
Criança refugiada chega à Arménia vinda de Nagorno-Karabakh. Foto © UNICEFUNI 444674 Zelya
Quando Susanna atravessou a ponte Hakari e entrou na Arménia, em 23 de setembro de 2023, ela e todos os que a acompanhavam naquele autocarro com refugiados do enclave de Nagorno Karabakh desataram a chorar de emoção.
Para trás ficavam nove meses de bloqueio ao enclave por parte das tropas do Azerbaijão, o ataque do dia 19 daquele mês, em que o pai de Susanna morreu a combater e, já no dia da fuga, os dois pontos de controlo em que veículo e pessoas foram não só inspecionadas mas maltratadas e humilhadas.
O seu caso vem contado num trabalho que o The New Arab acaba de publicar, evocativo do primeiro aniversário dos trágicos acontecimentos que significaram o exílio para mais de 100 mil arménios, obrigados a abandonar um território disputado há décadas pela Arménia e pelo Azerbaijão. Uma pequena minoria recusou-se a abandonar o que consideram ser a sua terra.
Menos de dois meses depois de os azeris terem passado a controlar o enclave, o Tribunal Internacional de Justiça adotou uma sentença segundo a qual o Azerbaijão ficou obrigado a permitir o regresso dos que o pretendessem fazer, de maneira “segura, rápida e sem obstáculos”.
Vrtanes Abrahamyan, bispo da Igreja Apostólica da Arménia e primaz da Diocese de Artsakh (o nome do enclave em arménio), que assumiu o acolhimento dos asilados, afirmou, na sequência de múltiplos encontros com grupos de deslocados, espalhados um pouco por todo o país, que mais de 80 por cento pretende regressar, mas com uma condição: que não fiquem debaixo do domínio dos azeris. Outras condições passariam por reparação dos danos causados, pela segurança e pela garantia de autonomia.
As autoridades do Azerbaijão quer durante o êxodo da população do enclave quer já nos meses em que bloquearam a circulação de pessoas, faziam constar, em declarações públicas e nos media, que a população arménia era bem-vinda e desejavelmente se deveria integrar na sociedade azeri.
Um académico de Direito Internacional citado no trabalho de The New Arab, considera tais declarações “vazias” e mesmo “hipócritas”. “Essencialmente, o Azerbaijão estava a dizer à população arménia que eles eram bem-vindos para ficar em Nagorno-Karabakh enquanto apontava uma arma às suas cabeças, metaforicamente, se não literalmente.”
Entretanto, o bispo que acompanha as comunidades deslocadas manifestou preocupação com alegados atos de destruição e danificação de património religioso e civil, bem como profanação de cemitérios, por parte dos ocupantes azeris. Isso mesmo surge documentado nos relatórios do Caucasus Heritage Watch, incluindo no último, de junho de 2024.
Recentemente foi constituído um Comité para a Defesa dos Direitos Fundamentais do Povo de Artsakh. Um dos seus membros, Gegham Stepanyan, que desempenha a função de Provedor de Justiça, sublinha que, “por enquanto”, o principal desejo é “estabelecer uma plataforma com o envolvimento de mediadores internacionais onde as questões da população deslocada serão abordadas”.









