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Entre Margens

Niceia e o ideal de uma Igreja unida

| 24/07/2025

 

Celebra-se este ano a efeméride dos 1700 anos do Concílio ecuménico de Niceia. Convocado pelo Imperador Constantino em 325 d.C., este encontro revestiu-se de uma importância seminal, por várias razões, nomeadamente a de ter resolvido com sucesso grandes controvérsias teológicas, contribuído para elucidar alguns pontos doutrinais e forjar a unidade entre os cristãos do Império. De facto, os cristãos dos primeiros séculos defrontavam-se com várias questões acerca de Jesus, essencialmente em relação à sua natureza e relação com Deus Pai. A este respeito eram diversas as interpretações e as “heresias”, daí que nesse período se tenha sentido a necessidade de desenvolver uma cristologia “ortodoxa”, ou seja, oficial, que determinasse definitivamente a natureza da Pessoa de Jesus na qual era suposto acreditar. Na realidade, essas questões foram muito debatidas em todo o império romano. No final do século I, os Ebionitas defendiam que Jesus era apenas um homem comum que fora escolhido por Deus para ser o Messias, rejeitando que fosse de natureza divina e até mesmo que tivesse nascido sem pecado, de uma virgem. No segundo século, surgem outras correntes de pensamento ligadas ao gnosticismo, como os Docetistas, que negavam a humanidade de Jesus: o seu corpo seria apenas aparente. Já o Adopcionismo defendia que Jesus, tendo nascido humano, fora “adoptado” como Filho por Deus em determinada altura da sua vida. Também o Modalismo, ou Sabelianismo, ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são apenas modos ou manifestações diferentes de um único Deus, negando qualquer distinção, como mais tarde se defenderia, entre as pessoas da Trindade. Mas de entre estas várias heterodoxias, o concílio vai-se pronunciar principalmente em relação ao Arianismo, que tinha surgido nos inícios do século IV d.C. Ário, um bispo Alexandrino, insistindo na absoluta unicidade de Deus, defendia que o Verbo, embora sendo chamado de Deus, não era verdadeiramente Deus, mas que fora criado.[1]

Primeiro Concílio de Niceia, AD 325, fresco,c. 1600, Speranza.Roma. Vatican

Primeiro Concílio de Niceia, AD 325, fresco,c. 1600, Speranza. Roma.Vaticano

Mas estas diferenças de opinião acerca da natureza divina de Cristo e da sua relação com o Pai, eram, afinal, mais complexas do que uma simples divisão entre ortodoxia emergente e alegada heresia sugere. Pois a grande maioria dos cristãos, à parte das elites eclesiásticas e teológicas, não tinha sequer uma visão definida acerca da Trindade, não compreendendo sequer o que estava em causa nas questões relacionadas com esta nova doutrina.[2] Primeiro, porque a doutrina da Trindade não é, pelo menos explicitamente, referida nas escrituras, nem nas hebraicas, nem nas do Novo Testamento, embora pareça estar implícita em várias passagens que sugerem consistentemente a unidade divina do Pai, do Filho Jesus e do Espírito Santo. Depois, para se tentar definir o que era a Trindade, houve a necessidade de recorrer, com grande esforço e engenho filosófico, às categorias do pensamento grego, particularmente às de substância, essência e identidade. Neste contexto, o pensamento de Ário foi condenado como heresia pelos padres conciliares, os quais declararam que Cristo é da mesma substância (homoousios) que o Pai, estabelecendo assim formalmente uma das doutrinas fundamentais da fé cristã. Apesar desta condenação, a influência do Arianismo perdurou ainda durante algum tempo, desaparecendo gradualmente a partir do século V, como resultado das inúmeras perseguições movidas pela ortodoxia.

Concílio de Niceia

Ícone que representa o imperador Constantino e os bispos do Primeiro Concílio de Niceia (325) segurando o Credo Niceno-Constantinopolitano de 381.

Mas o Concílio convocado pelo Imperador Constantino imprimiu também uma nova configuração às relações entre a Igreja e o Império. O Imperador, a braços com uma guerra civil da qual sairá vencedor, encontrou no cristianismo uma nova força unificadora do próprio império, o qual se encontrava já em franco estado de desagregação e incessantemente assediado e ameaçado pelas chamadas invasões bárbaras. Uma Igreja, enquanto instituição unida, contribuiria, obviamente, para uma sociedade mais coesa, permitindo salvar o império da iminente desagregação. Constantino, enquanto Sumo Pontífice, não deixará assim de exercer o seu poder para perseguir e exilar todos aqueles que não estivessem em conformidade com a ortodoxia definida no Concílio. Embora a sua política inicial visasse a promoção da unidade entre os cristãos, no final, passou a reprimir cada vez mais os dissidentes, ou seja, os considerados heréticos pela ortodoxia. O bispo Ário acabaria por ser excomungado e exilado pelo Imperador. Eusébio de Nicomedia, que participou no Concílio de Niceia, também ele apoiante de Ário, foi igualmente exilado. Outros bispos presentes no Concílio, como Marcelo de Ancira, embora opositor de Ário, foi igualmente acusado de heresia por defender uma posição extrema do sabelianismo, sendo posteriormente expulso da sua sé episcopal.

O concílio de Niceia, apesar dos esforços de unidade em torno do Credo, que estabelecia um padrão para a ortodoxia cristã, definindo a fé em relação à divindade de Jesus Cristo e à doutrina da Trindade, não alcançou uma efectiva unidade de todos os cristãos em toda a oikoumene do Império Romano. Após a morte de Constantino, as querelas acerca das doutrinas aprovadas em Niceia e nos posteriores concílios, continuaram ainda a ser fortemente debatidas, quase todas elas relacionadas com a natureza de Jesus. O próprio Credo Niceno acabará por sofrer alterações em 381, por altura do Concílio de Constantinopla, para resolver ainda outras questões acerca da divindade do Espírito Santo. Entre os vários cânones deste último concílio, não deixam de ser importantes os quatro decretos de carácter disciplinar contra várias heresias, estabelecendo assim novos limites à fé professada pela ortodoxia.

É verdade que o Credo Niceno, sendo comum às igrejas de tradição oriental e ortodoxa, e à Igreja Católica Romana, encontrou igualmente, nas Igrejas nascidas da Reforma, alguma aceitação generalizada. Mas uma unidade desejada entre todos os cristãos através do Credo de Niceia permanece ainda um ideal. Primeiro, porque se sabe que as próprias circunstâncias históricas e políticas que lhe deram origem, sugerem que o mesmo foi aprovado por meio de alguma coacção e pressão do próprio Imperador Constantino. Depois, porque temos ainda a célebre controvérsia do Filioque, suscitada pela adenda, por parte da Igreja Católica Romana e à revelia da Igreja Oriental, de uma nova cláusula ao Credo Niceno-Constantinopolitano, segundo a qual o Espírito procede tanto do Pai como do Filho. Esta teve como consequência mais dramática o Grande Cisma de 1054, que dividiu o cristianismo oriental do ocidental. Existem ainda algumas variações na interpretação do conceito básico de Trindade entre as Igrejas Católicas, Protestantes e Orientais, com esta última a enfatizar o aspecto místico[3] ao invés de unidade e igualdade entre as três pessoas, conforme propõem os católicos. Várias denominações atuais rejeitam explicitamente a doutrina trinitária do Credo Niceno, como os Mórmons, Os Pentecostais apostólicos, os Unitaristas e as Testemunhas de Jeová, os quais representam milhões de cristãos em todo o mundo. Finalmente, conforme já referido, depois de Niceia e até aos dias hoje, continuaram a surgir várias heresias[4] e interpretações alternativas. Afinal, a tentativa do Credo em resolver, de forma definitiva, as questões cristológicas e contribuir para uma efectiva unidade da Igreja, revelou-se uma tarefa inacabada, uma vez que continuam sempre a ocorrer novas maneiras de interpretar as escrituras.

 

Alguma bibliografia recomendada

. Davis, Leo Donald. The First Seven Ecumenical Councils (325-787) : Their History and Theology. Theology and Life Series. Collegeville, Minn.: Liturgical Press, 1990.
. Ehrman, Bart D. Lost Christianities : The Battles for Scripture and the Faiths We Never Knew. New York: Oxford University Press, 2003.
. Ferguson, Everett. Church History : The Rise and Growth of the Church in Its Cultural, Intellectual, and Political Context. Second edition. ed. Grand Rapids: Zondervan, 2013.
. Kärkkäinen, Veli-Matti. Christian Understandings of the Trinity : The Historical Trajectory. Christian Understandings. Minneapolis: Fortress Press, 2017.

 

[1] Leo Donald Davis, The first seven ecumenical councils (325-787) : their history and theology, Theology and life series, (Collegeville, Minn.: Liturgical Press, 1990), 51-5.
[2] Everett Ferguson, Church history : the rise and growth of the church in its cultural, intellectual, and political context, Second edition. ed. (Grand Rapids: Zondervan, 2013), 200.
[3] Veli-Matti Kärkkäinen, Christian understandings of the Trinity : the historical trajectory, Christian understandings, (Minneapolis: Fortress Press, 2017), 66-7.
[4] O próprio conceito de heresia é bastante complexo. Enquanto categoria teológica, a heresia tem a sua contraparte, a ortodoxia. Enquanto a ortodoxia se refere a pontos de vista teologicamente correctos – doutrinas e crenças, a heresia, seriam aqueles que estão teologicamente incorrectos. Obviamente o que seria considerado ortodoxo numa determinada época, poderia tornar-se uma heresia noutra. Bart D. Ehrman, Lost Christianities : the battles for Scripture and the faiths we never knew (New York: Oxford University Press, 2003), 151-5.

 

Doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt

 

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