
“Um grupo de cidadãs e cidadãos, reunimo-nos em “meditação militante” todos os segundos sábados de cada mês no Parque Eduardo VII, de tarde, numa hora de Silêncio pela Paz (Paz/Silêncio).” Foto: Um dos lugares de meditação em torno de árvores, no Anjali Ashram, ashram católico em Mysore, Estado de Karnataka (Índia). © Rui Manuel Grácio das Neves
Um dos aspetos mais interessantes deste século XXI é a consciência, cada vez mais estendida, de que não pode haver uma verdadeira transformação social, política, económica e cultural sem uma transformação interior. Noutras palavras, não pode haver uma revolução social sem haver, ao mesmo tempo, uma revolução interior. Ambas as realidades são dialéticas: ambas se necessitam e mutuamente se implicam. O caso da Nicarágua, por exemplo, mostra precisamente isto: de uma revolução que deu esperança ao país nos anos 80, a revolução sandinista, passámos hoje para as suas antípodas, com a autocracia do Presidente Daniel Ortega e da sua esposa Rosario Murillo, que exercem um poder autoritário e repressor. E não é, infelizmente, o único caso.
“Revolução” não quer dizer necessariamente violência, sangue e mortes. Este é um equívoco que leva a conclusões falsas. A teoria da relatividade, tanto a generalizada como a estrita, de Albert Einstein, junto com a mecânica quântica, são exemplos de revoluções no âmbito da ciência e do pensamento que transformaram as nossas conceções do mundo. A meditação é também um exemplo disso, com milhares de anos de prática.
A meditação é um mecanismo de transformação pessoal poderosa.
O “fazer silêncio” na mente (mais do que aquele “deixar a mente em branco”…), o transcender a mente dedutiva e silogística em prol da Intuição, a prática da Atenção Permanente, do viver conscientemente, a prática regular do autoconhecimento e da transcendência no Absoluto (seja como for que o concebamos), do viver atenta-mente no Aqui-e-Agora, com gratidão, contentamento e atitude amorosa, o desapego, despojamento e liberdade interior constantes, a vivência da impermanência do quotidiano, o ir mais além do nosso pequeno ego empírico, a prática de inter-solidariedade com @s mais oprimid@s, a harmonia com a Natureza em interdependência e interconexão, o estudo disciplinado da sabedoria milenar da Humanidade, etc., leva-nos a viver uma vida de plenitude de Sentido, de Totalidade, de Holismo.
Esta revolução pessoal de cada dia é a melhor garantia de trabalhar por uma revolução social não-violenta, que toque as estruturas sociais também e que assim seja realmente transformadora.
Sim, porque não podemos ficar só na prática interior. Isto seria algo incompleto e não totalmente holístico.
Necessitamos por isso de transformar o nosso modelo económico, que põe o lucro (individual e minoritário) por cima das pessoas, do resto da Natureza (“nós também somos Natureza!”), e só nos vai levar ao fracasso civilizacional e a um beco sem saída: a Economia é para administrar racionalmente os recursos para todos e todas e não para minorias privilegiadas do planeta.
Precisamos também de políticas que superem atitudes autoritárias e voluntaristas, mas também que vão muito além do modelo de democracia liberal, representativa, formal, que já deu o melhor de si, sendo preciso caminhar para práticas mais autogestionárias e de democracia direta. Por isso, uma educação para a democracia real, material, exercida em todos os âmbitos da realidade social, juntamente com a prática de uma espiritualidade do quotidiano, gratuita e generosa, pode dar, neste momento, uma esperança à Humanidade.
Só assim podemos remover também (maus) hábitos culturais individualistas, competitivos, dominadores, destrutivos e solitários que predominam no nosso modelo atual de civilização ocidental. Somos chamad@s, sim, em equilíbrio de géneros, a construir umas relações inter-humanas, inter-étnicas, multi-culturais, um ser humano mais plural na sua unidade básica em harmonia cósmica.
O absurdo final mais patente de um mundo à deriva é a realidade da guerra, da violência, como exemplo mais típico de uma orientação egóica nos nossos “valores” civilizacionais.
Mas não está nada decidido. Tudo depende de deixarmos de parte mentalmente os fatalismos, os pessimismos, os derrotismos, e abrir-nos a práticas (não bastam as teorias!) que sejam realmente transformadoras, nos âmbitos pessoais/existenciais e sociais. De acreditar, com práticas reais, constantes, perseverantes, nas chamadas “minorias abraâmicas” (bispo Hélder Câmara), aquelas que esperam contra toda esperança. É uma tarefa de harmonia e de trabalho conjunto, além de individual. Aliás, é sempre pessoal/social, social/pessoal, sem fim e em interação dialética.
Neste sentido, como um pequeno grão de areia, um grupo de cidadãs e cidadãos, reunimo-nos em “meditação militante” todos os segundos sábados de cada mês no Parque Eduardo VII, de tarde, numa hora de Silêncio pela Paz (Paz/Silêncio), não importa as nossas tradições espirituais e religiosas, ou ausência delas, mas abert@s a unir-nos no Silêncio à Paz de um Mundo Melhor. Esta meditação silenciosa não impede, é claro, outras atividades solidárias que possamos fazer, contra as guerras que ainda sofremos neste Planeta (não só da Rússia contra a Ucrânia, mas também na África, etc.), assim como contra os diversos tipos de violência planetária que ainda existem (em Israel contra @s palestinian@s, opressão contra as mulheres iranianas, injustiças nas condições dos trabalhos, salários de exploração, violência doméstica e contra a mulher, precarização do trabalho, exploração d@s emigrantes, vítimas do comércio sexual e escravidão laboral, armamentismo, e, infelizmente, um longo etc.), pela Paz integral.
Convocamo-nos em Pé de Paz!
Quem quer pro-seguir-nos?
Rui Manuel Grácio das Neves é frade dominicano, “Bodhisattva” da “Sangha” Zen de Lisboa e trabalha presentemente sobre a Espiritualidade Holística










