“No princípio, quando Deus criou o céu e a terra, a terra estava sem forma e sem ordem.
Era um mar profundo coberto de escuridão (…)”
(Génesis 1,1.)

Lucas Cranach, O Jardim do Éden (1530), “onde Deus vivia com o ser humano, homem e mulher: vejam, olhem, há aqui todas estas árvores de fruto, podem comer de todas, só não podem comer de uma: a do conhecimento do bem e do mal.”
Deus começou a falar e tudo se ordenou no mundo com a maior harmonia e perfeição.
No Jardim do Éden, onde Deus vivia com o ser humano, homem e mulher, pôs tudo à sua disposição com a mais profunda hospitalidade: vejam, olhem, há aqui todas estas árvores de fruto, podem comer de todas, só não podem comer de uma: a do conhecimento do bem e do mal. Ele conhece o mundo, toda a sua complexidade, detalhes, formação, porque o criou.
Sabia Deus, e não o ser humano, o que aconteceria se dele comessem, num Éden em que só havia Bem: o Mal entraria, e com ele os seus efeitos: dor, mal-estar, vergonha, culpa e morte. O ser humano deixaria de viver eternamente como nessa altura vivia.
A não confiança em Deus, não seguirmos as suas instruções (que hoje podem vir em oração, exercícios espirituais e/ou Bíblia), acreditarmos mais nos outros, em qualquer outra entidade ou acreditarmos mais em nós mesmos e nas nossas capacidades do que acreditamos (necessariamente confiarmos) em Deus é, no meu entender, idolatria profunda.
Idolatria, é mais do que construir pedaços de madeira e adorá-los, é mais do que pôr algo acima de Deus, dinheiro, fama, luxo, filhos, família; a idolatria menos visível e mais presente é querer ser Deus, substituirmo-nos a Deus na nossa vida, achar que sabemos mais e melhor, que conseguimos mais, que Ele não sabe tudo; é a constante escolha de irmos sozinhos e não sermos co-criadores com Ele. Muitas vezes, ainda que distraídos, pomo-nos num patamar superior a Deus.
Para mim, esta é a verdadeira história do Éden que se repete. Deixamo-nos convencer que Deus, que é Deus, está errado, não deu as instruções certas, que tem uma carta na manga; por isso, até sabermos, não vamos alinhar no que Ele quer ou indica; temos uma ideia de Deus manipulador que pede uma coisa que nos será cara, não aprazível não melhor. Disse a serpente: Ele só vos ordenou que não comessem porque depois tornam-se Deus a saber tanto como Ele.
Os cristãos, que têm uma relação com Jesus Cristo, tiveram uma oportunidade de encontro, e por isso conhecem-no, sabem que essas ideias são imagens falsas de Deus, que enganam muitos e até a eles mesmos, se não orarem e vigiarem o seu pensamento e coração.
Recentemente recebi uma proposta da minha guia espiritual e amiga que mudou todo o meu olhar sobre a Bíblia. Ela disse-me:
“Quando lemos a Bíblia não ouvimos o tom de voz com que Deus e Jesus falam. Desafio-te a experimentar, sempre que é dito algo de muito negativo, uma maldição, apresentada por Deus ou Jesus, uma consequência de uma acção do não seguimento de algo que Deus sugere: ouve-o imaginando um tom consternado, numa branda amargura, preocupado, um aviso de amor com que se fala aos filhos, não um ralhete; mas experimenta ouvi-lo como num tom de quem está preocupado e sabe melhor, quer o nosso melhor, e sabe as consequências das acções todas.”.
Vamos experimentar ouvir o tom sugerido nas seguintes passagens bíblicas?
Êxodo 9:3-2. Palavras de Deus ao Faraó:
“Se não o deixares ir, se continuares a impedi-lo, então o castigo cairá sobre o teu gado que está no campo e haverá uma peste muito grave. Morrerão cavalos, jumentos, camelos, bois e ovelhas.”
Mateus 4: Palavras de Jesus:
“Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus.”
Marcos 4, 24: Palavras de Jesus:
“A medida com que julgarem os outros será a mesma que se há de usar convosco e até com mais rigor.”
Fez alguma diferença no entendimento da escritura ou de quem Deus é?
Para mim, mudou todo o olhar com que agora leio a Bíblia.
Mesmo nas passagens que até então considerava mais difíceis e duras, passei a ouvir o tom terno de Deus como o Pai conselheiro, amoroso, que sabe o que há diante de nós quando caminhamos às escuras, só porque conhece o tempo, o mundo, quem somos e que, como foi Ele que criou tudo, sabe as consequências do que irá acontecer antes de acontecer, e fala connosco, aconselha, e está preocupado porque não quer mesmo que aconteça a natural consequência do que vem.
Por vezes certas tradições retiram demasiado, numa leitura demasiadamente literal, do capítulo 2 de Génesis; este não é um livro histórico mas, até ao capítulo 11, é sobretudo mito-poético (como no episódio das serpentes falantes). Não significa que uma melhor compreensão da maior complexidade da nossa própria criação não possa ser entendida como um conto: o nosso Deus criou-nos em Liberdade, para o seguir ou não. Como seria a vida se tivéssemos como aliado o verdadeiro “dono disto tudo”? Detentor de todos os segredos da vida e do universo compreendidos e não compreendidos?
Mais livre, mais feliz, mais protegida e mais abundante talvez.
“Se fizerem aquilo que eu vos mando, serão meus amigos. Agora já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto aprendi de meu Pai. Não foram vocês que me escolheram, mas sim eu que vos escolhi e enviei para produzirem muito fruto; não um fruto passageiro, mas um fruto que dure para sempre.” (João 15, 14-16b)
Catarina Sá Couto integra a Comunhão Anglicana em Inglaterra e Portugal.










