
Famílias atravessam as águas das inundações para chegar a um ponto de água num campo para deslocados internos em Dikwa, no estado de Borno, no nordeste da Nigéria. Foto © ACNUR
Na cidade de Maiduguri (nordeste da Nigéria), antigo centro do Boko Haram, muitos tentavam reconstruir as suas vidas depois de terem sido obrigados a fugir de casa devido aos constantes ataques daquele grupo extremista islâmico. Mas os seus esforços foram, literalmente, por água abaixo. Cerca de metade da cidade está agora totalmente submersa devido às inundações dos últimos dias, as maiores de que há memória nos últimos 30 anos. E os líderes religiosos – católicos e evangélicos – imploram por ajuda para os mais de 400 mil desalojados.
“Eu sou uma vítima, estou dentro de água”, partilha o bispo anglicano da diocese de Maiduguri, em declarações ao site do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), nesta sexta-feira, 20 de setembro. “Escapei por pouco com a minha família inteira… mas há muitas famílias que estão presas e abandonadas”, alertou.
De acordo com o CMI, as inundações deixaram quase 40% de Maiduguri submersa e estima-se que um milhão de pessoas tenham sido afetadas de alguma forma. Um dos locais que ficou debaixo de água depois das fortes chuvas que levaram ao rebentamento de uma barragem foi o mercado da cidade, onde estariam cerca de 10 mil pessoas.
“Aquele mercado está completamente alagado. O hospital geral, que acolhia muitos pacientes, também está alagado”, acrescentou o bispo, apelando às autoridades que criem pontos de escoamento como medida temporária para permitir a redução do volume de água nas casas e nas estradas.
Israel Adelani Akanji, presidente da Convenção Batista Nigeriana, organizou uma recolha de fundos para ajudar as pessoas afetadas. “Disseram-nos que a necessidade imediata é dinheiro para que as pessoas possam comprar alimentos e atender às necessidades básicas”, assinalou. E adiantou ao CMI que pelo menos 149 igrejas batistas ficaram gravemente danificadas, incluindo espaços de ensino geridos pelas mesmas, e residências de vários pastores.
“Não há comida, abrigo ou instalações sanitárias para os desalojados”
“Um bom número das nossas paróquias e paroquianos foram afetados por esta inundação devastadora. Ainda estamos a avaliar a situação, mas três ou quatro das nossas paróquias foram afetadas, num total de mais de 20 mil paroquianos”, disse por seu lado o bispo auxiliar de Maiduguri, John Bakeni, à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
O retrato da situação publicado no perfil da diocese católica nas redes sociais é desolador: “Não há comida, abrigo ou instalações sanitárias para os desalojados. O Governo reabriu os campos de deslocados, mas estes estão sobrecarregados com o [elevado] número de pessoas que procuram refúgio”.
A fundação pontifícia afirma ter recebido alguns vídeos e fotografias onde é possível ver vastas áreas da cidade total ou parcialmente submersas, incluindo os edifícios mais elevados, como é o caso da Catedral de São Patrício ou do edifício da reitoria, o que obrigou os padres a procurar abrigo em zonas mais elevadas.
Segundo fontes locais citadas pela AIS, ainda há pessoas isoladas, algumas áreas permanecem inacessíveis e as equipas de resgate têm dificuldade em localizar os que estão dados como desaparecidos. E a agência Fides relata que “todos os hospitais da região estão com a capacidade máxima e não conseguem lidar com a situação”, e que os campos de deslocados internos, nomeadamente o que existe em Jejeri, que abriga cerca de seis mil pessoas, “não têm água potável e instalações sanitárias”.
Capacidade de ajuda vai “esgotar-se rapidamente”
“Desde o primeiro instante que a Fundação AIS está em permanente contacto com a diocese tendo manifestado o seu empenho no apoio à comunidade católica local através de ajuda de emergência sob a forma de alimentos, medicamentos, saneamento e abrigo”, assegura a organização.
A ACNUR, agência da ONU para os refugiados, assegura também estar a “trabalhar incansavelmente para apoiar os afetados”, fornecendo lonas, cobertores, colchonetes, mosquiteiros e outros itens essenciais. Está também a ser dada “assistência emergencial em dinheiro a famílias monoparentais, pessoas com deficiência e famílias com crianças pequenas para ajudá-las a comprar alimentos e outras necessidades”.
Enquanto isso, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) montou cozinhas comunitárias em quatro campos de deslocados em Maiduguri, onde as famílias podem obter refeições nutritivas de arroz e feijão.
A ACNUR alerta, no entanto, para o facto de os suprimentos estarem “a esgotar-se rapidamente, o que significa que a agência só poderá atender menos de 10% das necessidades urgentes”.
“Quando as águas da enchente finalmente recuarem, milhares de famílias enfrentarão a tarefa assustadora de retornar às casas que foram destruídas. Elas precisarão de apoio significativo para reconstruir casas, meios de subsistência e uma sensação de normalidade”, alerta o representante da ACNUR na Nigéria, Arjun Jain.
“Mas não podemos dar-nos ao luxo de esperar”, apelou. “A urgência desta crise requer ação imediata e maior apoio às famílias afetadas pelas enchentes, em Maiduguri e em outros lugares da Nigéria”, dado que 30 dos 36 estados foram afetados.
De acordo com dados da ONU, existem atualmente 3,6 milhões de deslocados internos na Nigéria, a maioria no nordeste, e o país abriga quase 100.000 requerentes de asilo e refugiados. Segundo relatórios de março, 32 milhões de pessoas na Nigéria enfrentavam já insegurança alimentar. Os danos às plantações decorrentes destas cheias irão piorar a situação “na temporada atual e nos próximos meses”.
Vários líderes religiosos assinalam que “o desastre é um lembrete das crescentes ameaças de mudança climática”, a qual tem sido amplamente sentida no norte da Nigéria, particularmente em Maiduguri, onde os padrões de precipitação se tornaram mais erráticos e a dinâmica da bacia do rio mais complexa.









