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Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Assembleia enfrenta e debate temas “difíceis”

O lugar das mulheres na Igreja está no centro da mesa no Sínodo católico

| 13/10/2023

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Algumas das 54 mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, à saída de uma das sessões da assembleia: o tema do seu lugar na Igreja Católica emergiu esta semana como relevante. E vai ser um dos debatidos nos próximos dias. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

O mote foi dado pelo relator-geral do Sínodo católico e sublinhado por outros três intervenientes: as mulheres devem sentir-se parte integrante da Igreja missionária, como conseguir isso? O tema é uma das “questões difíceis” que as três centenas e meia de participantes com direito a voto (entre os quais 54 mulheres) enfrentarão nos próximos dias, ainda em “círculos menores”, a designação dos grupos de trabalho.

Arcebispo do Luxemburgo, o cardeal Jean-Claude Hollerich, relator-geral do Sínodo, começou por recordar a condição da maioria dos participantes na assembleia: “A maioria de nós são homens. Mas homens e mulheres recebem o mesmo batismo e o mesmo Espírito. O batismo das mulheres não é inferior ao batismo dos homens.” E perguntou: “Como é que podemos fazer com que as mulheres se sintam parte integrante desta Igreja missionária?”

O cardeal acrescentou, ainda em forma de três perguntas, se os homens – que, naquela assembleia concreta são sobretudo bispos e padres – se apercebem da “riqueza dos carismas” das mulheres, se o modo como agem em relação a elas não tem a ver sobretudo com a “educação”, os “preconceitos” e os “estereótipos” e se se sentem “enriquecidos ou ameaçados” quando partilham a sua “missão comum e quando as mulheres são corresponsáveis na missão da Igreja”.

“Para além de sermos homens, a maioria de nós é também ministro ordenado”, acrescentou o cardeal Hollerich, recordando que na Igreja há “outros carismas, outras vocações e outros ministérios”. E, de novo em forma de pergunta: “Qual é a relação entre o ministério ordenado e os outros ministérios baptismais? (…) Estamos prontos a aceitar que todas as partes do corpo são importantes?”

 

“Fidelidade à Origem” de Jesus

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Mulheres participantes no Sínodo: Igreja deve promover “a dignidade baptismal da mulher”, não “num sentido mundano, de direitos e desejos, mas em “fidelidade à Origem, que é Jesus”, disse uma das convidadas. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Outras três intervenções referiram a questão das mulheres, sob a forma de testemunho ou meditação espiritual. Maria Ignazia Angelini, monja da Abadia de Viboldone (Itália) e uma das orientadoras do retiro que antecedeu o início da assembleia, tomou as narrativas dos textos do Novo Testamento bíblico para perguntar como pode a Igreja “cumprir melhor a sua missão através de um maior reconhecimento e promoção da dignidade baptismal da mulher”. Não “num sentido mundano, de direitos e desejos, mas do bem-estar da Igreja” e em “fidelidade à Origem, que é Jesus, ao seu estilo, às suas palavras, aos seus silêncios, às suas escolhas”.

Falando de um “contributo humilde e generativo das mulheres” que provoca uma “fecundidade sem precedentes” nas primeiras comunidades cristãs, Ignazia Angelini disse que Jesus “inovou, criou um estilo, arriscado e revelador, no seu modo de relacionar-se com as mulheres” e que o percurso do Evangelho na Europa começou com “novas linguagens inauguradas por mulheres” que o apóstolo Paulo “não despreza”.

Uma outra religiosa, Liliana Franco Echeverri, da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas, destacou o “desejo e imperativo de maior presença e participação das mulheres na Igreja”.

“Por detrás do desejo e do imperativo de uma maior presença e participação das mulheres na Igreja, não há uma ambição de poder ou um sentimento de inferioridade, nem uma busca egocêntrica de reconhecimento”, afirmou a freira. Pelo contrário: trata-se de “um clamor para viver na fidelidade ao projecto de Deus” e de “um direito à participação e à corresponsabilidade igualitária no discernimento e na tomada de decisões”. Mas, insistiu na peugada do cardeal Hollerich, trata-se fundamentalmente de “um desejo de viver de forma consciente e coerente com a dignidade comum que o batismo confere a todos”.

Também o argentino Carlos María Galli, da Comissão Teológica Internacional, organismo que funciona no Dicastério para a Doutrina da Fé, da Santa Sé, referiu que os homens e mulheres baptizados são “chamados a partilhar os dons e as tarefas em cada igreja local” e em todos os âmbitos da Igreja.

 

Internet, “novo território de missão”

Misa transmitida pela internet. Foto © Jay Pee Peñ / Unsplash

Missa transmitida pela internet: estão os bispos “preparados para navegar em direcção a esse novo continente”? – pergunto o cardeal Hollerich. Foto © Jay Pee Peñ / Unsplash

 

Ao lançar o debate dos próximos dias, sobre o ponto B.2 do Instrumentum laboris (documento de trabalho) do Sínodo, o relator-geral pediu ainda que não haja “respostas apressadas que não considerem todos os aspectos dessas difíceis questões”. Além do lugar das mulheres, o cardeal Hollerich referiu-se também à Internet como “um novo território de missão”, perguntando aos responsáveis católicos reunidos com o Papa se estão “preparados para navegar em direcção a esse novo continente”. E explicou: “A maior parte de nós, bispos, não somos os pioneiros desta missão, mas aqueles que estão a aprender ao longo de um caminho aberto pelos membros mais jovens do Povo de Deus.”

À missão da Igreja, o pano de fundo dos debates para os próximos dias, pertence também “o empenhamento na ecologia integral, a luta pela justiça e pela paz, a opção preferencial pelos pobres e pelas periferias e a disponibilidade para o encontro com todos”, disse o relator.

Os ministérios – ou seja, as diferentes funções que os crentes e baptizados podem ter na Igreja –, bem como o papel dos bispos, exercido “de forma adequada numa Igreja sinodal” foram outros temas lançados pelo cardeal, a partir dos temas referidos no documento de trabalho. O modo como cada bispo “escuta aqueles que não são bispos e que, portanto, são portadores de um ponto de vista diferente” é uma das perguntas que devem fazer os que estão investidos dessa função, acrescentou Hollerich, apelando ainda a que os membros da assembleia dêem “espaço para as palavras uns dos outros”, sem ignorar “pontos de convergência e divergência, mas sobretudo as questões a ser exploradas e as propostas de passos concretos a ser dados durante o próximo ano”.

O cardeal Stephen Martin Mulla, arcebispo de Juba (Sudão do Sul), também se referiu ao papel dos bispos, dizendo que estes devem estar “activamente” envolvidos na vida dos fiéis” e que a verdadeira intenção desta assembleia sinodal é a de “renovar a Igreja, tornando-a aberta a todos”.

A referência de Hollerich ao próximo ano tem uma razão: da assembleia iniciada dia 4 e que terminará dia 29, sairá um novo documento que será “enviado” a todas as comunidades, paróquias, grupos e movimentos católicos pelo mundo inteiro. Estes terão de novo oportunidade de se pronunciar sobre o seu conteúdo de modo que, em Outubro do próximo ano, a segunda assembleia sinodal proponha estratégias, mudanças, caminhos, para a “comunhão, participação e missão” na Igreja. Será a partir do texto a aprovar daqui a um ano que o Papa redigirá depois uma exortação apostólica com decisões concretas e propostas de acção. [O 7MARGENS tem acompanhado e continuará a acompanhar o Sínodo com notícias, reportagens e vários textos de opinião.]

 

As mortes do Mediterrâneo que ninguém chora

Uma mulher espera a sua vez, com o filho, para obter serviços de saúde gratuitos prestados pela Cáritas de Jerusalém, no campo de refugiados de Buriej, no centro da Faixa de Gaza: esta semana, a violência irrompeu em força em Israel e em Gaza e as notícias irrompera na aula sinodal. Foto © Asmaa El Khaldi/Caritas.

 

O papel das mulheres já tinha sido, no final da semana passada, após três dias de trabalho, um dos temas propostos nos grupos de trabalho da primeira fase do Sínodo. A par do tema da formação (em especial do clero e dos seminaristas), da opção pelos pobres, da revisão das estruturas da Igreja, do diálogo inter-religioso, das migrações e dos cristãos a viver situações de perseguição e sofrimento. A questão dos abusos também foi referida, com os participantes a considerar que está em causa “a credibilidade como Igreja”, pelo que é preciso “erradicar os abusos sexuais, de poder e espirituais” e “estar perto das vítimas”. Convidado a falar ao Sínodo, e presente também num dos encontros com jornalistas, Luca Casarini, chefe de missão do Mediterranea Saving Humans, navio de resgate civil no Mediterrâneo, confessou: “Num mundo onde existe competição para ver quem mata mais gente, dominado pelo ódio, ajudar uma vida, abraçar um irmão ou irmã no meio do mar é um presente infinito, que muda vidas e mudou a minha.”

Referindo as pelo menos 2500 mortes que já se registaram este ano, desde Janeiro, no Mediterrâneo central, como um símbolo da “pobreza desoladora” do Ocidente, incapaz de “chorar por uma criança que morre”, Casarini afirmou:

“No meio do mar, sozinhos, encontramos os nossos irmãos e irmãs num ponto específico – e naquele momento encontram-se duas pobrezas: somos pobres de espírito. Neste nosso mundo ocidental consideramos normal o horror e isso significa que caímos numa pobreza desoladora.”

Durante esta semana, a tragédia da Faixa de Gaza – o ataque terrorista do Hamas em Israel, primeiro, e a resposta militar israelita, depois – irrompeu pela sala sinodal e o Papa não se eximiu a fazer vários apelos à paz. E várias das mais de 150 intervenções já feitas na assembleia – mais de um terço dos participantes – referiram as várias crises internacionais que se verificam hoje, questionando como podem os cristãos “ser um sinal de paz e de reconciliação no nosso mundo desfigurado pelas guerras e pela violência”.

Na terça-feira, Francisco recebeu também várias pessoas pobres de Roma, a quem convidou para almoçar e ouvi-las sobre o que esperam da Igreja. Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação, da Santa Sé, disse aos jornalistas que o encontro contou também com a presença do cardeal Konrad Krajewski, esmoler pontifício. “Amor, apenas amor” foi a resposta do grupo à pergunta do Papa, de acordo com Ruffini, citado na Ecclesia.

O prefeito do Dicastério para a Comunicação afirmou ainda que o tema da identidade sexual foi também abordado, permanecendo divisões na sala sobre o tema. A pastoral com pessoas homossexuais ou divorciados e recasados foi outro dos temas presentes na sala, registando-se apelos a “rejeitar qualquer forma de homofobia”. Um dos participantes é o padre jesuíta James Martin, conhecido pela sua acção neste campo. [Ver entrevista ao 7MARGENS.]

 

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