José Mattoso, prémio Árvore da Vida: Reforma católica deve conciliar pluralidade com necessária unidade

| 2 Jun 19 | Destaque 2, Igreja Católica, Newsletter, Papa Francisco, Pessoas, Pessoas - homepage, Últimas

 

José Mattoso, dia 1 de Junho, em Fátima, com o prémio Árvore da Vida. Foto © Rui Martins/SNPC

 

A Igreja Católica está a atravessar hoje uma época de reformas e, tal como no século XV, a procurar “conciliar a pluralidade das iniciativas e experiências, com a necessária firmeza e unidade”, disse o historiador José Mattoso, ao receber em Fátima neste sábado, 1 de Junho, o Prémio Árvore da Vida Padre Manuel Antunes, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica.

Nos séculos XIX e XX, afirmou o autor de Identificação de Um País, “a Igreja teve de se defender de violentos ataques racionalistas”. E explicou: “Em Portugal acusaram-na de inventar milagres, de manter rituais supersticiosos, de alienar povos ignorantes. A Igreja reagiu adoptando uma apologia retórica, e refugiou-se à sombra do poder constituído. Enfraquecida pela perda dos seus bens e pela debilidade do seu pensamento racional, perdeu o sentido da criatividade cultural.”

A situação hoje é diferente: “Graças à reflexão teológica, à crítica exegética e ao verdadeiro conhecimento do passado, [a Igreja Católica] recuperou o seu lugar no mundo da ciência e da razão. A história crítica da Igreja ajuda-a a reconhecer os seus erros, a explicar as suas decisões, a interpretar indícios significativos da sua acção, a descobrir afinidades com correntes alheias, a reconstituir estruturas globais, a descobrir novidades inesperadas.”

Na sua intervenção, o historiador fez um percurso em três etapas, começando por evocar o pare Manuel Antunes, que dá nome ao prémio Árvore da Vida como “uma das personalidades que em Portugal mais contribuíram para dissipar a agressividade anti-clerical” existente na época “e restituir à Igreja um lugar importante na promoção da cultura”. A obra de Manuel Antunes (publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian), acrescentou, “permanece ainda hoje como um marco fundamental na história da cultura portuguesa”. O jesuíta, que leccionou na Faculdade de Letras e dirigiu a revista Brotéria  “foi, efectivamente, um criador de cultura, na mais vasta acepção do termo”, afirmou Mattoso, e “merece bem ser modelo da promoção da cultura cristã em todos os seus domínios.”

O historiador evocou depois os outros anteriores laureados do prémio Árvore da Vida, condensando-os através de um nome, o do actor e encenador Luís Miguel Cintra, a quem o ligam laços de amizade: “Cada qual com a sua personalidade, todos eles souberam conciliar a inspiração artística ou a competência científica com o vigor da acção social. Este conjunto é bem diferente do que dominou uma época, felizmente já passada, em que a opinião pública corrente contestava a legitimidade de uma fé racional.”

Neste contexto, José Mattoso referiu o papel da historiografia e a sua relação com modelos de Igreja: “Nas controvérsias dos séculos XIX e XX esqueceram-se muitas vezes dados importantes sem os quais não é possível descobrir o sentido dos factos históricos, e cometeu-se frequentemente o erro de projectar sobre o passado ideias e doutrinas de épocas recentes. A historiografia nacionalista considerou o fim da Idade Média europeia como uma época de crise e generalizou sumariamente a decadência das suas instituições e a corrupção do clero.”

Do lado da Igreja a reacação também não foi a melhor: “A narrativa eclesiástica do século XIX não soube reconhecer a potencialidade de alguns ensaios inovadores surgidos nessa mesma época. Hoje, porém, sabemos que o fracasso de vários movimentos reformistas legítimos se deve mais ao excesso de zelo e à rigidez das formulações dogmáticas tridentinas do que a efectivos desvios doutrinais. A obsessão uniformizadora do catolicismo quinhentista e seiscentista persistiu durante os séculos seguintes, e levou, por exemplo, a proibir a leitura de Erasmo, a condenar Copérnico, criar a Inquisição, a legitimar a tortura, a fazer abortar os primeiros ensaios do Liberalismo Católico.”

Se a história crítica que entretanto se faz “não isenta a Cúria Romana nem muitos outros membros da hierarquia católica das suas responsabilidades na ruptura da unidade eclesial”, também em Portugal se neutralizaram ou enfraqueceram “as potencialidades dos movimentos religiosos e assistenciais do século XV, tão importantes”, acredita José Mattoso, “para compreender o vigor e o dinamismo da acção e do pensamento religioso do período mais brilhante da nossa História, a época da Expansão e dos primeiros contactos de Portugal com as culturas não europeias”.

O historiador citou ainda vários nomes que têm procurado corrigir esses erros do passado: José Pedro Paiva, da Universidade de Coimbra, e José Adriano Freitas de Carvalho (Porto), para a época moderna; António Matos Ferreira e Paulo Fontes, da Universidade Católica, sobre a época contemporânea; o Centro de Estudos de História Religiosa, no âmbito do qual o bispo Carlos Azevedo coordenou a História Religiosa de Portugal e o Dicionário de História Religiosa de Portugal e, no âmbito do Instituto de História Medieval da Universidade Nova, onde José Mattoso também contribuiu com vários estudos sore a época medieval, e cujo legado confiou a um pequeno grupo de jovens investigadores liderados por João Luís Inglês Fontes.

“Creio que só um pluralismo de raiz evangélica, fruto da Palavra única de Jesus Cristo, pode conciliar a imensidade e a multiplicidade das suas incarnações, no tempo e no espaço, com a unidade de Deus Pai, uno e trino, Senhor do Céu e da Terra”, resumiu o historiador na sua intervenção, que também pode ser vista e ouvida aqui.

José Mattoso, num ds momentos da entrevista concedida à Ecclesia, Renascença e SNPC. Foto © Rui Martins/SNPC

 

A propósito do Prémio Árvore da Vida, José Mattoso concedeu uma entrevista conjunta à agência Ecclesia, Rádio Renascença e Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da qual se podem ler e ouvir alguns excertos: a cultura e a poesia são caminhos para Deus, diz o historiador, que sempre se sentiu “nas mãos de Deus” e que confessa também ter ficado surpreendido com a atribuição do galardão.

Na sua crónica no Expresso, o arcebispo e bibliotecário do Vaticano escreve sobre “Um abraço a José Mattoso”, dizendo que considera o historiador “uma das figuras mais extraordinárias da nossa contemporaneidade” e revela que entre os seus livros que mais aprecia está A escrita da história. Teoria e Métodos: “Os historiadores poderão lê-lo certamente como uma instigadora visão da história. Mas os poetas que o lerem vão também colher uma preciosa iniciação à poesia. Os que desejam sobretudo modalidades práticas para organizar o conhecimento acharão muitos dados relevantíssimos. Porém, isso será válido também para quantos sentem dentro de si o apelo da contemplação.”

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Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
10
Ter
Apresentação do livro “Os dons do Espírito Santo”, de frei João de São Tomás @ Livraria da Universidade Católica Portuguesa
Dez 10@17:30_18:30

O livro será apresnetado por Manuel Cândido Pimentel, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Dez
11
Qua
Apresentação do livro “John Henry Newman”, de Paolo Gulisano @ Capela do Rato
Dez 11@21:15_22:15

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Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

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