
Quando um dos jornalistas perguntou ao Papa sobre “as dificuldades da diplomacia vaticana nestes tempos de guerra”, Francisco não hesitou em responder: “Nem imaginas!”. Foto © Vatican Media.
O Papa só costuma responder às perguntas dos jornalistas que o acompanham nas viagens apostólicas durante o voo de regresso ao Vaticano, mas desta vez as nove horas e meia que separam Roma de Ulan Bator, capital da Mongólia – onde Francisco estará até ao dia 4 de setembro – proporcionaram que o diálogo começasse já na ida: a guerra na Ucrânia, o valor do silêncio e a necessidade de respeitar os trabalhadores foram alguns dos temas abordados.
Como sempre, Francisco cumprimentou, um a um, os quase 70 jornalistas que viajaram com ele no avião. Quando um deles lhe perguntou sobre “as dificuldades da diplomacia vaticana nestes tempos de guerra”, Francisco não hesitou em responder: “Nem imaginas!”, acrescentando que “às vezes é preciso encarar as coisas com sentido de humor”. Recorde-se que, ainda há poucos dias, Francisco foi acusado por responsáveis políticos, religiosos e inúmeros meios de comunicação ucranianos de fazer “propaganda imperialista” a favor da Rússia pelas palavras que dirigiu a um grupo de jovens católicos daquele país.
Outra jornalista mostrou a Francisco um cantil de água pertencente a um soldado ucraniano que sobreviveu a uma explosão. Como gesto de agradecimento por se ter salvo, o soldado levou o cantil a uma igreja em Lviv e cedeu-o à jornalista para que ela pudesse mostrá-lo ao Papa. Francisco fez questão de abençoar o objeto com marcas da guerra, que será devolvido à igreja depois desta viagem.

Francisco fez questão de abençoar o cantil de um soldado ucraniano, com marcas da guerra, que será entregue à igreja de Lviv depois desta viagem.. Foto © Vatican Media.
Durante a troca de saudações, o Papa respondeu ainda a uma pergunta feita por um jornalista sobre o acidente que ocorreu pouco depois da meia-noite desta quinta-feira, 31 de agosto, em Brandizzo, na região de Turim, onde cinco trabalhadores morreram ao serem atropelados por um comboio. Francisco afirmou que “os acidentes de trabalho são uma calamidade e uma injustiça e sempre por falta de cuidado”, e acrescentou: “Os trabalhadores são sagrados”.
Francisco explicou ainda durante o voo que o valor do silêncio das grandes esplanadas da Mongólia será importante, e que “fará bem” a todos. “Ir à Mongólia é ir a um povo pequeno em uma terra grande. A Mongólia parece não ter fim e os habitantes são poucos, um povo pequeno (poucos em número) de grande cultura. Acho que nos fará bem entender esse silêncio, tão longo, tão grande. Isso ajudar-nos-á a entender o que significa, mas não intelectualmente, e sim com nossos sentidos”, afirmou, frisando: “a Mongólia entende-se com os sentidos”.
China proibiu bispos e fiéis católicos de se juntarem ao Papa
Durante o voo, e como já é habitual, o Papa enviou mensagens aos chefes de Estado dos países sobrevoados: a começar pela própria Itália e depois Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Bulgária, Turquia, Geórgia, Azerbaijão, Cazaquistão e, por último, China.
A Xi Jinping, presidente daquele país – que faz fronteira com a Mongólia – Francisco escreveu: “assegurando-lhes as minhas orações pelo bem-estar da nação, invoco sobre todos vocês as bênçãos divinas da unidade e da paz”.
No entanto, e embora as autoridades de Pequim tenham permitido que o avião da ITA Airways no qual o Papa viajou sobrevoasse o espaço aéreo da China no voo de Roma para Ulan Bator e no seu voo de regresso, não permitiram que nenhum bispo ou católico da China continental viajasse para a capital mongol para a visita de Francisco. A ordem que proíbe os bispos e fiéis católicos de se deslocarem à Mongólia durante o período da viagem apostólica veio do Departamento de Trabalho da Frente Unida do Partido Comunista Chinês, adianta a revista America, citando fontes do Vaticano.
A ordem deixa claro que os bispos da China continental não gozam da mesma liberdade que os bispos de outros países têm hoje para se encontrarem com o Papa ou participarem em eventos eclesiásticos universais, refere o órgão de comunicação jesuíta.
“Dadas as boas relações entre a Mongólia e a China, a ordem parece refletir não só o atual estado desconfortável das relações entre a China e o Vaticano, mas também o medo que o Partido Comunista Chinês tem da religião, em geral, e do Cristianismo, em particular”, escreve o vaticanista Gerard O’Connell.
Embora a Mongólia tenha seguido uma política mais independente desde que recuperou a sua autonomia total no início da década de 1990 (o país foi um estado satélite da União Soviética durante grande parte do século XX), goza de relações amistosas com a China, e esta, por sua vez, tem vindo a tornar-se o maior parceiro comercial da Mongólia e fonte de investimento estrangeiro, de acordo com as Nações Unidas.
Atividades públicas começam este sábado

A cerimónia de acolhimento no aeroporto de Ulan Bator foi sóbria, entre aplausos e presentes. Foto © Vatican Media.
O avião do Papa aterrou no Aeroporto Internacional Chinggis Khaan, na capital Ulan Bator, às 9h51, horário local, sete horas a mais que em Lisboa.
A cerimónia de acolhimento foi sóbria, entre aplausos e presentes, e em seguida Francisco foi conduzido à nunciatura apostólica, onde ficará a descansar durante o resto do dia. Na manhã deste sábado, 2 de setembro, iniciam-se as atividades públicas.









