante o Governo central do Maputo.

O município da Beira foi o primeiro a ser retirado ao controlo da Frelimo, em 1998, logo que houve eleições autárquicas na sequência do Acordo Geral de Paz (AGP), de Roma, de 4 de Outubro de 1992. O ainda presidente do município, Daviz Simango, foi, então, eleito pela Renamo, e reeleito sucessivamente, em todos os pleitos eleitorais havidos até hoje, agora em nome do MDM (Movimento Democrático de Moçambique) que fundou, na sequência das desinteligências com Afonso Dhlakama, em 2013.

Eclesialmente, a Beira teve também as suas marcas de rebeldia. Desta diocese foram expulsos os Padres Brancos em Maio de 1971, pelo Governo colonial, antecipando-se à decisão que estes tinham tomado de saírem do território caso a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) não se demarcasse claramente da sua relação institucional com o Governo colonial de Portugal e se não se pronunciasse contra as torturas, perseguições e massacres perpetrados pelo exército e pela PIDE (polícia política do regime), contra cristãos negros (sobretudo catequistas católicos) e missionários de qualquer modo tidos como apoiantes da autodeterminação da colónia.

Neste contexto, encontramos ali Manuel Vieira Pinto, bispo de Nampula e, pontualmente, bispo-bombeiro para gerir a grave crise decorrente da expulsão dos Padres Brancos e da prisão dos padres da paróquia do Macúti (Janeiro de 1972), como administrador apostólico.

Diz-se que era ele o verdadeiro alvo da prisão destes padres, tendo em conta a carta pastoral que publicara em Agosto de 1971, em comunhão com o Conselho de Presbíteros da diocese, onde se salientava o padre José Augusto de Sousa, jesuíta, surpreendido,  (como conta no livro Memórias de um Jesuíta em Moçambique 1964-2004), pelo convite para vigário-geral da diocese. Era uma carta pastoral que claramente se demarcava da atitude oficial da CEM no que se referia à questão da expulsão dos Padres Brancos, então claramente fracturante para a Igreja Católica em Moçambique, sobretudo no que aos missionários portugueses dizia respeito.

 

Jaime Gonçalves, um protagonista a favor da paz

Capa do livro de D. Jaime sobre o diálogo político e a paz em Moçambique.

É nestes antecedentes históricos – políticos e eclesiais – que se insere o ministério pastoral do primeiro bispo negro da Beira, Jaime Pedro Gonçalves, sem dúvida o mais destacado bispo moçambicano até aos nossos dias.

Na eufórica afirmação nacionalista dos anos da independência nacional, sucedeu ao bispo Vieira Pinto na presidência da CEM ainda antes do termo do único mandato em que fora investido na fase de transição política e durante a qual os bispos moçambicanos eram, ainda, apenas dois: Alexandre dos Santos, de Lourenço Marques/Maputo, e Januário Nhamgumbe, de Porto Amélia/Pemba (ordenados em Março de 1975 num pavilhão desportivo do Maputo).

D. Jaime tornou-se politicamente relevante pelo seu protagonismo em favor da paz, durante a guerra civil de 16 anos. Como persistente implementador dos mais diversos contactos entre nacionais, estrangeiros, religiosos de diferentes confissões cristãs e muçulmanas, arroteando os caminhos que acabariam por colocar a Renamo e o Governo da Frelimo frente a frente até celebrarem o AGP de Roma, em 1992, no dia do ícone católico S. Francisco de Assis.

Deixou-nos um precioso apontamento escrito do seu esforço genuinamente patriótico e sadiamente nacionalista. Atesta-o o próprio léxico utilizado, desde o título do livro (A Paz dos Moçambicanos) até aos dos capítulosII [Os Moçambicanos choram a sua guerra (a feita por eles próprios)]e III (Os Moçambicanos buscam solução de suas lágrimas).

Nesse testemunho, podemos acompanhá-lo na sua mais íntima ansiedade, ponderando ousadias e riscos das iniciativas que iam emergindo no seu coração inquieto pela paz. Riscos de se atrever a propor o diálogo com “os bandidos armados” da Renamo e de procurar ele próprio os contactos directos com o chefe Afonso Dhlakama que lhe poderia valer, diz, até a própria pena de morte.

“Buscar a Renamo e falar-lhe era punido com severíssimas penas (…) que chegava a ser traição. (…) D. Alexandre e eu passámos três dias a discutir se comunicar ou não ao Presidente da República os contactos com a Renamo pois isso nos mereceria cadeia ou mesmo a morte.”

Profundamente emocionante é seguir a narrativa da sua viagem para cometer o “sacrilégio” político de se atrever a ir ao encontro de Dlhakhama na sua, afinal, tão vizinha serra da Gorongosa, mas partindo de Maseru (Lesoto), onde tinha participado num simpósio pastoral. Um telefonema da Alemanha desassossegara-o nesse sentido. O mediador, certamente por razões de segurança, dizia-lhe que iria a Lumumbashi (Congo) onde Dhlakama o esperaria. Porém, o verdadeiro destino seria a Gorongosa, como lhe seria dito já na avioneta.

D. Jaime fica perplexo: “No dia 2 de Junho (de 1988) foi concluído o simpósio. Estive muito aflito. Atormentava-me a consciência de ter de fazer aquela viagem que podia não ter retorno sem me despedir da diocese. Onde está a virtude da prudência do bispo? O que é isso de fazer de noite tão longa viagem numa avioneta e à procura de quê? (…) fui ter com o P. José Sousa. (…) Pedi-lhe que caso eu não voltasse daquela aventura, explicasse à diocese da Beira a razão de ser daquela viagem (…) que eu fizera não por imprudência ou leviandade mas sim para promover a Paz do Povo Moçambicano que muito sofria com uma guerra sem saída.”

 

Aterrar à noite, sem iluminação

A catedral da Beira envolvida pelo rasto de destruição deixado pelo Idai. Foto: Direitos reservados

 

E lá partiu o arcebispo como verdadeiro aventureiro por rotas que nem imaginava. “Pelo meio-dia do dia 3 de Junho estava no aeroporto juntamente com outros bispos da África Ocidental que estranharam a minha presença mas eu não lhes revelei nada”. Depois de uma hora de viagem, um dos quatro ocupantes da avioneta, um jovem português diz-lhe que não irão ao Congo mas à África do Sul, onde não poderão poisar antes do escurecer das 18h, numa pista sem iluminação e com as luzes apagadas. Do mato saíram pessoas com lanternas e bagagens. Ao lado, um outro avião DaKota, carregado de sacos, os esperava. E o jovem diz-lhe: “Bispo, se quiser dormir faça como eu, durmo por cima destes sacos”. E lá se deitou.

“Levantámos voo às escuras e eu perguntava-me o que estava a acontecer”. Voaram rente ao mar que a lua fazia brilhar e, afinal, acabariam por rumar terra adentro e pela meia-noite aterrariam numa pista cheia de capim e iluminada por fachos de capim a arder nas mãos de guerrilheiros. “Ao descer recebi as boas-vindas de Afonso Dhlakama que me levou na sua motorizada até à lareira preparada para o efeito.” “Veja, sr. Bispo, quanto sofrimento passamos cá na mata: fome, nudez, as lojas vazias e destruídas, estas máquinas de guerra e de morte que vê aqui está tudo destruído e não funciona.”

– “Nós também lá nas cidades sofremos fome e sede; não estamos seguros e vivemos de donativos. Como pensa que vai acabar todo este sofrimento do Povo?”

– “Só acabará com o diálogo com a Frelimo. Se a Igreja quiser pode ajudar-nos.”

“A Igreja está disposta a favorecer o diálogo”, responde D. Jaime. E, dali em diante, este andarilho da paz não mais descansa, assumindo-se como inteligente facilitador e “pontífice” (construtor de pontes) entre todos os que, de alguma maneira, possam ajudar a chegar o povo moçambicano à paz tão almejada.

Contactos e mensagens da Renamo para a Frelimo/Governo e vice-versa; mobilização de cristãos das principais Igrejas (católicos e do Conselho Cristão de Moçambique); identificação de pessoas e lugares estrangeiros com peso nesta difícil missão, em tudo este militante da paz se vê envolvido, até que o próprio Vaticano, respondendo às expectativas das duas partes, o nomeia como seu representante na troikade mediadores/negociadores, tarefa que culminará com a assinatura do Acordo Geral de Outubro de 1992.

Porém, como sabemos, a paz nunca assentou arraiais por inteiro e em tranquilidade no território moçambicano.

Quando, em 2013/2014 ressurgem hostilidades militares entre a Renamo e o Governo, D. Jaime foi peremptório: a culpa é da Frelimo. Por duas razões: desde logo, porque desde as primeiras eleições multipartidárias em 1994, se ficou sempre com a convicção de que foram, sistematicamente, fraudulentas; depois, porque o Governo da Frelimo nunca cumpriu o protocolo IV do AGP, o referente aos aspectos militares, segundo o qual devia ser constituído um único exército, integrando elementos da Renamo nas Forças Armadas moçambicanas.

As eleições de 2014 estiveram seriamente ameaçadas mas o então Presidente Armando Guebuza conseguiu como que um novo AGP para pôr termos às hostilidades militares. O acordo, no entanto, nunca foi realmente duradoiro e Afonso Dhlakama acabaria por morrer em Maio de 2017 no seu refúgio nas montanhas da serra da Gorongosa para escapar a alegadas e repetidas tentativas de assassinato. A partir dali, desenvolveu um notável diálogo com o entretanto instalado Presidente Filipe Nyusi, cujos esforços levaram ao acordo de paz de 1 de Agosto deste ano, concretizando-se um modelo de descentralização política em que sobressai a eleição dos governadores provinciais – ensombrada entretanto pela nomeação dos secretários de Estado provinciais como representantes do Governo central, assim ofuscando a proeminência dos governadores.

D. Jaime morrerá em Abril de 2016 e o Presidente Nyusi esteve presente nas exéquias fúnebres. O seu discurso foi um verdadeiro elogio a D. Jaime enaltecendo a sua postura genuinamente moçambicana e patriótica, ele que tantas vezes fora apostrofado de ser anti-Frelimo e excessivamente pró-Renamo. Na hora da sua morte, todas as forças políticas se renderam em homenagem ao servo da paz que, em recente entrevista, gritara quase cepticamente: “Podem tocar todos os tambores do Rovuma ao Maputo que ninguém vai ouvir [a voz da razão]… Mas ou os moçambicanos acabam com a guerra ou ela acabará com os moçambicanos.”

Dois anos depois, em 4 de Maio de 2018, morria, também, Afonso Dhlakama na mesma serra da Gorongosa onde D. Jaime o fora desencantar nos embrionários esforços rumo a um caminho de paz moçambicano.Nesta mesma serra se estabeleceu também o seu sucessor Ossufo Momade. Ali assinou, com o Presidente Nyusi, no passado dia 1 de Agosto, mais um Acordo de Cessação de Hostilidades Militares, logo seguido, no dia 6, da assinatura de mais umAcordo de Pazagora (apressadamente?) qualificada de definitiva.

Será mesmo definitiva? É o que todos desejamos. Porém, reina muito cepticismo tanto entre o povo simples como no mais escolarizado. É que os sucessivos retornos da guerra foram sempre pós-eleições. E vamos tê-las, de novo, em Outubro. Que irá acontecer? Serão transparentes? Estamos todos expectantes!

 

José Luzia é padre católico, missionário em Nampula (Moçambique) há quatro décadas e autor de três livros sobre a Igreja em Moçambique

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]