Fórum de Diálogo do Kaiciid em Lisboa

Num “tempo dramático”, as religiões devem demarcar-se da violência

e | 16 Mai 2024

Sessão plenária do Fórum: líderes políticos e religiosos convergiram na importância do diálogo. Foto © Kaiciid. 

O ex-primeiro ministro italiano Matteo Renzi a referir o “tempo dramático” que se vive e a sublinhar a importância da cultura porque sem ela não há futuro; o patriarca ortodoxo Bartolomeu a afirmar que a crise ambiental é ética e espiritual (ver outro texto no 7MARGENS); o imã da Grande Mesquita de Meca destacando que o islão vê a diversidade como uma riqueza; o grande mufti muçulmano do Egipto enfatizando o “imperativo” de os líderes religiosos se demarcarem do uso violento da religião; e a activista dos Direitos Humanos Graça Machel a apelar à participação das mulheres na mediação de conflitos.

Na sessão de abertura do Fórum Global de Diálogo, do Kaiciid – Centro de Diálogo Inter-Cultural, que decorre em Lisboa nesta quarta e quinta-feira, um conjunto de líderes políticos, religiosos e de organizações internacionais convergiram na importância do diálogo para a construção da paz, num tempo em que aumentam os conflitos e o mundo se confronta com graves problemas ambientais, de desigualdades ou de valores. Mas também se percebeu espaço para a divergência: o ex-Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, manifestou o desejo de que Arménia e Azerbaijão possam viver em paz”, minutos depois de o xeque azeri Allahshukur Pashazade, ter referido que a ocupação militar e a expulsão forçada dos arménios de Artsakh (Nagorno-Karabah) correspondeu a uma libertação; e o rabi-chefe da Polónia, Michael Schudrich, declarou-se não militarista e a favor da paz, mas insistiu em que o problema de Gaza foram os ataques terroristas do Hamas contra Israel, considerando que este país tem o direito a defender-se.

“O mundo está a mudar muito rapidamente” e esta é uma “era de conflitos cada vez maiores”, referiu o secretário-geral do Kaiciid, o diplomata saudita Zuhair Alharti, na sua saudação inicial aos pouco mais de 100 participantes no Fórum de Diálogo Global, organizado pelo Kaiciid na capital portuguesa – e que incluem líderes das principais religiões do mundo, políticos e responsáveis de organizações não-governamentais. “Os desafios mundiais exigem uma acção colectiva” e este fórum pretende ser “uma viagem de diálogo e cooperação”, fundada nos Direitos Humanos e lançando as bases de processos que permitam concretizar esses objectivos. E que exige, acrescentou Alharti, o “combate a todas as formas de intolerância”.

Os tópicos do diplomata saudita acabaram por ser desenvolvidos pelas várias personalidades religiosas e políticas intervenientes na sessão de abertura. O imã da Grande Mesquita de Meca, Salih bin Abdullah al-Humaid, insistiu no valor da ética como fundamental nos processos para a construção da paz e na ideia da compaixão como uma das mais importantes no islão. “Nós, os muçulmanos, confirmamos que o islão é uma fé que se baseia no princípio da igualdade e da justiça entre as pessoas. Apela à tolerância, à moderação e à compreensão entre os povos e os estados. O islão é a fé da compaixão, Deus é o mais compassivo”, afirmou.

 

“As diferenças são uma dádiva de Deus”

Uma das sessões temáticas do Fórum. Foto © Kaiciid. 

Abdullah al-Humaid insistiu depois na importância da ética: “O diálogo tornou-se uma pedra angular na consecução de uma paz justa e abrangente e na consolidação dos valores morais e da ética em todas as sociedades e comunidades. (…) É preciso ter valores sólidos. A ética moral deve ser implementada com todos: com o inimigo, com os amigos, com todos.” Acrescentando que “as invenções e as questões materialistas não são suficientes para a integridade do ser humano”, o imã de Meca afirmou que “a civilização e o progresso não podem ser medidos pelas suas melhorias materiais, mas sim pelo seu impacto ou influência na preservação da dignidade do ser humano.”

Como que respondendo indirectamente a várias críticas feitas a determinadas perspectivas do islão, al-Humaid afirmou que o reforço da “cultura do diálogo e os seus princípios é um passo essencial para nos imunizarmos contra o extremismo e o ódio” e que o islão “também afirma que as diferenças entre os seres humanos são uma dádiva de Deus” e que o Alcorão afirma: “Vós fostes criados homem e mulher em tribos, para que se possam congregar e conhecer entre todos.”

O imã al-Humaid afirmou ainda que “o papel dos líderes religiosos é essencial na construção da paz entre as sociedades”. Em declarações a vários jornalistas após a sessão de abertura, a propósito dos bombardeamentos em Gaza, o imã disse, no entanto, que os responsáveis das religiões não estão sozinhos no terreno e que as decisões mais importantes cabem aos políticos. Lamentando o agravamento da situação naquele território, acrescentou que a única solução para o conflito é proclamar a independência de um Estado palestiniano. E reiterou que a posição da Arábia Saudita deve ser a de só estabelecer relações diplomáticas com Israel depois de os palestinianos terem os seus direitos plenamente reconhecidos.

Vindo do Egipto, outro líder muçulmano, o grande mufti Shawki Ibrahim Abdel-Karim Allam, insistiu também na ideia de que “é imperativo” que os líderes religiosos, os intelectuais, os cientistas “combatam” a violência ligada às interpretações erradas das religiões. Mas da região do Cáucaso, também predominantemente muçulmana, o xeque azeri Pashazade lamentou igualmente o aumento de fenómenos como a xenofobia e a intolerância, para se referir à guerra e à ocupação militar do território de Nagorno como uma operação em que cidades e aldeias “foram libertadas”. Uma alusão que seria depois indirectamente criticada por Augusto Santos Silva.

O rabi-chefe da Polónia, Michael Schudrich, referiu-se à perspectiva da diversidade, contando que, aos sete anos, aprendeu do pai e da mãe que, quando o Papa João XXIII morreu, tinha morrido “um grande homem”. “Percebi que nem só os judeus são grandes, também há grandeza para descobrir nos outros.”

“Somos todos filhos de Deus, Deus criou-nos a todos”, afirmou Schudrich, recusando-se no entanto a dizer se rejeita a operação militar de Israel em Gaza. “Não sou militarista”, disse, mas o Hamas atacou Israel várias vezes ao longo dos últimos anos e o Governo de Israel tem obrigação de proteger os seus cidadãos. É uma situação “horrível” e é “horrível” haver civis a morrer, acrescentou. Mas perante a pergunta de saber qual é a solução para o conflito, Schudrich insistiu no carácter terrorista do Hamas: o grupo governou Gaza durante vários anos e em vez de providenciar água potável para os seus habitantes, preferiu construir mísseis. “Não há uma questão de proporcionalidade, a questão é a segurança dos cidadãos de Israel – judeus, cristãos, muçulmanos ou ateus.”

O Kaiciid nasceu na sequência de um encontro no Vaticano entre o Papa Bento XVI e o rei Abdullah, da Arábia Saudita, que estabeleceram a criação de um organismo internacional dedicado ao diálogo inter-cultural e inter-religioso. Há três anos, a sede da organização, que estava na Áustria, foi transferida para Lisboa.

 

O vídeo das sessões plenárias do primeiro dia de trabalhos do Fórum pode ser visto no canal YouTube do Kaiciid:

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