Dois relatórios, grossos de mais de 700 páginas cada, conhecidos nesta segunda-feira, 30 de janeiro, em França, dão conta de que Jean Vanier, fundador d’A Arca, não só participou nas práticas escabrosas de abuso sexual do dominicano Thomas Philippe (1905-1993), como as reproduziu com mulheres não-deficientes durante décadas após Roma ter condenado o padre dominicano. “Abuso sexual, delírio coletivo, corrupção teológica de noções centrais do cristianismo, desvio espiritual, manipulação…”, foi o que um dos autores encontrou ao investigar este pesadelo que desde 2020 traz perplexas milhares de pessoas até então cativadas pela beleza espiritual do fundador d’A Arca.
A primeira queixa foi conhecida pelos dirigentes d’A Arca em 2016 e, posteriormente corroborada por outras mulheres, deu origem a uma investigação que foi dada a conhecer em fevereiro de 2020 [ver 7MARGENS], para enorme espanto de todos quantos conheceram Jean Vanier ou trabalhavam no movimento formado por 154 comunidades, espalhadas por 38 países, em que voluntários e pessoas com deficiência vivem em conjunto.
As revelações sobre os abusos de Jean Vanier: entre a incredulidade e a raiva
Na sequência dos resultados dessa investigação foram lançadas três comissões de peritos independentes: uma pelo movimento A Arca, outra pelos dominicanos e outra pelos irmãos de São João, uma congregação fundada pelo irmão de Thomas Philippe.
Os relatórios agora divulgados resultam do trabalho das duas primeiras comissões. Citando o texto de mais de 900 páginas entregue aos responsáveis pel’A Arca, o La Croix escreve neste dia 30: “Manejando a arte da sedução sobre as suas interlocutoras, conduzia as que acompanhava espiritualmente a [manterem com ele] relações sexuais (…)”.
A comissão confirmou 25 destes diferentes casos que não considera representarem o universo total de mulheres abusadas por Vanier. Conclui também que tais práticas envolveram exclusivamente mulheres não-deficientes e que a vida, o desenvolvimento e o acolhimento de pessoas com deficiência no interior do movimento A Arca não foi contagiado por esta “seita com ritos próprios (…) e com seus dogmas específicos, suas profecias particulares (…) – uma seita escondida dentro de uma instituição localizada no coração da Igreja”.









