
O Papa Francisco e participantes da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade num momento de oração antes do início dos debates. Foto © António Marujo/7MARGENS
Continuo a pensar que o Intrumentum laboris para a próxima Assembleia, em Outubro, é extremamente enfadonho. O que é evidente não pode ser negado. Compreendo também que tenha causado uma certa deceção terem-se retirado da discussão — discussão saudável — os temas mais candentes que foram propostos desde a primeira fase do Sínodo. Contudo, fazendo leituras sucessivas do documento, creio que é necessário outro tipo de reflexão.
A maior parte dos temas que foram deixados para estudo pelas comissões juntamente com os dicastérios correspondentes, e sobre os quais iremos receber informação na Assembleia, não só foram contributos propostos pelos participantes desde o início, mas também estão presentes na maioria dos documentos que configuram o magistério do Papa Francisco. Ou seja, não são novos, foram já há algum tempo apresentados para a nossa reflexão. Isto, por um lado.
Por outro lado, o facto de ter abordado estes temas desanuvia o horizonte para o que é verdadeiramente necessário neste momento. O importante é centrar-se na mudança de estruturas porque só com essa mudança e consolidação será possível ir tornando realidade algumas das propostas que se recolheram no documento inicial.
É também importante ter presente que o batismo cruza, transversalmente, todo o documento de trabalho da próxima Assembleia. Ou seja, recuperar a teologia batismal continua a ser uma prioridade para compreender como tornar realidade e poder viver a sinodalidade na Igreja. Além disso, essa teologia batismal leva-nos a ver algumas palavras no seu sentido mais genuíno. Refiro-me à palavra “direito”. É um termo que causa sempre preocupação, e uma certa preocupação na Igreja quando, na realidade, não deveria ser assim.
Há um tema que permanece tal e qual. É sobre os abusos económicos. Falar desta realidade tão abertamente, que faz parte do flagelo que não acaba como são os abusos de todo o tipo na Igreja, alenta a esperança de, pelo menos, ver que vão sendo nomeados e falados cada vez mais. Embora possa não parecer, é muito importante continuar a abordar os abusos sem esconder nenhum, e nomear os abusos económicos é reconhecer que eles existem e sob muitas formas.
Portanto, longe de nos situarmos diante de um momento de “cortes” nas propostas, demos um pouco de tempo ao tempo, e após a Assembleia, lembremos que nunca na história, em nenhum campo, as mudanças vieram de cima; que estas mudanças tão ansiadas devem começar pela modificação das estruturas e pela mudança na formação – seminários, congregações religiosas, laicado – e que todos na Igreja podemos e devemos reclamá-las, desde baixo e porque as aprovámos nas assembleias diocesanas (embora em algumas dioceses já tenham passado à história). Este documento tem de reafirmar a nossa convicção e vivência de que todos somos Igreja e que aprendemos a ser – e não me canso de o repetir – adultos na fé.
Não caiamos na ideia de “outra oportunidade perdida”. É melhor pensarmos em tudo o que aprendemos neste processo sinodal. Vamos perder o hábito de deixar que nos deem tudo feito ou, pior ainda, que alguém tente dar-nos gato por lebre. A prova do algodão chegará, justamente, a partir do momento que finalize a Assembleia.
Como dizem numa pequena comunidade que conheço, agora é hora de “discernir a Igreja que temos e não queremos, a Igreja que temos e queremos, e a Igreja que queremos e ainda não temos”. Isto é o que realmente importa e, se para isso for necessário ir contra a corrente – que não significa outra coisa senão dar vida ao evangelho – pois… adiante! O contrário será puro ilusionismo, também chamado de gatopardismo.
Cristina Inogés Sanz é teóloga e membro do Sínodo dos Bispos por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora).
Este texto foi inicialmente publicado na revista Vida Nueva.










