Assembleia de 2023

Nomeações no Sínodo dos Bispos sugerem vontade de mudanças profundas

e | 29 Jul 21

sinodo bispos FEC sem creditos

O próximo Sínodo dos Bispos pode ser um marco na renovação das estruturas e modos de decisão no interior da Igreja Católica.

 

As nomeações feitas na semana passada pelo Vaticano para as estruturas que vão animar as fases preparatórias da próxima assembleia do Sínodo dos Bispos, mostram a vontade do Papa Francisco em introduzir mudanças profundas no modo de governação da Igreja Católica em todos os níveis e âmbitos.

Essa vontade foi claramente manifesta não apenas pela inovação na metodologia em que decorrerá o processo do sínodo, como tem sido reiterada pelo cardeal Mario Grech, secretário do Sínodo, em diversas ocasiões, mas sempre sublinhando que “a sinodalidade é a forma que realiza a participação de todo o povo de Deus na missão”. Esse é o tema da assembleia dos bispos em outubro de 2023 (cuja preparação se iniciará em setembro próximo): “Comunhão, participação e missão”.

Agora, as escolhas dos membros das três comissões – Comissão Consultiva, Comissão de Metodologia e Comissão Teológica – criadas para acompanharem o processo sinodal que decorrerá nos próximos dois anos, vêm confirmar essa vontade de fazer do próximo sínodo um marco na renovação das estruturas e modos de decisão no interior da Igreja Católica.

Entre as 35 pessoas nomeadas encontram-se apenas três bispos, ao passo que se contam nove mulheres (duas freiras e sete leigas) e quatro leigos. Para a Comissão de Metodologia, a que foram apontados objetivos mais inovadores – investigar e reunir boas práticas para processos sinodais a todos os níveis, criar um site deste sínodo e trabalhar a metodologia para a celebração da própria assembleia de 2023 – não foi nomeado nenhum bispo e entre os seus nove membros a maioria é feminina (ver texto “Quem é quem nas Comissões Preparatórias do Sínodo”).

Muitos dos membros agora nomeados já participaram de alguma forma nas duas assembleias precedentes, sobre a juventude (2018), ou no Sínodo Especial sobre a Amazónia (2020).

 

Cardeal jesuíta será relator geral
Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo

Jean-Claude Hollerich: “Os portugueses fazem parte da minha igreja”, diz o cardeal luxemburguês. Foto © Conferência Episcopal Espanhola/Wikimedia Commons

 

A dois meses de ser divulgado o documento preparatório, as estruturas que vão apoiar a secretaria-geral na condução e orientação de todo o processo estão constituídas por bispos, padres, freiras e leigos entusiastas das prioridades com que Francisco tem marcado o seu pontificado. Correspondem à mesma intenção que levou o Vaticano a anunciar no dia 8 de julho a escolha do cardeal Jean-Claude Hollerich, 62 anos, arcebispo de Luxemburgo, como relator geral da próxima assembleia geral do Sínodo dos Bispos. A pessoa com esta função tem como tarefa “coordenar a discussão sobre o tema da Assembleia do Sínodo e elaborar eventuais documentos que devam ser submetidos à mesma Assembleia”, participa nas reuniões do conselho ordinário de preparação do sínodo e preside à comissão que elabora o documento final.

O jesuíta Hollerich é, desde março de 2018, presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece) e fez grande parte da sua formação no Japão, onde viveu durante mais de 20 anos e cuja língua domina. Tem repetidamente referido como temas prioritários de ação pastoral “a construção europeia ameaçada pelos populismos, a crise dos refugiados e a proteção do clima”.

Hollerich presidirá às cerimónias do próximo dia 13 de agosto em Fátima, naquela que é conhecida como a “peregrinação dos emigrantes”. “Os portugueses fazem parte da minha igreja” – disse em Roma quando, em 5 de outubro de 2019, foi feito cardeal, na mesma data do português José Tolentino Mendonça. Noutras ocasiões, tem sublinhado “a enorme dívida de gratidão que o Luxemburgo tem para com todos os portugueses que [foram] trabalhar” para o seu país. As suas amizades portuguesas são antigas e confessa adorar o Algarve onde vem regularmente passar férias numa pequena casa que ali adquiriu e que diz ser o local onde pretende viver depois de reformado.

 

“Uma especialista na arte do diálogo”
Nathalie Becquart, Sínodo dos Bispos

A freira francesa Nathalie Becquart, “especialista na arte do diálogo”, coordena a Comissão de Metodologia. Foto reproduzida da página de Kim Daniels no Twitter.

 

Na coordenação da Comissão de Metodologia, está a religiosa francesa Nathalie Becquart, 52 anos, desde Fevereiro subsecretária do Sínodo e a única mulher com direito a voto na assembleia. Formou-se na Escola de Altos Estudos de Comércio, de Paris, antes de ter estudado Filosofia e Teologia – incluindo uma especialização nos Estados Unidos, sobre sinodalidade.

Uma “especialista na arte do diálogo” foi como a revista católica francesa Le Pélerin apresentou Nathalie Becqart numa entrevista que fez à coordenadora da Comissão de Metodologia.

Metade da humanidade, as mulheres “devem expressar e contribuir com o que são, a sua experiência” para o debate na Igreja, dizia ela. “Desconfio do vocabulário da complementaridade. Homens e mulheres devem cruzar os seus pontos de vista, entrar em relações de igualdade e reciprocidade.” E sobre os jovens (a irmã Nathalie já dirigiu a Pastoral Juvenil francesa) acrescentava: “Os jovens são os mais duramente atingidos pela pobreza e desemprego” causados pela pandemia, “em particular as jovens mulheres. (…) Os jovens pedem uma Igreja relacional. Precisamos de mudar os nossos modelos mentais.”

Além da maior presença feminina e laical, a orientação no sentido da mudança verifica-se também pela origem geográfica, diversidade de formação teológica ou científica. Na geografia, todas as zonas do mundo estão representadas: há vários europeus e latino-americanos, além de pessoas oriundas da Austrália, Índia (dois padres e um leigo formado em biotecnologia), Filipinas (uma mulher que ensina Direito Canónico) Iraque, África do Sul, Tanzânia, Burkina Faso (duas pessoas, incluindo uma freira professora de Filosofia), EUA e Canadá.

Nas áreas de formação, é relevante a presença de várias pessoas da área da Filosofia, além do especialista já referido em biotecnologia e de uma especialista em desenvolvimento internacional – nada menos que a presidente do Conselho Australiano para o Desenvolvimento Internacional. Na Teologia, há vários especialistas e professores (incluindo mulheres) de Dogmática e Direito Canónico, bem como nas áreas da Pastoral, Teologia Social, Ciências Bíblicas e Patrologia (estudo dos autores da antiguidade cristã).

Uma teóloga espanhola (Cristina Inogés Sanz) formada na Faculdade de Teologia Protestante de Madrid e uma das raras mulheres executivas de conferências episcopais (a sul-africana Hermenegild Makoro, 69 anos, secretária-geral da Conferência Episcopal da África do Sul) também integram a comissão de Metodologia.

 

A “exculturação” do catolicismo

Tal como o Sínodo sobre a Amazónia, o próximo começa também com um processo de debate nas igrejas locais. Foto © Vatican Media

 

Da teologia vem outro dos nomes que se podem destacar: o do jesuíta franco-alemão Christoph Theobald, que integra a Comissão Teológica. Co-autor de dois livros publicados em português (Uma Nova Oportunidade para o Evangelho, na Paulinas, e 50 Anos Após o Concílio Vaticano II – Teólogos do Mundo Deliberam, na UCEditora),

Theobald é investigador nas áreas de Teologia Fundamental e de Estética, além de ter sido redator ou responsável editorial de três revistas teológicas: Concilium, Recherches de Science Religieuse e Études.

Em 2009, Theobald começou a publicar a obra La Réception du Concile Vatican II (“A recepção do Concílio Vaticano II”), na qual aprofunda a identidade e recepção dos textos, debatendo as hermenêuticas da continuidade e da ruptura e propondo uma maior atenção ao texto conciliar sobre a Bíblia e a revelação divina, a Dei Verbum.

No livro Uma Nova Oportunidade para o Evangelho, o autor jesuíta escreve: “podemos interrogar-nos se a exculturação do catolicismo (que leva o princípio da autonomia das sociedades e a sua ‘saída da religião’ até ao fim) ainda é suscetível de ser relida numa perspetiva teológica, ou até de ser recebida como uma ‘oportunidade’ para o Evangelho. É uma prova de fé que as Igrejas nos nossos países estão a atravessar: irão elas manter o seu olhar fixo na sua própria implosão cultural e institucional, ou perceber que está a nascer outra coisa sob o seu olhar, tanto dentro como fora delas?”

Ainda na Comissão Teológica, estão a espanhola Carmen Peña García, professora de Direito Canónico, que já defendeu a valorização dos ministérios laicais de leitor e acólito promovida pelo Papa Francisco como um passo para a maior participação feminina na vida da Igreja; a filipina Estela Padilla, que tem desenvolvido investigação e promovido o desenvolvimento de pequenas comunidades cristãs; ou ainda Anne Anne Béatrice Faye, do Burkina Faso, que tem aprofundado o papel e a promoção das mulheres no contexto africano; é uma das autoras de Visión Africana de las Mujeres de la Biblia, que, partindo de realidades de mulheres em África, propõem vários modelos de mulheres bíblicas.

Em outubro deste ano, o Papa dará início ao caminho sinodal que será articulado em três fases (diocesana, continental e universal), feito de consultas e discernimento, que culminará com a assembleia de outubro de 2023 em Roma. Esta é a primeira vez, na história desta instituição estabelecida por Paulo VI em resposta ao desejo dos padres conciliares de manter viva a experiência colegial do Concílio Vaticano II, que um Sínodo começa descentralizado, a partir das Igrejas locais.

 

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