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Menos ecrãs, mais vida? Neil Postman, as mães professoras e a escola que virá (2): a ciência das conclusões ou de como não importa, basta crer

| 18/02/2025

 

No que concerne às novas tecnologias de informação e comunicação, é recorrente o que chamarei argumento NRA (National Rifle Association). Segundo a formulação original, visto que não são as armas que matam, mas as pessoas que as empunham, não devemos proibir as armas mas armar-nos para nos defendermos de quem delas faz mau uso. O que os seus defensores nunca explicam é por que razão se mata mais precisamente aí onde os obstáculos legais ao uso e porte de arma são mais lassos, se existem, e prospera uma cultura de violência apoiada no argumento atrás referido e no exangue 2º Aditamento.

Do mesmo modo, no que respeita aos benefícios ou malefícios do smartphone, e das TIC em geral, em meio infanto-juvenil, também vamos podendo apreciar a ginástica de mentores e promotores, frequentemente apenas em defesa do nicho que para si construíram nas escolas e sectores ‘esclarecidos’ das administrações e da indústria. A exemplo dos amigos das armas norte-americanos, acreditam que tudo vai do uso e dos patamares de maturação emocional e intelectual dos utentes, da qualidade das pedagogias e dos ambientes escolares e familiares, prescrevendo receitas diferenciadas, num exercício gastronómico que lembra o melhor da nouvelle cuisine: proliferação de variações microscópicas em doses homeopáticas de sins e nãos. Talvez não lhes ocorresse o mesmo a respeito da condução automóvel, do consumo de álcool, de estupefacientes, do casamento e mesmo da recorrente reivindicação do voto aos 16 anos, mas quem somos nós para relembrar restrições decorrentes de considerações relativas ao desenvolvimento orgânico, intelectual e emocional dos indivíduos?!…

Ao argumento atrás junta-se, obviamente, um indisfarçável apelo à ignorância: uma vez que os estudos disponíveis não declaram, unânime e taxativamente, que o uso indiscriminado do telemóvel e conexos traz malefícios, isso quer dizer, em última análise, que não traz, ou traz, mas ainda não estamos autorizados pela ciência a dar um passo. Em suma, se não podes provar que é, não é, ainda que para alguns seja.

Como já referi – cf. Menos ecrãs, mais vida? Neil Postman, as mães professoras e a escola que virá (1)) –, em 1998, Neil Postman, na palestra que proferiu na conferência The New Technologies and the Human Person: Communicating the Faith in the New Millennium, propôs cinco ideias sobre mudança tecnológica. Relembro três, na forma de interrogações:

  • o que é que a introdução da tecnologia digital vai desfazer?
  • que tipo de pessoa é que a tecnologia digital produz ou favorece?
  • se a tecnologia tende a tornar-se mítica, i.e., a ser percebida como parte da ordem natural das coisas, como reconduzi-la à condição de instrumento, subordinado a propósitos políticos, sociais e económicos claros e democraticamente escrutináveis? (aqui altero a formulação inicial, sem trair o autor citado).

Ora, parece que dispomos já de informação suficiente sobre os três tópicos, e mais agora do que há um quarto de século. Mas, e este é o paradoxo, já não estamos apenas paralisados pela ignorância irreparável das redes e dos influencers. Tolhe-nos também, massivamente (pois afectando sobretudo o funcionamento de grandes organizações) a ciência, ou, melhor, um certo entendimento dela como auxiliar do governo, a que se chamou, no passado, tecnocracia e, ainda mais atrás, ciência da polícia (ou ciência da organização do Estado: baseada nas novas ciências da sociedade, inclui, segundo o alemão Christian Thomasius -1655-1728-, demografia, religiosidade, virtude, educação, abastecimento, segurança, cadastro e urbanismo).

O entendimento tecnocrático do mundo pretende-se sempre intencionalmente esvaziado de sentido ético e político do mesmo, como se houvesse acções sem consequência, e estas fossem precisamente as que dispensam a ideologia, a política e a moral. Seria um gesto pragmático apoiado na presumida assepsia da ciência.  Só que, no presente, e isso faz uma diferença considerável, se inverteu o sentido original: é uma decisão política e ideológica que informa a ‘ciência’, a qual, por sua vez, informa a acção política. Regressamos à botânica de Lyssenko, à linguística de Estaline, à eugenia dos supremacistas de todos os tempos e lugares, com passagem pela ciência pós-moderna e, mais recentemente, as epistemologias ao gosto do freguês e o escapismo tecno-fascio-apocalítico de Elon Musk. Assim, a decisão de considerar os smartphones e todo o arsenal tecnológico correlativo auxiliares de aprendizagem, decisão eminentemente política, pois afectando de forma irreparável a autonomia dos indivíduos, parece mostrar que toda uma intelligentsia educativa está já irremediavelmente prisioneira da terceira ideia atrás citada.

Na verdade, a mitificação torna alguns académicos e decisores indiferentes à modéstia da abordagem prudencial, que requer mais sageza do que provas definitivas (Popper ria-se de semelhante ideia) e se inspira na experiência corrente e no que nela há de reincidência, repetição.

É por isso que julgo indispensável seguir a via proposta por quem sabe que a interdição de smartphones à população jovem e do acesso às impropriamente chamadas redes sociais não configura uma violação de direitos, mas, antes, uma das últimas linhas de defesa das comunidades políticas democráticas face aos abusos das oligarquias híbridas que juntam ditaduras há muito consolidadas e hipermilionários libertários transnacionais no projecto demencial de submeter e domesticar a população mundial.

Menos ecrãs, mais vida? Neil Postman, as mães professoras e a escola que virá (1)

João Santos é professor.

 

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