Vítor Feytor Pinto (1932-2021)

O grande organizador e formador, envolvido na “ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe”

| 7 Out 21

Organizador de várias estruturas, insistia na ideia da formação como essencial para a intervenção dos cristãos na sociedade. Optimista, afirmando o lado bom da vida, foi uma das personalidades destacadas na Igreja Católica em Portugal, nas últimas décadas. Jovens, saúde, visita do Papa, secularização, droga e uma das grandes paróquias de Lisboa foram vários dos seus campos de acção. O padre Vítor Feytor Pinto morreu nesta quarta-feira aos 89 anos. Dizia-se envolvido na “ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe”. 

vitor feytor pinto (1) foto Paróquia do Campo Grande

Mesmo se era capaz de estabelecer pontes com pessoas muito diferentes, isso não inibia o padre Feytor Pinto de afirmar as suas convicções. Foto © Paróquia do Campo Grande.

 

Ligou-se ao Movimento por um Mundo Melhor (MMM) para promover a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II (1962-65); esteve no início do trabalho da Igreja com os jovens, depois da quebra dos movimentos de jovens de Acção Católica, na segunda metade dos anos 1970; organizou a primeira visita do Papa João Paulo II a Portugal, em 1982, e a seguir coordenou a “pastoral do domingo”, que pretendia vincar a importância do dia semanal de descanso. Passou ainda pela luta nacional contra a droga, criou as estruturas católicas para a saúde, foi pároco do Campo Grande (Lisboa), onde inovou na liturgia, na catequese e na acção social. O padre Vítor Feytor Pinto, que morreu nesta quarta-feira em Lisboa com 89 anos, foi dinamizador, organizador, formador, num trajecto que uniu a sua entrega aos cristãos, à sociedade e aos amigos, para lá das diferenças. E que não deixava de afirmar em permanência o lado bom da vida e o optimismo perante a realidade.

Sobre a conciliação entre cristianismo e sociedade, escrevia o também recentemente falecido Presidente Jorge Sampaio, no livro O Caminho Faz-se Caminhando, de homenagem a Feytor Pinto pelos 50 anos da sua ordenação, em 2005. Figura “notável na síntese entre a fé cristã e o mundo actual”, dizia Sampaio, o padre Vítor sabia “conciliar, de maneira singular, as orientações doutrinárias da Igreja Católica, sobre as delicadas questões da vida e da ‘ordem terrestre’, com a evolução das ciências da saúde e com o imperativo da democracia avançada”.

Também na dimensão pessoal, a personalidade de Feytor Pinto era marcante: “Para ele, a amizade e os amigos estiveram sempre num nível o mais alto possível”, recorda João Chamiço Porfírio, professor em Évora, amigo muito próximo, que com ele trabalhou em diversas ocasiões, com destaque para a ligação no MMM. Tanto nesse movimento como na pastoral juvenil, na pastoral da saúde ou noutros âmbitos, tinha uma “doação e entrega no limite máximo possível, com um coração sempre aberto e uma generosidade sem limites”, diz João Porfírio.

Mesmo se era capaz de estabelecer pontes com pessoas muito diferentes, isso não o inibia de afirmar as suas convicções. Em 2005, numa entrevista para o Público, dizia-me que o preservativo se podia justificar na luta contra a sida e que “uma mulher não é criminosa quando tudo foi tentado e ela não encontrou outra saída que não o aborto”. A sua posição sobre o preservativo (o Papa Bento XVI diria o mesmo pouco tempo depois), apesar de muito suave em relação à doutrina que predominava, valeu-lhe que católicos “queixinhas” enviassem cartas anónimas para o Vaticano a acusá-lo de divergir da hierarquia…

 

Renovação da Igreja, Páscoa com jovens e formação de adultos
vitor feytor pinto (2) © Ecclesia/MC

Feytor Pinto: “Eu sei que a Igreja tem de estar metida dentro do mundo, portanto eu tenho de servir a Igreja, servindo o mundo”. Foto © Ecclesia/MC.

 

Nascido em 6 de Março de 1932, em Coimbra, Vítor Francisco Xavier Feytor Pinto ingressou aos 10 anos no Seminário do Fundão (os pais tinham-se mudado para a Guarda, entretanto). Com 23 anos, foi ordenado padre na diocese da Guarda, em 1955. Nove anos depois, em Roma, e logo a seguir em Portugal, envolve-se no MMM, grupo que dinamizava encontros (muito deles multitudinários, enchendo por exemplo o Pavilhão dos Desportos), para difundir as conclusões e a renovação do Concílio Vaticano II. na nota com que reagiu à notícia da morte, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, escreveu que a vida e o trabalho do padre Feytor Pinto foram “muito influenciados pelo Concílio Vaticano II, do qual foi um fervoroso divulgador”.

O Vaticano II e a sua teologia eram mesmo, para ele, “uma extraordinária revolução e uma verdadeira revelação de Deus e de Jesus Cristo”, confessava, no início de Março do ano passado, em entrevista à agência Ecclesia. “Por isso fui apaixonado pelo Concílio e o Concílio moldou a minha vida e formou o meu sacerdócio”, acrescentava.

“Eu sei que a Igreja tem de estar metida dentro do mundo, portanto eu tenho de servir a Igreja, servindo o mundo”, dizia ele ao jornalista Octávio Carmo, no livro-entrevista A Vida é Sempre um Valor, (ed. Paulinas). E acrescentava que o seu grande vade-mécum era Gaudium et Spes, o texto conciliar sobre a relação da Igreja com a sociedade actual. “Dignidade humana, comunidade humana, actividade humana e família, vida socioeconómica, cultura, política, paz. É muito simples: os grandes valores estão sempre cá dentro, não posso sacrificá-los, nunca.”

Depois de seis anos intensos, em 1970 passa a dedicar-se, por nomeação dos bispos, à acção junto dos jovens: primeiro como assistente nacional da Juventude Escolar Católica (JEC) e da Junta Central da Acção Católica, até 1975. A sua visão, no entanto, não era coincidente com a dos jovens que nessa altura – o “processo revolucionário em curso” do pós-25 de Abril estava no seu auge – pretendiam uma Igreja socialmente muito mais interventiva.

Entretanto, nomeado ainda em 1973 como responsável do Secretariado Nacional da Educação Cristã da Juventude (SNECJ), foi nessa qualidade que organizou dois acontecimentos fundadores do que viria a ser o trabalho da Igreja Católica com os jovens, em Portugal: a Jornada Nacional da Paz em 1976, a Páscoa Jovem 1977 e a Páscoa Libertação em 1978.

Aí contaria com a colaboração e a criatividade de um colega padre de Angra do Heroísmo, Manuel Costa Freitas. Nos três encontros, a música, um horizonte renovado para a intervenção dos jovens na Igreja, as “directas” de milhares de miúdos a rezar e a cantar em Fátima, tudo isso integrou as diferentes iniciativas, que lançaram também a perspectiva de uma catequese sistemática para os mais jovens. Nos dois anos seguintes, seriam publicados os primeiros resultados desse trabalho, em forma de catecismos de jovens: Levanta-te e Caminha (1979) e Jesus Cristo, um Messias Diferente (1980).

Em 1980, Feytor Pinto foi pregar a mesma dinâmica da catequese para outra freguesia geracional: em 1981, com o Congresso Eucarístico Internacional que decorreu em Lourdes (França), e em 1982, com a primeira visita do Papa João Paulo II; paralelamente, organizou a “pastoral do domingo”, que pretendia revitalizar a ideia do dia de descanso semanal numa sociedade já a viver os primeiros sintomas da secularização. Os quatro dias do Papa Wojtyla em Portugal foram para Feytor Pinto, diria ele mais tarde, os quatro dias mais felizes da sua vida. Nessa altura, o seu nome circulou como possível para bispo. Nunca seria nomeado para tal cargo, mas era um verdadeiro pastor, sempre próximo de todas as pessoas que o procuravam.

Numa nota publicada na página oficial da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa recorda também que Feytor Pinto “não precisou sequer de pertencer à hierarquia [católica] para ter influência decisiva em momentos essenciais da afirmação da mensagem cristã, com uma constante visão de serviço e de futuro, ou para ajudar a estabelecer diálogos ecuménicos e a aplanar caminhos em paróquias, dioceses e plataformas de partilha, em momentos cruciais da vida comunitária, desde os anos 70.”

As três iniciativas antes referidas foram, aliás, acontecimentos que pretenderam promover uma dinâmica de catequese de adultos, com centenas de encontros, catequeses, conferências, debates, publicações, que colocaram milhares de católicos num movimento de formação que não se repetiria até hoje.

Na sua página no Facebook, o padre Augusto Gonçalves, que trabalhou na pastoral juvenil em Leiria quando Feytor Pinto era o responsável nacional, recordava a última conversa entre ambos: “Há cerca de um ano visitei-o na Casa Diocesana do clero da diocese de Lisboa; ao partilharmos muitas coisas, dizia-me: sempre tive a preocupação de formar homens e mulheres para viverem no nosso mundo, com a ajuda de tantos que olhavam no mesmo horizonte (referia-se particularmente aos jovens).”

 

“Sereno, hábil e inteligente”
vitor feytor pinto © Ecclesia/MC

Foi ele o grande organizador da estrutura católica das capelanias hospitalares, alargando a perspectiva destas ao trabalho com todos os profissionais de saúde e não apenas com os doentes. Foto © Ecclesia/MC.

 

Em todos esses trabalhos, era grande a sua capacidade de trabalhar em equipa e de se rodear de pessoas a quem conseguia entusiasmar. O mesmo se repetiria nas tarefas que lhe seriam pedidas a seguir, incluindo, entre 1991 e 2002, em três organismos públicos: presidente do Secretariado EntreCulturas, do Ministério da Educação (1991-2001); alto comissário do Projecto Vida (1992-97) e membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (1991-2002).

No Projecto Vida, onde trabalhou primeiro com o governo liderado por Cavaco Silva, depois com o que seria chefiado por António Guterres, João Goulão, presidente do então Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência, recorda a “forma serena, hábil e inteligente” com que Feytor Pinto valorizava o que unia os diferentes intervenientes. Nessa altura, entre as medidas adoptadas estiveram a distribuição de seringas ou a descriminalização do consumo de drogas, que o padre Vítor via com bons olhos e que terá ajudado a que não houvesse católicos a opor-se a essas decisões.

Entretanto, a Conferência Episcopal, o Vaticano e o patriarcado não o largam: em 1992, iniciava-se um longo período de acção – que viria praticamente até ao final da vida – do padre Vítor no campo da saúde, em múltiplos cargos de estruturas católicas nacionais, internacionais ou do Vaticano (onde foi um dos responsáveis por várias conferências internacionais): foi ele, mais uma vez, o grande organizador da estrutura católica das capelanias hospitalares, alargando a perspectiva destas ao trabalho com todos os profissionais de saúde e não apenas com os doentes.

Ao mesmo tempo, Feytor Pinto lança também as bases da pastoral da saúde, promovendo congressos anuais que eram verdadeiros fora de produção de pensamento, de encontro dos diferentes profissionais católicos e de diálogo com os agentes políticos. Simultaneamente, acompanhava médicos, enfermeiros e outros profissionais, mesmo no âmbito internacional. Passava-se de uma acção “de apoio ao doente para a prevenção da doença, uma [visão] muito mais enriquecida”, em que a aposta era “na prevenção, tratamento, acompanhamento e cuidados paliativos, de tal maneira que possamos dar qualidade” de vida às pessoas, dizia, na entrevista já citada.

 

Brinquedos das crianças nas missas
vitor feytor pinto (3) © Ecclesia/MC

Na paróquia do Campo Grande, aproximou a linguagem litúrgica da vida das pessoas, dos problemas e alegrias quotidianas. Foto © Ecclesia/MC.

 

Estas suas movimentações nacionais e internacionais eram, por vezes, referidas nas homilias das missas da paróquia do Campo Grande, em Lisboa, da qual passou a ser o primeiro responsável em 4 de Outubro de 1997. Aí, aproveitou o que já havia sido deixado pelo antecessor, o padre Armindo Duarte, alargando o trabalho em equipa na liturgia, na catequese ou nas dinâmicas de apoio aos mais desfavorecidos, como aconteceu com a construção e renovação de casas no bairro das Murtas.

No Campo Grande, a linguagem litúrgica aproximava-se da vida das pessoas, dos problemas e alegrias quotidianas, além de permitir o barulho das crianças. Estas eram bem-vindas e havia celebrações e dinâmicas pensadas para elas e os seus pais, nas quais os risos, os choros, os brinquedos e as correrias eram também integrados. De novo, não faltava aqui o trabalho em equipa dos catequistas, coordenados pelo padre João Resina, outro nome incontornável da Igreja Católica em Portugal das últimas décadas.

Feytor Pinto era também alguém que, na Igreja, entendia a importância de uma relação transparente com os meios de comunicação. Fazia questão de repetir, a jornalistas mas também a colaboradores da paróquia, que atendia sempre qualquer profissional dos média que procurasse a opinião de alguém da Igreja. Era dos raros padres sempre disponível e capaz de largar tudo para o fazer.

Gostava de receber os amigos e confessava, na citada entrevista à Ecclesia, a sua predilecção por uma iguaria: “São Paulo disse: ‘a vida não acaba, apenas se transforma e, desfeita a morada do exílio terrestre, adquirimos lá a nossa casa’. Eu estou profundamente convencido disto. E, para minha alegria, Isaías tinha dito, muito tempo antes: ‘No céu temos preparado um banquete com as mais maravilhosas iguarias’, para nos servir a todos, conforme vamos chegando. Eu acrescentaria: deve lá haver, de certeza, trouxas de ovos, de que eu gosto muito…”

Um Cristo Crucificado, quadro a óleo do comunista Artur Bual, era uma das suas pinturas preferidas: Na Esperança da Ressurreição, era o título que ele gostava de lhe dar. E entre os poetas que gostava de citar, Antonio Machado estava entre os primeiros: “Caminhante, são teus rastos / O caminho, e nada mais; / Caminhante, não há caminho, / Faz-se o caminho ao andar.”

No ano passado, Feytor Pinto foi atingido pelo novo coronavírus e passou 40 dias no hospital. Em Dezembro, depois de recuperado, assumia sem dúvidas, em entrevista ao Diário de Notícias: “O Serviço Nacional de Saúde é fundamental. É a nossa salvação em termos técnicos, tive os melhores cuidados e de forma muito humanizada. É o serviço de todos os portugueses, não há excepções.”

Depois de recuperado, confessava-se animado e pronto para ajudar no que fosse preciso, nomeadamente na paróquia à qual tinha estado ligado durante largos anos. Não resistiu aos problemas de saúde que se foram agravando. A paróquiado Campo Grande, na nota com que divulgou a notícia, referiu a ideia da ternura de Deus em que Feytor Pinto tanto gostava de insistir: “Foi para tantos o amigo generoso, o companheiro de caminhada, o padre profundo e feliz e um homem de pensamento que deixa um legado extraordinário. As saudades são muitas, mas sabemos que ele olha por nós, envolvido na ‘ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe’.”

(Nesta quinta-feira, 7 de Outubro, a missa de corpo presente do padre Feytor Pinto é celebrada na Igreja do Campo Gramde, presidida pelo patriarca de Lisboa, às 11h30. O cortejo fúnebre segue depois para o cemitério do Alto de São João, onde se realizará o enterro, às 14h.)

 

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