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O grande impacte das pequenas pacientes acções

| 02/10/2024

Viúva pobre. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

 

Um recente relatório da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) prevê que as necessidades aumentarão até 2029 em 10.1 milhões de barris por dia. No COP 28 que ocorreu nos Emirados Árabes Unidos, muitos se alegraram com o compromisso assumido de começar a diminuir o uso de combustíveis fósseis, mas o que este relatório da OPEP afirma é que se trata de uma fantasia. Também em Portugal, o Observatório de Energia, Inovação e Clima da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) chamou a atenção de que o contributo de Portugal para a redução da totalidade das emissões de CO2 no contexto global é tão pequena (0.12%) que nas palavras do seu presidente, Álvaro Beleza — «comportamo-nos como uns totós, enquanto à nossa volta andam todos a tratar da Economia.» Para todos os que participam nas inúmeras iniciativas e trabalham para que as palavras da Encíclica Laudato Si’ passem à acção, o cenário é desmotivador, ou será antes o contrário?

A motivação para toda e qualquer iniciativa no âmbito do estilo de vida Laudato Si’ não é o resultado atingido, mas a clarificação da identidade de cada pessoa como alguém que acredita na Teoria do Caos. Isto é, a teoria que estuda os sistemas dinâmicos sensíveis às condições iniciais, onde pequenas variações podem levar a grandes diferenças nos resultados, tornando-os imprevisíveis a longo prazo. A SEDES argumenta que o pequeno contributo daquilo que Portugal pode dar é irrelevante, mas a realidade é que a SEDES não faz a mínima ideia se é ou não relevante. Pois, será preciso ter alguma paciência para deixar que se faça história até estarmos nas condições de avaliar o real impacte das pequenas acções e contributos.

O facto de vivermos numa época em que vinga a gratificação instantânea, gradualmente, essa ânsia tem passado para o modo como lidamos com estes cenários globais: impacientemente. Esperamos que o resultado se veja logo após a decisão. E ao longo do tempo, parece que a resiliência que mantém a subida na escalada íngreme da mudança de estilos de vida, cede à resistência emergente da ausência da típica gratificação instantânea que os nossos smartphones já nos habituaram. De acordo com o escritor dos “Hábitos Atómicos” James Clear, existem três anéis na Lei da Mudança de Comportamentos. O exterior dos resultados que engloba o mais interior dos processos que desenvolvemos para os obter, que, por sua vez, envolve o mais interior de todos que se refere à nossa identidade.

A tendência da OPEP, e o espírito da SEDES em relação ao contributo Português, é esperar que sejam os resultados (querer fazer a diferença) que afectem os processos (como os podemos atingir), de modo a garantirmos que o planeta se mantenha habitável e a economia se mantenha em crescimento, revelando o modo como vêem a humanidade: um homo economicus. É a direcção dos resultados → processos → identidade. Mas o espírito Laudato Si’ de todos aqueles que procuram este mês (até 4 de outubro) viver com maior intensidade o Tempo da Criação, move-se na direcção inversa. Somos homo sapiens sapiens (identidade), isto é, seres humanos que sabem que sabem e se identificam como sábios (não sabichões). O sábio é paciente e não põe as suas necessidades acima das necessidades dos outros. Por isso, desenvolve os processos interiores e exteriores que ajustam as suas escolhas mediante os bens relacionais comuns, em vez da aspirar à gratificação imediata dos seus desejos. E o resultado é o início de uma onda gerada pela pequena pedra que lançou ao charco.

Estou ciente de que alguns leitores poderão pensar que são palavras bonitas, e que é fácil dizer que em dias, como a 22 de Setembro (Dia Mundial Sem Carros), podemos todos prescindir do consumo de combustível fóssil, andar a pé ou de bicicleta, mas a realidade das necessidades é bem diferente. Há quem não tenha saúde para isso ou paciência. Aliás, o tempo que não queremos perder a sermos pacientes, deve-se à necessidade de mantermos a economia em crescimento se quisermos manter uma vida boa ou melhorar a vida daqueles que não é tão boa. Será o colapso ambiental, então, uma realidade inevitável?

Um dia Jesus observava as pessoas a colocar a sua oferta no tesouro do templo. As pessoas mais ricas davam grandes quantias porque o crescimento económico imparável o permitia, mas uma viúva pobre coloca apenas duas pequenas moedas que pouco valiam. Jesus comenta com os seus discípulos a sabedoria daquele cenário. Embora a quantia que a viúva deu fosse pequena, ela havia dado mais que todos os outros porque não deu o que lhe sobrou, mas tudo o que tinha para viver. A sua generosidade assentava na confiança que tinha na providência e na sabedoria de que o valor daquilo que damos não está na quantidade em si, mas naquilo que essa quantidade representa, como condição inicial que pode levar a grandes diferenças. Persistamos em dar o pouco que temos e tenhamos paciência. Pois, a história ainda não terminou.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro  “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

 

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