Hoje, uma série de acontecimentos inspirou-me, no que toca à importância do conhecimento do outro, ao ensino sobre o outro, sobretudo ao saber escutar. É disso que vou falar nesta crónica.
Logo pela manhã fiz um “zap” a visualizar o que é que me poderia interessar ler pelo Facebook. Há que lá ir, porque há informações que não circulam, nem em revistas, nem em jornais e nem em livros. Encontrei, para a minha felicidade, um breve ensaio de Jessemusse Cacinda, filósofo e escritor moçambicano, acerca do livro intitulado A Crise da Narração, de Byung-Chul Han. O filósofo conta-nos, que, entre outras questões, a obra ensina-nos sobre a alteridade que não queremos viver e ainda acerca da instalada impossibilidade de vivermos e de partilharmos a nossa dor, isto porque, o que nos tem sido ensinado é a importância da positividade. Afirma-se que a negatividade consome as nossas energias. É, claramente, necessário ler o aludido livro e o ensaio de Cacinda, para ter mais pormenores.
Refiro esse ensaio, neste texto, porque tenho-me debatido com a procura de materiais para estimular o princípio da alteridade nas relações humanas. E, na conversa em torno da obra lida por Cacinda, chamou-me à atenção uma entrada de Francelino Wilson, outro escritor moçambicano, que referia que tinha conhecido um médico, numa Faculdade de Letras que se tinha inscrito para aprender a contar histórias, porque, segundo o que soube desse médico, na sua profissão, era importante ter-se competências narrativas, a fim de saber abordar os pacientes e seus acompanhantes ou familiares, para os informar sobre notícias tristes.

Essa entrada recordou-me os diálogos que tenho tido com o médico e escritor moçambicano Aldino Muianga, cuja preocupação com o escutar o outro, está na ordem dos seus dias e escritos. Muianga tem comentado que existe necessidade de complementar exames médicos com o diálogo e a escuta, próprios da narração. Vezes há, na sua óptica, em que os médicos escutam o que julgam essencial para o diagnóstico de uma doença, mas não escutam toda a narrativa do paciente, que, muitas das vezes, para além de uma doença física, padece de outra espiritual ou possui crenças e valores que, não sendo escutadas ou não compreendidas, pode prejudicar o tratamento da sua doença. Ainda bem que esse diálogo deve-se estender, também, aos valores e crenças médicas, pelo que pude constatar na obra Hospital, de Aldino Muianga, publicada em 2023. E, para esclarecer essa questão, em contexto real, entrevistei o autor que me explicou o que segue. Voltarei, mais abaixo a este livro.
Questionado se os valores do médico contariam muito para o processo de atendimento ao paciente, Muianga respondeu ter elaborado, enquanto profissional da saúde, um artigo didáctico no qual defende que o doente não deve ser um “agente passivo no seu processo de cura”, mais ainda, em seu entender é necessário ter em conta os valores médicos e os valores do paciente e coloca-los em diálogo.
Foi na sequência disso que elaborou um artigo sobre ética médica a que designou “SEP Circle”: Spirituality (valores), Éthic and Professionalism”, através do qual, informa que os resultados terapêuticos, muitas vezes, dependem da qualidade da comunicação Médico-Paciente. E, nisso sugere uma interacção guiada pelas seguintes questões: “Qual é a percepção que você [paciente] tem da sua doença?”. Isto, segundo Muianga, para explorar a explicação que o paciente oferece como fundamento do padecimento; a segunda questão é: “Como é que acha que pode resolver o problema da sua doença?” Questão feita, de acordo com o autor, para explorar as vias que o paciente concebe para erradicar o seu mal e, finalmente, “Como é que acha que o médico pode ajudar?” Muianga afirma que essa pergunta é um convite ao paciente, um sinal de disponibilidade para o ajudar”.
Volto, então ao livro Hospital, de Muianga, autor que para além de se dedicar à escrita didáctico médica, é ficcionista, com uma escrita virada para a compreensão da Ciência, especialmente da Medicina e da Espiritualidade. Tais são os casos de Hospital, já referida e Mitos, estórias de espiritualidade, entre outros títulos da vasta obra deste escritor, que se tem dedicado, também, a compreender a condição humana, como nos casos do romance Meledina ou a estória duma prostituta, publicado em 2004 e As Irmãs Libelo Ribas, no prelo.
Desta conversa toda, interessa-me destacar o conto intitulado “Espiritualidade: médico versus paciente e “Espiritualidade: paciente versus médico”, ambos constantes do livro Hospital. No primeiro conto, são narrados os valores de um médico que se recusa a fazer uma interrupção de gravidez a uma paciente, em virtude das suas crenças, enquanto ser humano e não enquanto profissional. No segundo conto, são os valores da paciente que interrogam a ética médica de salvar vidas. Entretanto, pelo seu juramento, o médico cumpre com o seu dever, camuflando-o entre a sua tarefa urgente e as crenças da sua paciente…tudo isto requer, de facto um equilibro entre o acolhimento do outro e o cumprimento de deveres sociais e profissionais. É, de facto, importante saber escutar e saber narrar.

Logo a seguir à minha leitura do ensaio de Cacinda, seguiu-se uma palestra que dei numa Universidade num país europeu, acerca da obra Nós Matámos o Cão Tinhoso do escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana, que nos lega, através da sua obra, o cuidado com a humanidade, a importância de se ensinar a conhecer o outro diferente em alguns modos de agir, mas igual, enquanto humano. O pormenor sobre o lugar é importante, uma vez que, a conversa com os alunos, revelou a sua curiosidade sobre o porquê de eu insistir no facto de que é necessário ensinar-se sobre a etnicidade, a alteridade e a condição humana. E Nós Matámos o cão Tinhoso é uma obra que mostra a indução de crianças em erro, pelo total desconhecimento do outro. Quem ler o conto “As mãos dos pretos” e “O Cão tinhoso” saberá a que é que me refiro. Há ali desconhecimento do outro, falta de empatia e muito bullying.
Dizia eu, nessa aula, que se deve ensinar às nações que a democracia deverá enfatizar a ideia de que quando um cidadão não está bem, todos os outros não se deveriam sentir bem, porque a humanidade toda sofre e deveria viver em sintonia e em igualdade. Isto parecia utópico, até eu mencionar o excerto da palestra de É preciso agir, de Martin Niemöller (1892-1984), que nos revela que o problema do outro é também meu problema, não devo esperar que ele me atinja propriamente. E ainda o poema “No caminho, com Maiakóvsky”, de Eduardo Alves da Costa (1960), cuja essência é a mesma: quando algo aconteceu ao outro, calei-me, e hoje a mim acontece a mesma coisa e não tenho quem me salve, porque o outro desapareceu ou morreu. Os alunos gostaram de saber que há mudanças que devem ser operadas nos seus modos de agir, porque, afinal, o facto de a Europa estar, aparentemente, estável, não está bem, porque parte dela ainda está “nas trevas”. Ainda há gente a matar-se, porque não quer dialogar. Ainda é, pois, importante ensinar-se a dialogar e a escutar.
Há textos que se escrevem por si ou já existem e só precisam de ser materializados. Acreditem. No final da crónica que contei, desde Cacinda, passando pela questão dos médicos, aflorada por Wilson e por Muianga, almocei com a Catarina, uma farmacêutica, que embora, antes céptica quanto aos valores da medicina tradicional, dado ao que aprendeu por via da medicina moderna, hoje estava feliz, porque uma conhecida sua estava melhor, após ter sido acometida por uma “doença que não era doença”. Mas era doença, segundo ela: essa conhecida andava fraquinha e desmotivada no seu trabalho; após saber de inúmeras consultas que a visada realizou, através da medicina moderna, uma colega sua disse-lhe, sou vidente e vejo que o que tens é uma maldição. A tua rival colocou-te, por via do teu marido, uma seiva que faz com que ele olhe para ti e veja uma hiena. Essa maldição pode ser-te retirada por um curandeiro. Tendo aceitado e escutado a vidente, a amaldiçoada seguiu o conselho e salvou-se.
Ouvida esta história, pensei no quão tinha tido um dia rico de coisas por contar… e viva a crónica! Hoje aprendi que se deve ensinar a escutar e a perguntar. Além disso, aprendi também que é importante, tanto ser-se positivo, quanto partilhar-se a dor. Acima de tudo, é imperioso compreender que, na mesma humanidade, existe uma alteridade que deve ser aprendida e respeitada. No máximo possível, ajudá-la em nome da salvaguarda dessa mesma humanidade. O outro conta.
Sara Jona Laisse. Membro do Graal, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs, em Maputo. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br










